O que um ambulante com deficiência me ensinou sobre São Gonçalo

O que um ambulante com deficiência me ensinou sobre São Gonçalo

Sinto muito por você não contar com melhores condições de vida. Por não ser tratado com respeito e dignidade. Mesmo assim, unidos podemos ajudar uns aos outros e superar nossas dificuldades. É o que eu gostaria de dizer tanto para o município de São Gonçalo quanto para o ambulante com deficiência que vi vendendo balas no sinal de trânsito do cruzamento entre a Rua Laureano Rosa e a Avenida Maricá (a família Marinho já recebe homenagens, e dinheiro, demais).

Talvez uma má formação congênita, o pé direito do vendedor era dobrado pra dentro, em um ângulo de quase 90º na direção da outra perna. Arrastando um par de chinelos, ele literalmente pisava sobre o tornozelo e tentava correr assim pra ter uma chance de alcançar mais veículos parados quando o sinal de trânsito fechava. Mas não conseguia. Depois de colocar o saquinho de plástico com umas seis balas de hortelã e a mensagem “Me ajude a criar meus bacuris” no para-brisa dos carros, o ambulante precisava voltar todo o trajeto o mais rápido possível, pisando torto, às vezes pulando e outras puxando o pé deficiente antes do semáforo abrir.

Articulações não foram criadas para serem pisadas, qualquer pessoa que fizer o mesmo sentirá uma dor terrível. A habilidade de se locomover, ainda que com restrições, provavelmente foi desenvolvida sob sofrimento físico e psicológico. São Gonçalo também se sustenta com sofrimento porque não tem as ferramentas que carece para sobreviver, quem sabe um patinete elétrico. E porque não investe em atividades mais apropriadas, que poderia se dedicar.

São Gonçalo anda cem metros para frente e a mesma distância para trás. Vende algumas balas, mas nada que supra as necessidades do dia ou supere a performance comercial dos seus concorrentes. Caso não mude profundamente sua estratégia de gestão política e econômica, jamais a vida de seus moradores sofrerá uma transformação significativa. Tentando ser alguém diferente, São Gonçalo deixa os cabelos cacheados crescerem até os ombros e passa um creme para reduzir o volume. Enquanto estiver envergonhada, sua beleza natural não será conhecida ou bem explorada.

São Gonçalo pode ter pleno sucesso do jeito que é, o que não significa se destacar nacionalmente por riqueza. A cidade só precisa aplicar sua generosidade e inteligência nos próprios projetos ao invés de tentar fazer aquilo que parece mais fácil e bom só porque outros municípios estão fazendo. As melhores soluções nascerão com os gonçalenses, como suas deficiências nasceram. Isolada, São Gonçalo pode não ter as vantagens históricas de quem foi capital imperial ou estadual. Como o vendedor não tinha a agilidade dos outros ambulantes, mas sua força e resistência eram muito maiores. Integrada com seus moradores, São Gonçalo será capaz de experimentar, aprender e cobrir o território com suas habilidades, do comércio popular às artes, sem se esquecer da sua tradicional alegria.

O país da alegria se tornou triste

O país da alegria se tornou triste

Não é mais a mesma a alma brasileira da alegria do Carnaval, da sociabilidade e da exuberância da natureza. São acumuladas no coração de cada morador do país três mil mortes por dia de um novo mal que poderia ser evitado. Elas preenchem nossos pensamentos e afezeres desde que acordamos, somando 331.433 vítimas até ontem. Há estudos nacionais e internacionais que preveem que o número de mortos ultrapassará meio milhão no início do segundo semestre, outro motivo de tristeza. As piores previsões realizadas nos últimos meses em relação à pandemia se concretizaram com precisão.

Por razões óbvias, esse ano não houve comemoração oficial de Carnaval, nossa maior festa. Seria uma loucura desumana celebrar alguma coisa enquanto um vírus letal se espalha na população, tendo contaminado 13 milhões de pessoas. Aliás, o governo do presidente Jair Bolsonaro, que se enquadra na categoria de louco desumano, comemorou há quatro dias a instituição de um regime que perseguiu, torturou e executou homens, mulheres e crianças durante 21 anos a partir de 1964. É um governo que estimula o ódio deixando o Brasil ainda mais triste nessa pandemia, pronto para uma espécie de vingança que pode explodir a qualquer momento contra um inimigo imaginário que por fim é o próprio povo.

Dois brasileiros só se cumprimentam nos últimos tempos com a mesma empolgação que sempre nos diferenciou do resto do mundo, com aperto de mão, abraço, rosto colado e beijo, se forem totalmente imprudentes ou se estiverem alcoolizados. Em um país onde colegas de trabalho criam mais intimidade do que parentes em outras culturas, a necessidade de distanciamento social levou a uma alta preocupante de transtornos mentais, conforme verificado pela Fundação Oswaldo Cruz em uma pesquisa de comportamento (R7). Se a velocidade com que os brasileiros param na rua pra ajudar alguém a trocar um pneu furado impressiona estrangeiros pela primeira vez em solo nacional, um ato de caridade semelhante desprevenido hoje pode levar à contaminação.

