São Gonçalo tem futuro?

São Gonçalo tem futuro

Um povo precisa conhecer o passado da região onde vive, o que ela representa no presente e aquilo que pretende ser no futuro. Caso contrário, povo e região estarão incompletos e isolados, como estranhos um para o outro.

O Brasil, por exemplo, durante séculos foi colônia rica em recursos naturais, de natureza exuberante e farta de escravidão. Representa a mais complexa mistura racial e cultural do mundo. E quer o destino de ser um país diverso e ao mesmo tempo justo e pacífico, sem pobreza.

Olhando para São Gonçalo, num passado recente a cidade recebeu o apelido de “Manchester Fluminense”, em comparação à famosa cidade industrial britânica, visto que entre 1940 e 1950 o município constituía um dos mais importantes distritos industriais do Rio de Janeiro. Antes desse período, na primeira década do século 20, a cidade foi pioneira entre os demais municípios brasileiros em diversas técnicas agrícolas, como a fruticultura, e estava entre as cidades de maior desenvolvimento agrícola do país, segundo a historiadora Maria Nelma de Carvalho Braga. É verdade que a fama e o pioneirismo não resultaram em planejamento urbano e ganhos permanentes em qualidade de vida, mas havia um caminho, claro e positivo, que poderia ser trilhado.

Em escala que possa impactar a população de 1 milhão de habitantes, São Gonçalo hoje não tem nada além de violência e pobreza. Ela é origem do segundo maior deslocamento diário de pessoas do Brasil, perdendo apenas para São Paulo. Cento e vinte mil gonçalenses acordam, se arrumam e deixam a cidade todos os dias em direção a Niterói e ao Rio de Janeiro, número que corresponde a 96% da população ocupada, de acordo com o IBGE. O que não significa que sejamos uma cidade dormitório. Grande parte dos gonçalenses conquista o seu sustento no município, de maneira informal, através de bicos, nossa característica mais marcante, ao lado do desemprego entre os jovens e da baixa formação educacional.

Houve ascensão social no município, como em todo o Brasil, ao longo dos governos petistas e São Gonçalo passou a contar com serviços e produtos voltados para as classes B e C, mas é no despreparo e na desordem que o dia-a-dia municipal está baseado.

O aspecto mais preocupante não é o presente caótico, mas a ausência de futuro. Não há narrativa por dias melhores, nenhuma intenção pública ou sonho no imaginário popular sobre como São Gonçalo gostaria de ser conhecida pelo mundo. Nas ruas e no ar não circula o desejo de estimular as vocações do município. Porque, afinal, não conhecemos a nós mesmos bem o suficiente.

Por incrível que pareça, há possibilidades de transformação que nascem com o apoio do governo municipal. Dona de uma área de 248,4 km², São Gonçalo se tornou uma cidade mais ecológica com a criação de novas unidades de conservação. A exploração sustentável do meio ambiente e o desenvolvimento respeitando a natureza é uma obrigação para qualquer cidade neste milênio. No entanto, esse é um governo que abandona as boas ideias que ele mesmo cria. Em breve o assunto deixa de ser discutido e nem povo nem governo entendem para onde vão.

Corre que é tiro

Corre que é tiro

Corre, menino, entra pra dentro! Corre que é tiro. Larga a bicicleta aí, depois pega. Pelamor de Deus, vamo logo. Tá ouvindo não? Esse garoto tá surdo. Aí ó. Chega de rua por hoje, fecha o portão, já tá tarde. Eu falei que quando escurecer já é pra tá dentro de casa, você que não me obedece. Pega um jogo de tabuleiro. Também não é pra chorar, tá com medo de quê? Já tá dentro de casa. Mas sai da janela, não fica na janela não. Brinca no chão do seu quarto, o lugar mais seguro da casa é seu quarto. Ora, porque o tiro vem pelo outro lado, fica tranquilo. Brinca sozinho, agora não posso. Daqui a pouco para, amanhã você vai pra escola sim. Amanhã já vai ter acabado, já falei. Para de birra. Se continuar chorando, vai apanhar. Vou te dar motivo pra chorar. Ô garoto preguiçoso pra estudar, vai morar embaixo da ponte quando crescer se continuar assim. Não sei, não sei por que tá dando tiro. Eu sou obrigado a saber de tudo agora? Eu também não gosto de tiro, ninguém gosta de tiro, é só ficar quietinho no quarto que daqui a pouco acaba. Quer que eu faça o quê? Pega meu celular, bota o som alto no YouTube. Como tá sem Internet? Deve ter pego um tiro no roteador então. Deixa eu ver aqui no celular da sua mãe. Aqui, o celular da sua mãe tá com Internet. Você me perturba demais, me dá esse celular aqui. Pronto, coloquei, já tá no YouTube. Eu sei que o som do tiro é alto, é só pra você se distrair. Presta atenção no vídeo, garoto, cala a boca, esquece o tiro. Sei lá se é invasão, você faz pergunta demais. Que fuzil o quê, menino? Quem te falou isso? Para de repetir isso na rua, hein. Não quero ouvir você falando nada disso. Vai arrumar problema. É, deve ser a polícia, daqui a pouco vai parar. Uma hora acaba, ora, pelo menos isso eu sei. Eles também não vão ter munição pra fazer um dia inteiro de guerra. Tá bom, já parece guerra mesmo, você tá certo. Eu disse que esse lugar não tinha melhorado. Fica calmo uma semana ou duas e depois volta. Melhor ficar quieto, não vem com essa história de escola de novo pra cima de mim.

