Como transformar São Gonçalo em uma cidade melhor

Moro em São Gonçalo há 24 anos. “O azar é seu”, alguns dirão, principalmente os niteroienses; aqueles que não conhecem a cidade, depois de ler este artigo, talvez pensem o mesmo. Mas, não porque encontrarão no texto críticas sem propósito, zombarias ou lamúrias. O que pretendo é expor e debater este “azar” antigo para progressivamente transformá-lo em permanente maré de sorte. Os leitores gonçalenses, como estão no mesmo barco, espero no mínimo que remem juntos comigo.

São Gonçalo é uma cidade grande: mais de 1 milhão de pessoas ocupam 249 quilômetros quadrados. Apesar do tamanho, busco neste momento motivos para me sentir orgulhoso de viver aqui, mas não encontro um sequer. A pobreza humana brasileira, que maltrata a maioria dos municípios do país, está bem presente em São Gonçalo – nossa renda per capita é menor que um salário mínimo, somente 7% da população com mais de 24 anos concluiu o ensino superior e este ano foi decretado estado de calamidade pública na Saúde. Com indicadores tão desfavoráveis (Atlas Brasil 2013), a vontade de ajudar a desenvolvê-la é a única razão que me prende a cidade, pois seu povo também não desperta em mim esperança de dias melhores.

Corro o risco de ser injusto, visto que diversos aspectos compõem uma população de um milhão de habitantes, naturalmente complexa. Mas do povo de São Gonçalo a característica que mais se destaca é a desorganização, tanto social quanto política. Frutos do comportamento urbano caótico, o trânsito é ameaçador para veículos e pedestres, os centros dos bairros estão tomados pelo comércio ilegal e é hábito comum jogar lixo nas ruas, sem exceção, desde guimbas de cigarro a sofás. Se você mora aqui, percebeu esses males.

Mas, além de não repetir os erros dos outros, tenho algumas sugestões que podem transformar São Gonçalo em uma cidade melhor:

  • Reclame. Entre agora no site da Ouvidoria da Prefeitura Municipal de São Gonçalo e abra uma reclamação sobre aquele problema antigo que o aflige. A coleta de lixo que raramente acontece, a rua sem asfalto, esburacada ou mal iluminada, o esgoto a céu aberto etc.
  • Mantenha a limpeza. Não jogue lixo nas ruas.
  • Informe-se. Busque informação sobre o que acontece na cidade. O exercício da cidadania depende do conhecimento.
  • Cobre. O prefeito, seus secretários e os vereadores são pagos para resolver os problemas da cidade e servir à população. Vá até a Prefeitura, utilize o telefone ou as redes sociais para cobrar suas promessas de campanha. Verifique se a reclamação que você abriu está sendo atendida.
  • Vote com consciência. Escolha bem antes de confiar seu voto, conheça o candidato.
  • Invista na cidade. Tire do papel aquele sonho de criar um negócio. Só aqui você tem 1 milhão de clientes em potencial.
  • Desenvolva-se. Invista na própria educação e na de seus filhos.

Guardo a crença de que qualquer cidade ou nação deve seus indicadores socioeconômicos ao povo que a habita, não ao seu governo. São as pessoas comuns que têm o poder de criar as condições para positivamente influenciá-los.

Brayan Yanarico Capcha

Crianças são brutalmente assassinadas todos os dias no Brasil, seja nas favelas cariocas, vítimas de armas de fogo, ou no sertão nordestino, tomadas pela desnutrição. Mas, a morte do menino boliviano Brayan, de 5 anos, com um tiro na cabeça, enquanto chorava no colo da mãe e implorava para não ser morto, mostra que ainda não estamos satisfeitos com o tamanho da crueldade cotidiana e que também é necessário matar crianças estrangeiras.

Dizem que o bandido que assaltava a casa dos pais de Brayan, na zona leste de São Paulo, apertou o gatilho porque se irritou com o desespero do menino. Não. Ele apertou o gatilho unicamente porque é um psicopata assassino, frio e consciente de seus atos bestiais, que deveria ser enjaulado, isolado da sociedade até o dia de sua morte e então jogado em uma vala rasa qualquer. A polícia paulista, no entanto, continua fracassando em localizá-lo e prendê-lo há mais de um mês e a incompetência dela garante a parcela de responsabilidade dos cidadãos comuns sobre este ato covarde.

A Arquidiocese de São Paulo ofereceu missa em sufrágio pela alma de Brayan e alguns empresários doaram dinheiro para sua família, que obviamente desistiu de se estabelecer aqui e retornou à Bolívia. Como não há ato reparador ou justiça possível, resta trabalhar com afinco para que o Brasil deixe de ser a terra da impunidade onde seus monstros, quando presos, sabem que aproveitarão livremente o Dia das Mães e o Natal longe das grades.

Pelo horror vivido em solo nacional que resultou na morte violenta da criança, espero que o governo brasileiro tenha oficialmente pedido perdão aos parentes de Brayan. E que eles nunca nos perdoem.

Carta à Presidente Dilma

Cara Presidente Dilma,

meu nome é Mário, tenho 31 anos, sou casado e pai de um menino de 2 anos de idade. Moro na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro e sou analista de sistemas. Espero, sinceramente, que leia esta carta porque, longe de qualquer sensacionalismo, acho que estamos diante de uma grave crise política, econômica e social no país e gostaria de contribuir na busca por soluções.

Minha certeza de que trabalha com todas as forças para reverter este quadro adverso, comprovado pela insatisfação popular generalizada, me motiva a escrever. Esta fé vem do pouco que conheço sobre sua formação profissional e política e também porque acredito na capacidade de superação da mulher, especialmente uma guerreira brasileira.

Mas, para colocar o Brasil nos trilhos que o conduzirão ao nível de desenvolvimento social e humano digno de um país que ocupa a posição de sétima maior economia do mundo, vejo que falta maior participação da jovem outrora presa e torturada por defender seus ideais, onde encontramos a pessoa relutante cuja maior preocupação em eventos oficiais é reproduzir corretamente o discurso e cumprir todos os protocolos. Sinto que não consegue expor publicamente suas qualidades e temo que não consiga explorá-las também no exercício do cargo. Isto impede que o governo Dilma Rousseff tenha a marca da própria, por enquanto quase nula.

Costumo dizer que, pelo que sofreu e conquistou, seu governo deveria se destacar mundialmente como grande defensor dos direitos humanos. Contudo, ainda que com esforços como a Comissão da Verdade, não se destaca neste aspecto porque investigar o passado é pouco. Tão importante quanto, talvez mais, seria impedir os abusos frequentes da polícia brasileira, extremamente violenta.

É com esse alerta que pretendo ajudar. O Brasil seria beneficiado se as decisões fossem tomadas com maior base nas suas convicções. O assunto é complexo, sei, envolve desde a imagem pública da Presidência às relações interministeriais, passando pela coordenação de ações do governo e nenhum conhecimento técnico sobre isso tenho, restando-me a esperança de que leia esta carta e a ânsia de fazer o melhor pelo país.

Com todo respeito e admiração,
Mário Lima Jr.