Apoio ao Jornalismo

Se o Presidente da República perdeu a cabeça nas redes sociais, onde chama reportagens que reproduzem o próprio Diário Oficial da União de “fake news”, a situação exige dos brasileiros um comportamento especial. Não há mais espaço para mitos incorruptíveis no imaginário popular. O país precisa, mais do que em qualquer outra época, de pessoas dedicadas a buscar fontes confiáveis de informação, que apoiem o Jornalismo.

Até o dia 11 de março, Jair Bolsonaro atacou ou questionou a imprensa nacional através do Twitter 29 vezes, segundo matéria do jornal O Estado de S. Paulo. Desde o início do governo, Bolsonaro não ficou mais de três dias sem desacreditar o Jornalismo, pilar da nossa democracia. Para não deixar dúvidas, a matéria online exibe as postagens do presidente. Ao invés de apresentarem argumentos consistentes, elas são irônicas e abusam de frases de efeito para acusar a imprensa de manipular e desinformar.

A Justiça brasileira oferece ferramentas de defesa caso alguém se sinta caluniado. Bolsonaro afirma que é perseguido por notícias falsas, contudo, prefere inflamar sua militância, não raro compartilhando conteúdo de veículos sem qualquer capacitação jornalística e respeito à verdade, ao invés de manter o decoro presidencial.

Dois aspectos são extremamente preocupantes. O esforço pelas redes sociais para afastar seus milhões de seguidores de reportagens que cumpriram, claramente, a apuração dos fatos indica que a família Bolsonaro pode não sair isenta das investigações atuais envolvendo laranjas e milicianos. Investigações onde a imprensa exerce papel fundamental, várias vezes antecipando provas e teorias que mais tarde são confirmadas pela polícia.

A segunda preocupação é a reação das pessoas. Diante da notícia falsa de que a jornalista Constança Rezende tem a intenção de arruinar o senador Flavio Bolsonaro e o governo, seguidores de Bolsonaro imediatamente promoveram o linchamento virtual de Constança. Acompanhava a notícia um áudio em Inglês, de má qualidade e mal traduzido, mas sequer buscaram a interpretação de um falante nativo, uma segunda opinião. Ameaçaram, xingaram, ofenderam e amaldiçoaram um ser humano como se descarregassem sua raiva sobre o diabo. Em pouco tempo, o portal francês onde originalmente foi publicada a fake news envolvendo Constança declarou que o conteúdo era falso e que não tinha responsabilidade sobre ele. E o caso entrou para a longa lista de injustiças e vexames cometidos pelo Presidente do Brasil, há menos de três meses no poder.

O governo Bolsonaro é um estado de exceção, no qual o chefe do Executivo tenta impedir o debate público e o conhecimento da verdade através dos órgãos competentes. Em uma época em que nunca se viu volume tão grande de dados, está cada vez mais difícil fazer com que a Lei de Acesso à Informação seja cumprida. O presidente pretende transformar seus partidários e a si mesmo na única fonte de consulta a respeito das ações do governo, e o ódio contra a esquerda e a ingenuidade destacam mais um tuíte bobo do que uma reportagem com fontes e referências.

O Jornalismo ainda não tem o alcance e a diversidade que o Brasil merece. Seu desenvolvimento estimula uma sociedade livre, que não acredita facilmente em notícias falsas compartilhadas pelo presidente.

O coiso acordou

Jair Bolsonaro se afastou totalmente da dignidade que a Presidência exige desde o mês passado, quando elogiou Alfredo Stroessner, ex-ditador paraguaio e pedófilo em série. Na terça-feira de Carnaval, o presidente desprezou outra vez a importância do cargo que ocupa e publicou um vídeo que mostra um homem enfiando o dedo no ânus e rebolando em cima de um ponto de táxi. Outro homem se aproxima e urina na cabeça do primeiro. Explicações vazias foram apresentadas pela assessoria do Palácio do Planalto sobre o vídeo, o fato é que o Presidente da República compartilhou pornografia nas redes sociais, assistida por milhões de pessoas no mundo inteiro. A imprensa internacional ficou chocada com a obscenidade, menos Bolsonaro.

O comportamento recente do “capitão” resgata o caráter deturpado que conhecíamos, mas que parecia ter assimilado parte das responsabilidades presidenciais com a posse. No passado, Bolsonaro deixou claro em entrevistas, reuniões e discursos no plenário da Câmara Federal que não acredita em solução democrática para o desenvolvimento do Brasil. Na opinião dele, os Poderes Legislativo e Judiciário deveriam ser submetidos à uma nova ditadura, uma guerra civil completa, onde ex-presidentes seriam assassinados e o número de mortos se aproximaria de trinta mil. “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada!”, bradou o ex-deputado no fim da década de 90. Anos mais tarde, ele perceberia que assumir o poder através do voto seria conveniente.

