Na favela gonçalense, o Bar da Esperança continua fechado

Na favela gonçalense, o bar da esperança continua fechado

Entre o Barranco e a Caixa d’Água, comunidades do bairro Raul Veiga, já era raro o Bar da Esperança abrir nas semanas anteriores à pandemia do novo coronavírus. Veio a doença, ele nunca mais abriu as portas e provavelmente continuará fechado. Os estudos do Congresso e do Governo Federal com o intuito de ajudar pequenas empresas não incluem bares cercados pela pobreza e pela violência. O Estado não alcança onde não tem permissão para entrar.

Quando uma empresa acaba por dificuldades financeiras causadas pela crise econômica atual, empregos são perdidos, investimentos dão prejuízo. Quando um bar humilde chamado de “esperança” no meio da favela para de funcionar, o impacto na economia é bem menor. Cruel é o efeito na vida da família que tirava do bar alguns trocados pra sobreviver e na rotina das pessoas que moram no entorno. É a esperança literalmente se acabando, favelado não conta com terapeuta, coach ou especialista em hipnose. A fonte de conforto é o amigo encontrado na rua, no futebol e principalmente no bar, qualquer dia da semana.

A maior obra criativa na história humana são os nomes de bares. No Bar da Esperança mal cabem três homens espremidos, seria impossível se adequar às novas regras de atendimento respeitando o distanciamento social. É aquele tipo de estabelecimento onde o cliente não entra, grita da porta e o dono vem atender. Quando a cachaça chega, os dois apoiam os cotovelos no balcão e descem juntos o álcool pela goela.

Mesmo completamente fechado há meses, o bar está intacto. Da rua vemos uma parede verde-água estendida até perto da calçada, parede onde o letreiro foi escrito em vermelho com letra de fôrma. Também vemos a fachada do estabelecimento, que não tem nada além de um balcão e uma porta de madeira que abre pra cima e é presa num gancho no teto. Eu poderia tentar fotografar, mas tirar foto em favela sem autorização do tráfico não dá bom resultado e tenho um filho pra criar.

Nem o carro do Google Street, que é corajoso, entrou na rua do Bar da Esperança, a Nonato Faria. A foto com esse artigo é de outro, no mesmo bairro. A pobreza naquele trecho é tão grande que assusta os demais moradores do quarteirão. “Gente, ali só tem casa ruim”, dizem. É a desigualdade dentro da desigualdade. Há mais casas sem reboco, no tijolo cru, do que o normal em São Gonçalo. Elas são amontoadas em duas direções: para o alto, formando pilhas, e para os fundos, como vilas desordenadas. Os moradores penduram roupas pra secar na frente das casas, onde também batem papo e fumam.

Enquanto continua de pé, o Bar da Esperança serve como incentivo à vida, pelo menos. Duas crianças brincam no chão grosso, tão cuspido pelos bebuns, a partir das sete horas da manhã (quanto mais pobre, mais importante brincar). Morena, de cabelo crespo e loiro, uma menina sempre descalça se diverte com uma boneca velha. No mesmo lugar brinca um garoto forte, de uns oito anos, que adora puxar o rabo do gato que circula por ali. São Gonçalo descerá mais um nível para o inferno no dia que essas crianças não tiverem mais o letreiro vermelho ao lado delas. E a cidade poderia seguir o caminho inverso se a esperança fosse convertida em respeito pelos mais pobres e políticas públicas.

Mesmo com pandemia, o gonçalense nunca foi tão feliz

Mesmo com pandemia, o gonçalense nunca foi tão feliz

Foto: Fabiano Barreto, Piscinão de São Gonçalo

Saí de casa na terça-feira, dia 21, pra comprar na Rua da Feira alguns produtos que minha esposa revende pela Internet. Ainda no Vila Três, nos bares em frente ao valão que corta o bairro, vi uma felicidade que não se abala com o cheiro do esgoto que vem do valão e se mistura ao aroma da cerveja barata. Uma alegria que, ao invés de diminuir, se fortalece diante de uma pandemia mortal que se mostra mais cruel após a reabertura do comércio. A tentativa de isolamento social deve ter provocado no povo um sentimento oposto: a vontade de curtir, com pressa, o mais simples da vida.

Faltavam dez minutos para quatro horas da tarde. O trânsito na região de Alcântara era um caos parecido com as rodovias estaduais antes de um feriado prolongado. Pra ganhar espaço no engarrafamento, os mototaxistas subiam na calçada de pedestres e voavam do meio-fio para o meio da pista, na frente dos carros, buzinando como loucos, com o passageiro balançando na garupa sem deixar o copo de açaí cair. A multidão atravessava de uma esquina pra outra, migrando em busca de promoção.

Muitos pedestres usavam máscara na Rua da Feira, já os vendedores praticamente aboliram a proteção e recebiam os clientes nas lojas físicas sorrindo despreocupados. O mesmo relaxamento da gata peluda esparramada na calçada perto da esquina com a rua Laureano Rosa. Soberba como uma rainha, descansando sem acreditar que podia ser pisoteada a qualquer momento. Felicidade pura é viver sem preocupação alguma.

Cada gonçalense pode parecer um monarca, dono da cidade inteira, concentrado em uma ação única: virar um copo de cerveja pra dentro da boca, sentado na mesa do bar, ou contar uma história a uma amiga no portão, no caso das donas de casa. Aliás, os bares contam com a presença das mulheres e os homens adoram uma conversa no portão. Seria um desperdício da vida em São Gonçalo se não fosse assim.

