Caminhando pelas ruas de São Gonçalo

Tento caminhar algumas vezes por semana, de manhã, por uma questão de saúde mental e física e pra ver a rotina dos bairros perto da minha casa, no Vila Três. Passo pelo Raul Veiga, Alcântara, Coelho, Almerinda e volto quando chego ao Colubandê. Antes de abrir o portão de casa, subo a escada que leva ao terraço e olho por cima do muro, pra esquerda e pra direita. Se estiver passando alguém com aparência de assaltante, eu espero. Caso contrário, abro o portão e começo.

Perto da esquina da rua Aldrovando Pena com a Alexandre Muniz, eu paro e pulo a primeira língua negra de esgoto, que vaza há pelo menos dois anos. Caminho por três minutos e quando alcanço a rua Luís Mota, no Raul Veiga, paro de novo e aguardo o melhor momento para atravessar. O fluxo de veículos que vêm do 2º e 3º distritos é intenso e não existe sinal de trânsito, nem calçada para pedestres. No horário escolar, as mães andam com seus filhos na rua, disputando espaço com os ônibus, arriscando a vida.

Na altura da praça Chico Mendes, os obstáculos são as pilhas de lixo na calçada. Encontro copos de guaravita, sacos de supermercado e comida espalhados. Quero levantar a cabeça pra manter uma boa postura durante a caminhada, mas se eu não olhar para baixo, posso escorregar num caldo de feijão e cair.

Depois de inspirar a fumaça dos veículos parados no engarrafamento constante que leva a Alcântara pela RJ-104, vem outro trecho perigoso, um pequeno viaduto no Coelho. A passagem para pedestres é estreita, algumas pessoas já foram atropeladas e jogadas lá embaixo, no valão. Existe outro caminho, pela rua Alberto Coelho, só que as calçadas são desniveladas demais, não servem para caminhada, e o índice de assaltos lá é maior.

Ainda no Coelho, surge o prazer do trajeto. Algumas dezenas de metros da rua paralela à RJ-104 são nivelados e sem buracos. Tem até árvores, amendoeiras. Posso manter a coluna reta, acelerar o passo e sentir o sol, que nasce em Santa Isabel, batendo nas minhas costas.

No Colubandê, perto da Fazenda, volto repetindo o caminho, passando pelos mesmos obstáculos, mas dou menos atenção a eles. Às nove horas da manhã, a vida está a todo vapor. O sol está mais forte, esquenta o rosto, mesmo assim vejo a vendedora de pastel feliz, sorrindo para o cliente enquanto prepara um caldo de cana na máquina de moer.

Além de ser interrompido pelos buracos, vendedores de auto-peças me param nas ruas, tentam apertar minha mão, oferecem um café da loja. Eu recuso, claro, estou caminhando. Na praça Chico Mendes, entre o Alcântara e o Raul Veiga, os cracudos gostam de dizer “bom-dia” e ai de mim se eu não responder. Olham de cara feia e me sinto a pessoa mais mal educada do mundo.

De volta à rua onde moro, algumas vizinhas pegam sol enquanto conversam na calçada sobre o tiroteio no dia anterior. Cada uma apresenta sua própria teoria, mais elaborada do que a inteligência da Polícia Civil, a respeito das novas alianças entre traficantes. Acho que cada rua de São Gonçalo tem um pouco disso tudo.

Há inocentes na favela

A comunidade ouviu tiros disparados por armas pesadas. Muitos tiros, parecia guerra. Depois, gritos de desespero. Mulheres imploravam por socorro, homens mandavam agir rápido, uma voz isolada pedia calma. Na esquina da entrada principal da favela, Paulinho, 11 anos de idade, caído sobre uma poça de sangue no chão, com a bicicleta ainda no meio das pernas. Alguns metros a frente, do outro lado da rua, Rômulo, mototaxista, morto com um tiro na cabeça. Tinha 25 anos e era pai de um bebê de 6 meses.

Os moradores se revoltaram: juntaram pneus, móveis, um sofá e colocaram fogo para bloquear a rua. Uma adolescente pegou duas folhas de papel em casa, colou as folhas, escreveu “PAZ” e se juntou à multidão. Policiais se aproximaram, mas não interferiram. A imprensa chegou. A primeira foto do protesto compartilhada nas redes sociais tinha uma legenda onde se lia “Bandido defendendo bandido!”. Quem compartilhou não leu a matéria (a violência em curso é o auge de um projeto político e social criminoso que contamina). O corpo de Rômulo ainda estava no chão, coberto por um plástico preto. Paulinho tinha sido levado ao hospital em estado grave, com um projétil na coluna.