O Brasil se tornou depressivo não apenas pelo impacto da Covid-19 sobre a vida moderna. Os povos originários são afetados com ainda mais crueldade pela doença. Em 2020, três bebês Yanomami foram enterrados em local desconhecido após suspeita de Covid, deixando suas mães, internadas por causa do coronavírus, em desespero. Em janeiro deste ano, dez crianças das comunidades Waphuta, Kataroa e Taremou, com idades entre um e cinco anos, morreram sentindo febre e dificuldade para respirar. Sequer tiveram o direito de serem testadas para confirmação do diagnóstico, o Governo Federal só chegou ao local uma semana depois das primeiras mortes. No mês seguinte, Aruká Juma, último homem do povo Juma na Amazônia brasileira, morreu de Covid-19 em um hospital de Porto Velho. O futuro e o passado brasileiros, como a jornalista Eliane Brum relata, estão sendo destruídos.

Praticamos o extermínio de índios e negros desde o século 16, mas não estávamos preparados para uma tragédia a mais, provocada por um vírus que conta na matança com aglomerações promovidas por ninguém menos do que o Presidente da República. O péssimo destaque internacional que temos em relação à violência nunca transformou o Brasil em um lugar a ser evitado. Hoje o número de mortes diárias coloca o país em um topo isolado, onde ninguém quer estar.

Exercício para que nenhuma vítima seja esquecida

Cada morte por Covid é sobretudo uma decepção

Trezentos e dez mil quinhentos e cinquenta brasileiros ouviram falar pela primeira vez sobre a Covid-19 no noticiário, dizendo que a doença tinha começado na China. Logo depois se tornou inevitável desviar do assunto nas conversas em família e com amigos de trabalho. A minoria que pôde buscar o máximo de isolamento, trabalhando de casa e saindo só para o essencial, como comprar comida, também discutiu sobre o coronavírus causador da doença nas redes sociais. Desde o início dos sintomas todos desejaram viver, inclusive quem não sentiu tanto medo. Preferir a morte não é natural nem humano. Quando ela acontece sobre a cama de um hospital, fisicamente dolorosa para o paciente e para sua família, se torna sobretudo uma trágica decepção. Fracassa o plano de sobrevivência, iniciado há até um ano atrás, quando começamos a adotar medidas contra a pandemia, como o uso de máscaras. Falha o Brasil como país que deveria proteger seus cidadãos, onde o número de vítimas diárias é maior do que em qualquer outro lugar do mundo. Sonhos são interrompidos e dão lugar à saudade. Parte da dignidade de cada brasileiro vivo também morre.

O sentimento inicial foi de dúvida sobre como a Covid-19 chegaria ao Brasil, mortal e abrangente ou branda e insignificante, uma “gripezinha”. Não houve restrições duradouras de circulação, por isso muitos não tiveram certeza sobre como se contaminaram. Apresentando sintomas que podem variar, a preocupação começou e com ela a necessidade de um isolamento maior a fim de não contagiar outras pessoas.

Buscar um hospital para realizar o exame de Covid inaugurou uma série de momentos de tensão. A esperança é de que a doença seja qualquer outra, pneumonia, gripe, quem sabe crise forte de ansiedade. A espera pelo resultado pareceu interminável, a rede pública leva dias para divulgar. A família permaneceu apreensiva até que o resultado positivo veio. Nesse instante, os incrédulos mudam de opinião. A Covid-19 enfim se torna algo real, palpável, inclusive se o resultado foi recebido por email. Os moradores da mesma casa se perguntam se não foram contaminados, bem como as pessoas que tiveram contato com o portador do vírus. O nervosismo é ainda mais contagioso.

A esperança jamais abandonou totalmente os mais próximos, mesmo com a piora dos sintomas, que intensificou as preces. Vizinhos que nunca disseram “bom-dia” enviaram mensagens contando que estão torcendo pela recuperação do doente. A internação fez com que parentes e amigos desejassem força e pedissem por orações nas redes sociais. Há vítimas que acompanham essas publicações sobre elas pelo celular, antes da inconsciência e intubação.

A falta de ar é um relato comum. Entre familiares, desespero, perda, impotência e angústia absoluta desde que a pessoa internada se tornou incapaz de se comunicar. Os boletins médicos geralmente são enigmáticos e inconclusivos, visto que o único desejo é saber quando a recuperação e a alta virão. Para o número criminoso de vítimas da Covid-19 no Brasil, infelizmente não houve recuperação. Muitas sequer contaram com tratamento adequado e morreram em salinhas improvisadas nos hospitais, esperando um leito de UTI.