A livraria Ler é Arte precisa de um respirador

A livraria Ler é Arte precisa de um respirador

Como salvar da falência, no meio de uma pandemia mortal, a única livraria em funcionamento em São Gonçalo, cidade onde vivem mais de um milhão de pessoas? Há 15 anos a Ler é Arte abre espaço para a produção literária gonçalense e oferece desde clássicos da literatura mundial a revistas em quadrinhos. Depois do mês de julho, por causa das dificuldades financeiras, a loja da Ler é Arte deixará de existir. Os escritores gonçalenses e o público leitor não terão mais um ponto de referência para vender suas obras e encontrar seus livros preferidos.

A Ler é Arte é uma livraria independente que se parece com os típicos pequenos negócios familiares acolhedores. Você entra e é tão bem cuidado que tem vontade de passar horas conversando, dando e recebendo carinho, quase sem perceber, só sentindo. Com milhares de livros a sua volta prontos para serem folheados e discutidos, o tempo passa ainda mais rápido.

O fechamento do comércio e a necessidade de isolamento social foram duríssimos com a Ler é Arte e com o mundo inteiro. O movimento de leitores reduziu a zero e não houve outra opção além de planejar o fechamento da loja, que por enquanto ainda se encontra na Galeria da Matriz, no bairro Zé Garoto, em frente à nossa igreja mais famosa. A franquia da livraria Nobel, no segundo piso do shopping Partage, continua fechada e não atende ligações. Resta saber se o fechamento é definitivo.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) recomenda a existência de uma livraria para cada 10 mil habitantes de uma região. Considerando a Ler é Arte, que fechará, e a Nobel, que não retomou as atividades junto com as outras lojas do shopping, ainda faltam 98 livrarias em São Gonçalo. Isso significa que os moradores da cidade têm menos chances de aprender sobre ela e de se desenvolverem como cidadãos através da leitura. Consequentemente contribui para a pobreza humana e social do município.

A sensação de entrar na livraria Ler é Arte é a mesma de encontrar um tesouro escondido. A voz, o pensamento e os sonhos dos gonçalenses estão reunidos lá, nas obras dos artistas locais, gritando por espaço e atenção. Em nenhum outro lugar isso se repete com a mesma abundância e diversidade. Nem na seção de autores gonçalenses da biblioteca municipal, criada há alguns meses, ou na erudita biblioteca do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (ICBEU), localizada no mesmo bairro da livraria. A Ler é Arte é o primeiro destino de poetas, quadrinistas, cronistas, romancistas, contistas, ensaístas, historiadores e toda espécie de escritores de São Gonçalo que há uma década e meia saem de casa com seu trabalho embaixo do braço tentando ganhar o mundo. Perder a Ler é Arte significa jogar fora um hábito cultural, um ritual artístico, e desperdiçar parte das poucas oportunidades disponíveis para ler e ser lido.

Temo ainda pelas crianças e adolescentes gonçalenses que gostam de livros e jamais saberão o que é conversar com a proprietária de uma livraria capaz de fazer uma pequena introdução sobre qualquer obra do acervo. Que conta histórias de luta e amor que saem das páginas e fazem o seu dia ser melhor depois que você deixa a livraria. Nenhuma franquia ou tecnologia substitui essa experiência, mas o momento ainda não é de lágrimas. A hora é de esforço conjunto e salvação da Ler é Arte.

Pombos musculosos não salvarão São Gonçalo

Os pombinhos querem resolver São Gonçalo na porrada

Famílias inteiras, com bebês de colo, passam o dia nos sinais de trânsito vendendo balas e panos de chão. Andam quilômetros no sol, espremidas entre os veículos e aspirando a poluição dos canos de descarga. Há mais pessoas em situações de miséria e fome montando barracas e vivendo nas praças do que crianças no balanço ou usando o escorrego. Jovens desempregados deixam a casa dos pais, abandonando sonhos, assim que são recrutados por traficantes de drogas. Esses são alguns dos inúmeros problemas que afetam a cidade de São Gonçalo. Nenhum deles será resolvido exibindo bíceps bem modelados ou lançando um olhar de raiva sobre adversários políticos. No esgoto a céu aberto, na rua sem asfalto e nos muros vandalizados, estupidez São Gonçalo tem de sobra, o que falta é inteligência.

Um grupo de pombinhos musculosos e cheios de raiva ocupa um espaço importante na política do Estado do Rio de Janeiro, seja em cargos eletivos ou no gosto do eleitor, pronto para elegê-los. Em São Gonçalo, dois deles querem exibir o peito estufado sentando na cadeira de prefeito e ocupando um gabinete na Câmara de Vereadores. Se consideram pombos bem intencionados e de bom coração, mas um já foi preso por pertencer a quadrilha de agiotas (O Globo) e o outro foi formalmente acusado de agredir mulheres (O Dia).

Não há dúvidas de que o mundo pode ser injusto com pessoas boas, pelo visto também com as aves. Os honestos, independentemente da espécie, não podem desistir de continuar sendo honestos, o que exclui a prática de emprestar dinheiro cobrando juros abusivos e de agredir fisicamente outros seres.