No caminho de volta pra casa, passei pela praça CHICO MENDES. O trecho da praça que foi reformado estava lotado pela galera aproveitando o fim de tarde. Adultos se exercitavam nos aparelhos de ginástica, a juventude praticava parkour e flutuava na pista de skate e a criançada brincava na quadra de esportes, gritando e correndo ao mesmo tempo. Nunca tinha visto a praça tão cheia, nem antes da pandemia de corona.

O sol já tinha ido embora, mas as lojas de pipas do bairro Raul Veiga ainda estavam abertas e vendendo. Na rua que faz esquina com a rua onde moro, os meninos andavam de bicicleta e jogavam bola. Seus responsáveis batiam papo, segurando bebês no colo. Na minha rua rolava um altinho que me lembrou as partidas de futevôlei disputadas pelo Romário na Barra da Tijuca, pela qualidade dos jogadores. A diferença é que em São Gonçalo o jogo não acontece na areia, mas na rua concretada pelos moradores. E ao invés da vista pro mar, temos a vista pra barricada e das valas de esgoto, onde de vez em quando a bola cai.

Tudo isso numa saída de menos de duas horas, numa terça-feira sem comemorações especiais. Com gente se contaminando nas filas gigantescas dos bancos, adoecendo e depois morrendo. O usual em São Gonçalo é estranhamente alegre e pesado, até pra quem vive há 30 anos aqui. Não há um lugar no município onde o morador do bairro Barracão não possa ir vestindo a mesma roupa que usou pra dormir, nenhuma divisão social o impede. Algo que preserva a identidade do povo e a capacidade de persistir sem medo diante da morte, da pobreza e da violência.

O pré-candidato a prefeito sem propostas

O pré-candidato a prefeito sem propostas

Membro do Sindicato dos Servidores Públicos Efetivos de São Gonçalo (Sindspef-SG), o mediador da entrevista pediu ao pré-candidato a prefeito da cidade que se apresentasse. Parecia o salvador do povo, político quando fala de si mesmo sente um prazer que a gente percebe de longe, até quando a entrevista é online.

– Tudo bem, pré-candidato, meu entendimento é que o senhor já terminou sua apresentação, vamos para a primeira pergunta – o mediador perdeu a paciência antes da entrevista começar.

O servidor público é uma figura importante em qualquer administração, ele toca o barco, faz a roda girar, conduz o time pra frente, nada mais junto do que compreender como o possível prefeito enxerga a classe e seus planos para ela. O mediador perguntou:

– O senhor tem alguma proposta de reforma que reconheça o esforço e o valor do servidor público e permita que ele desempenhe melhor o seu trabalho?

– Dr. Armando, o senhor sabe que sou amigo do presidente do Sindspef-SG, nosso saudoso Dr. Eduardo. Eu mesmo sou servidor público de carreira e amo vestir essa farda. Defendo um Estado forte, íntimo do servidor, capaz de resolver os problemas da nossa sociedade.

Se esforçou o pré-candidato para responder a primeira pergunta, que já tinha sido enviada previamente para análise, dias atrás. Não fez diferença dar ao pré-candidato tempo suficiente para pesquisar como outras regiões abordam a questão do serviço público, depois refletir e compor uma estratégia baseada no seu conhecimento técnico e em seus valores como político e ser humano. A agenda do pré-candidato já está lotada há meses, participando de duas lives por dia e respondendo de forma vazia a outros entrevistadores. Além do mais, o principal valor do pré-candidato é a fome de ser eleito dessa vez, ou vai ou racha, candidatura custa caro e ele perdeu a eleição anterior.

– Tudo bem, candidato, como o senhor irá lidar com a questão da desordem urbana, que afeta a cidade inteira? O bairro de Alcântara, por exemplo, é uma potência comercial que pode render ainda mais ao município mas segue abandonado, sujo, fedorento, caótico…

– Exatamente, Dr. Armando! Aquilo é um absurdo. Fico feliz que o senhor tocou nesse assunto. A região de Alcântara tem enorme importância pra São Gonçalo e ninguém faz nada, entra governo, sai governo e a bagunça continua. Muito lixo no chão, camelôs batendo cabeça, o trânsito entrou em colapso.

– Mas o senhor tem algum plano de desenvolvimento da região? Qual é a sua proposta?

– Sendo eleito, meu governo não vai admitir mais essa desordem. Quem já trabalhou comigo sabe que tenho o pulso firme. Vamos criar iniciativas para buscar recursos, abrir o diálogo com os empresários e comerciantes da região, avaliar opções.

Confessa o pré-candidato que pretende fazer depois que for eleito aquilo que já deveria ter realizado há muito tempo, antes de considerar pedir o voto do eleitor. E ninguém, nem o mediador nem o pré-candidato, citou o problema mais grave de Alcântara, os jovens que passam o dia vendendo balas nos sinais de trânsito, as famílias que lutam pra tirar o sustento da caridade de quem circula de carro na rua.

– Infelizmente estamos nos aproximando do final da nossa entrevista, qual mensagem o senhor gostaria de deixar pra quem tá em casa, acompanhando essa live?

– Nós, gonçalenses, não podemos mais errar. Estamos vivendo um ano de crise, mas tenho esperança na cidade. O povo de São Gonçalo é guerreiro e bastante capaz, posso ajudar a população nesse processo de transformação e crescimento municipal.

A entrevista foi encerrada com sorrisos, cumprimentos, elogios e absolutamente nenhuma proposta prática, de eficiência comprovada em São Gonçalo ou qualquer outro lugar.