São assassinadas 63 mil pessoas por ano no Brasil, mas Bolsonaro não prega a paz. Ele quer que a polícia mate amparada pelo projeto de lei anticrime, que deixou de lado o combate à corrupção e trouxe consigo uma verdadeira política de extermínio. Decretou o fomento às escolas cívico-militares porque soldado não pensa no que é melhor para a sociedade, simplesmente obedece, inclusive a ordens arbitrárias. Prega uma arma nas mãos de cada eleitor de direita, vulgo cidadão de bem, a fim de contar com sua milícia de estimação. Milícia que se alimenta de publicações constantes na Internet, onde o presidente expõe a pobreza da sua personalidade, 24 horas por dia, e mancha a imagem do Brasil.

Não por acaso, terminados os dois primeiros meses de governo, integrantes das áreas econômica e militar planejam conter os impulsos do presidente. Afinal, ele idolatra torturadores, cultiva ideias fascistas e decidiu que pode publicar qualquer vulgaridade que lhe vier à cabeça. Aliás, minimizar os danos causados pelo coiso, apelido que Bolsonaro ganhou no período eleitoral, se tornou papel do cidadão, além da equipe de governo. O escândalo da última terça-feira, intensificado pelo deboche de Bolsonaro a respeito do fetiche de urinar sobre o parceiro sexual, estará na memória de cada chefe de Estado que encontrar o presidente para tratar de assuntos do interesse brasileiro pelos próximos anos.

Há uma dezena de militares no alto escalão do governo de um presidente que louva a ditadura militar. É obvio que não é coincidência. As consequências já são terríveis, as decisões sanguinárias e retrógradas do governo afastam o Brasil das suas raízes e do seu destino. O coiso, descontrolado, mal iniciou sua gestão e parece estar ansioso para trilhar os passos dos seus ídolos.

Uma barricada em Ipanema

Sem nenhum aviso da Prefeitura, uma barricada feia e suja foi instalada durante a madrugada na Rua Redentor, bem perto da esquina com a Rua Joana Angélica, um dos metros quadrados mais caros de Ipanema. Os curiosos se aproximaram do obstáculo com os primeiros raios do sol. Ao invés da caminhada matinal, do cafezinho na padaria mais próxima, ficaram ali observando, indecisos entre a surpresa e a revolta.

Uma jovem atriz global não se conteve diante da “ofensa”, tirou uma selfie e publicou no Instagram com palavrões na legenda, antes de ligar para o 190. O policial respondeu, encabulado, que barricadas como aquela, impostas contra a vontade do povo, são mais comuns no Estado do Rio de Janeiro do que se imaginava. A recomendação era voltar para casa em silêncio e não tentar descobrir a origem do bloqueio. A polícia militar planejaria, com cuidado, uma operação com o apoio das Forças Armadas e do BOPE para ir ao local.

Depois de perder a paciência, a atriz gritou ao telefone que não morava em área de risco e seus impostos estavam em dia. O policial disse que se tinha barricada e nenhuma sinalização da Prefeitura, não podia fazer nada. Nas comunidades dominadas pelo tráfico, emendou, os moradores são obrigados a dar dinheiro a traficantes e milicianos para não morrer. Em Ipanema, pelo menos, ela não passaria por essa humilhação.

Parte do horror que acontece todo dia na Baixada Fluminense e na região metropolitana havia chegado à nobreza da capital. Era uma mistura de terra, pedras, placas de concreto e ferro, provavelmente roubados da reforma de um prédio a menos de cem metros do local.

Os engarrafamentos aumentaram. O comércio de luxo foi afetado. As calçadas ficaram tão sujas que as cadelas de estimação não podiam mais passear. Uma poodle que mora no prédio em frente ao monte de entulho passou a sofrer crises de ansiedade. Um famoso professor suspendeu a reunião semanal sobre Literatura no seu apartamento. Os pais que usavam aquele trecho para levar os filhos à escola precisaram se adaptar a um caminho mais longo.

A empregada da atriz aconselhou à patroa a aceitar a nova realidade. No bairro em que mora, na cidade de São Gonçalo, um homem foi torturado e morto por exigir publicamente a remoção da barricada. “Imagine um vídeo da senhora, machucada e com as mãos amarradas, circulando no WhatsApp de toda Ipanema”, alertou. A jovem concordou em ficar quieta, mas não gostou da sensação de impotência e abandono por parte do Estado.

A ideia da polícia invadir a Rua Redentor atirando em busca dos responsáveis foi descartada. Poderia atingir crianças e pessoas inocentes, como acontece nas favelas. Também seria melhor não contar com a ajuda do Exército se isso implicasse em identificações forçadas, com a identidade na altura do peito. Não combina com o estilo de vida carioca. Quem sabe um dia, com a Educação desenvolvida no país e o exercício pleno da democracia, a barricada suma de repente, no meio da escuridão, do jeito que nasceu.