Os pombos sobrevoando São Gonçalo declararam ainda nas suas redes sociais a pronta intenção de pegar em armas para derrubar o Supremo Tribunal Federal (STF), caso a instituição tome decisões que os desagradem e provoquem a ira dos seus músculos e bicos. Sem o STF, guardião da Constituição, o povo brasileiro estaria indefeso contra aves autoritárias. Cada vez parece menos que esses animais sejam bonzinhos.

Se fossem inteligentes, teriam propostas públicas que iriam além de exigir a extinção dos partidos políticos da esquerda. Teriam projetos de governo e de lei baseados em estudos científicos e estatísticas. Se respeitassem o município de São Gonçalo, os pombos não teriam invadido, ameaçando agir com violência e portando armas, as obras atrasadas do Hospital de Campanha, construído dentro do Clube Mauá. Fazer Justiça não significa usar a força. E quando a força é necessária, em nome do Estado, existem instituições criadas e controladas para isso. Pombo só faz sujeira quando passa por onde não deveria estar, cagando, espalhando penas e disseminando doeças.

Esperteza, não podemos negar, não falta a eles. Depois que aprendem onde encontrar comida, não se esquecem jamais. Visitam o lugar onde comeram pelo menos uma vez durante meses, até anos, mesmo que a comida já tenha acabado. Os pombos do Estado do Rio têm boa memória e vão continuar se alimentando da política fluminense por um bom tempo. São Gonçalo não é nada além do seu território de exploração, da sua área de domínio a ser expandida.

Façam esse texto chegar ao prefeito pra gente tomar um litrão

Façam esse texto chegar ao prefeito pra gente tomar um litrão

Caro prefeito José Luiz Nanci, entendo sua dor. Deve ser triste e solitário governar São Gonçalo, uma cidade complexa, sem ter competência alguma, no meio de uma pandemia. E ainda não poder tomar uma cerveja na nossa glamorosa Praia das Pedrinhas sem receber uma tonelada de críticas pelo Facebook em tempo real.

A imprensa não entende que os decretos são assinados pra massa cumprir, pro bem do povão abandonado, e que acaba ninguém respeitando mesmo. Se o gonçalense não liga pra própria saúde, o que podemos fazer? Insistir até criar uma nova consciência cidadã seria pedir demais. O camelô que põe seu isopor de gelo no chão do Calçadão de Alcântara e rouba o wifi da Impecável pra acessar o WhatsApps e compartilhar fotos da sua camisa aberta em uma mesa de bar nunca fará ideia do sofrimento que é passar o dia sentado no gabinete, escorregando naquela cadeira branca e alta, com o ar-condicionado no 15, tendo que ouvir reclamações da primeira-dama e ameaças do vice-prefeito. São dois leões selvagens por dia antes do café da manhã, desde 2017, que fazem você se arrepender de ter dado ouvidos a mais uma ambição política, ser prefeito de São Gonçalo.

Sei que você trocaria de lugar com qualquer pessoa, mas não troca porque ambição e política são inseparáveis. A tentação pelo poder é tão grande quanto pelo dinheiro que vinha do salário de médico da rede pública enquanto você já era deputado estadual, mesmo com a Constituição dizendo, no artigo 38, que o servidor público deve se afastar do cargo para exercer mandato estadual. Se afastar e continuar recebendo é o fruto da tentação.

Se as pessoas soubessem como é difícil administrar São Gonçalo, apoiariam seus minutinhos de prazer. Principalmente com a cidade desta forma, repleta de jovens desempregados se drogando e se perdendo nas praças públicas onde deveriam existir crianças brincando. Você não estava preparado pra isso e ninguém no seu lugar, sem amor de verdade por essa juventude, estaria. Pra piorar, são tantos gritos na Câmara e no prédio da Prefeitura de gente exigindo cargos no governo que o barulho te acompanha desde o fim do expediente e só diminui com a brisa do mar. Sem cervejinha na Pedrinhas e com o corona no calcanhar, você surta.

São Gonçalo é um navio afundando e você ainda está fazendo um favor ao trazer para o governo seu papagaio, seu cachorro e sua tia-avó. Um frouxo já teria chutado o balde. Por falta de iniciativa e criatividade, não há como acender uma luz ou iniciar um movimento de transformação municipal que ensine algo bom aos jovens. Por omissão, não há como plantar uma ideia positiva na mente e no coração de um milhão de gonçalenses, mas de covarde ninguém pode te chamar.

Você vai continuar bebendo em público, ao invés de beber em casa, pegando e transmitindo o corona, como o camelô que precisa vender água e guaravita para sustentar os filhos. Em respeito à sua natureza gonçalense, a fim de não trair a si mesmo e para ter condições de continuar sendo prefeito desse camelô, você precisa beber ao ar livre, na nossa praia mais prejudicada. Vamos tomar um litrão gelado, me deixe ir junto. Faltam seis meses pra essa perseguição acabar, não sofra sozinho.