O trânsito gonçalense me venceu

O trânsito gonçalense me venceu

Dirigir é normalmente uma atividade sensível em qualquer cidade, que exige atenção, e pode até ser perigosa. Dirigir em São Gonçalo é algo ainda mais dramático. A lei não é cumprida e o trânsito se tornou agressivo, violento e selvagem demais. Falta paciência e educação a motoristas e pedestres. Depois de um ano dirigindo no município, perdi a paciência também. Deixei de seguir a maior parte das regras de boa convivência, desisti da luta, e o trânsito gonçalense me venceu.

Existem 311,4 mil veículos em São Gonçalo, de acordo com o Departamento Nacional de Trânsito. Número exorbitante para uma cidade sem infraestrutura ou inteligência viária urbana, onde as principais ruas continuam consideravelmente estreitas, desde a época em que eram transitadas por bondes. Onde os semáforos às vezes atrapalham, ao invés de estimular o fluxo.

A menos de um quilômetro da Prefeitura Municipal, região onde a fiscalização, a sinalização e a organização deveriam ser exemplares, há motoristas que avançam na contramão, piscando o farol e exigindo espaço. Isso pode confundir alguém não acostumado ao trânsito daqui e causar um acidente grave. O que fazer? O único caminho é desviar do motorista maluco à sua frente o quanto antes, jogando o carro para a direita, se houver espaço. Senão, bate.

Motorista aqui não espera as pessoas atravessarem a rua e não respeita sinal vermelho. Pedestre também não. Você pode alegar que na sua cidade também há mal educados. Mas em São Gonçalo, nem mancos e cadeirantes cumprem a sinalização para pedestres, inclusive em bairros de grande circulação de pessoas e veículos, como Alcântara. Sem qualquer amor à vida, eles invadem a pista. Eu, que não gosto de dirigir e tirei carteira porque sou machista (minha namorada resolveu aprender a dirigir e eu não queria viajar sempre no lado do carona), cansei de ser o único certinho na rua.

Parei de usar cinto de segurança. O trajeto que faço entre o Vila Três, Raul Veiga, Centro e Rocha está frequentemente engarrafado. Não se atinge altas velocidades ali. Além disso, é mais rápido e seguro entregar o carro para os bandidos se eu estiver sem cinto. O movimento para retirar o cinto de segurança pode ser confundido com o ato de sacar uma arma.

Não paro mais em diversos sinais vermelhos, como aquele após o Cemitério São Miguel, em frente à Enel, onde quase não há pedestres. Ninguém para. Um dia resolvi obedecer o semáforo e quase bateram na minha traseira.

Antes eu só estacionava em locais permitidos, de preferência estacionamentos privados. Deixei de ver vantagem nisso. O preço dos estacionamentos está caríssimo e em cada via há uma fila de carros parados. Hoje subo em qualquer calçada e deixo o carro em qualquer lugar, exceto na frente de portões de garagem. Essa safadeza ainda não faço.

Sabe aquele espaço de segurança que devemos manter em relação ao carro da frente? Sempre vinha um espertinho correndo, me fechava e enfiava o carro dele ali. E eu tomava um susto enorme. Seguro mesmo é ficar colado no carro da frente, sem espaço pra nenhum outro entrar.

Pequenos trajetos sozinho eu preferia fazer de bicicleta. Não há forma melhor de contribuir com o trânsito e o meio ambiente. Depois de ser espremido tantas vezes por ônibus e carros contra o meio-fio, abandonei o hábito. Tenho filho pra criar. Se o carro já estiver fora da garagem, uso até pra comprar pão. E deixo o trânsito gonçalense cada vez pior. E o centro urbano ainda mais poluído. A culpa não é minha, todo mundo faz isso.