Questionada pela imprensa, a Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro declarou que agentes faziam patrulhamento na localidade quando foram atacados por criminosos e houve confronto. Os suspeitos conseguiram fugir, mas foram apreendidos três pistolas nove milímetros e seiscentos e quarenta papelotes de maconha. Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

A mãe do menino está em estado de choque, não fala, as lágrimas secaram. Por causa da tristeza, ela não consegue voltar para casa, todas as noites dormia abraçada ao filho. Eram quatro horas da tarde quando ele pediu para andar de bicicleta, a comunidade parecia tranquila. Embora o controle do Rio de Janeiro esteja nas mãos de bandidos ou psicopatas, do Palácio Guanabara às mais capengas bocas de fumo, e o pobre não tenha para onde ir, ele guarda a fé de que o pior não vai lhe atingir. Apesar de Rômulo e Paulinho terem muito em comum – a cor da pele, a renda familiar, o bairro de origem – com as vítimas dos frequentes assassinatos no Rio de Janeiro. É humano ter esperança.

A tia de Paulinho também deu entrevista e disse ao repórter que não houve confronto. Na opinião da senhora, policiais desconfiaram do mototaxista que passava em alta velocidade e começaram a atirar. “É assim que eles agem aqui, sem respeito pelo morador”, acusou. Os gritos de socorro que a comunidade ouviu eram delas, da mãe e da tia.

Menos de 24 horas depois, a morte cerebral de Paulinho foi confirmada. Os órgãos dele serão doados porque, mais uma vez, é humano ter esperança. Só não é humano admitir que o Estado siga matando, sem parar, criança e trabalhador. Ou pensar que a morte de negros e pobres faz parte da solução que o Rio de Janeiro pode implementar contra a violência.

Nanci insiste nas escolhas erradas

Se dependesse exclusivamente das ações do prefeito, São Gonçalo seria um homem de quase 70 anos de idade, sedentário, doente, que passa as noites de sábado assistindo televisão e reclamando da vida sozinho. Ao invés de promover parcerias para estudar soluções para os problemas profundos do município, como o alto desemprego que afeta a juventude, José Luiz Nanci insiste em dedicar seu tempo inaugurando pracinhas com três aparelhos de ginástica ou acompanhando ruas sendo varridas. O prefeito se mantém imerso na rotina básica do Poder Executivo, visitando hospitais e tirando selfies com funcionários. Ele nunca teve ambição de fazer nada transformador, de viabilizar uma corrente de pensamento que tire São Gonçalo do buraco.

Dizem que o município não tem dinheiro para investir, criar, reformar etc. Que arrecada pouco. Isso não é desculpa porque não é novidade. Quando alguém se candidata a prefeito da segunda maior população do Estado do Rio de Janeiro, espera-se que apresente estratégias para lidar com as dificuldades financeiras. Quando não têm recursos, as instituições inovam, empreendem, se ajudam. A gestão pública deve fazer o mesmo.

Em Niterói, neste mês de maio, está acontecendo o HackNit, evento onde programadores, designers e outros profissionais se unem para discutir ideias e desenvolver soluções tecnológicas para problemas da cidade. As melhores criações ganham prêmios e a cidade pode aplicá-las no seu dia-a-dia. São Gonçalo é capaz de promover seu próprio evento, com vontade política e esforço em busca de patrocínio. Há inúmeras tecnologias gratuitas e de qualidade. E alguns dos melhores profissionais de tecnologia que trabalham em Niterói e no Rio de Janeiro dormem todas as noites aqui, em São Gonçalo.

Diante das limitações intelectuais do seu governo, Nanci precisa ter humildade, buscar inspiração em outros lugares do mundo, se aproximar dos gonçalenses com inteligência e capacidade de criação. Muitos já conduzem seus projetos e um pouco de incentivo governamental ajudaria bastante. Pois faz tempo que não somos mais a “Manchester Fluminense”. Através do apoio às vocações do município, como as artes urbanas, novas indústrias podem se desenvolver.

É graças a iniciativas populares, aliás, que São Gonçalo não afunda completamente na passividade do prefeito e no estúpido drama de relacionamento entre ele, a primeira-dama e o vice-prefeito. Nas noites de sábado, por exemplo, em vez de ficarem em casa assistindo televisão, há jovens conversando sobre assuntos variados como a Revolução Mexicana de 1910 e melhores técnicas de mixagem de som na Roda Cultural do Alcântara, na praça Chico Mendes. Lá eles trocam livros e andam de skate.

Apesar do esforço de muitos, a cidade precisa de um governo municipal forte e eficiente. O isolamento de Zé Luiz, sua pior escolha, mantém São Gonçalo parada de pé no meio do caminho, sem funcionar plenamente, como o Teatro Municipal.