Sr. Márcio

Hoje conheci o Sr. Márcio. Passei por ele na calçada, mas não reduzi o passo. Quando atravessava a rua, vi que o Sr. Márcio teria problemas: um ônibus fazia uma curva em alta velocidade e vinha na direção dele. Retornei, perguntei se queria ajuda e o Sr. Márcio prontamente aceitou. Interrompemos o passo, aguardamos o ônibus passar em fúria na nossa frente e continuamos o caminho, Sr. Márcio tateando o chão com a bengala branca comigo ao seu lado esquerdo. 

Isso aconteceu na Avenida do Rio Branco, no centro de Niterói e fomos juntos até a Praça XV. Só ofereci meu braço ao Sr. Márcio na entrada para pessoas com necessidades especiais da estação das barcas, a uns 300 metros do local onde nos encontramos, por acreditar que somente minha orientação verbal era suficiente e por acreditar na capacidade de locomoção do Sr. Márcio. É surpreendente para mim que em 31 anos de vida esta seja a primeira vez que auxilio um deficiente visual a embarcar em um transporte e a segunda vez que ofereço ajuda. 

Na roleta de embarque, pessoas discutiam com a funcionária responsável pelo controle da entrada porque pensaram que a funcionária, não uniformizada, estivesse furando a fila. E já dentro da barca, uma senhora disputava com uma jovem grávida um lugar no banco preferencial destinado a elas. Descobri que a vida entre idosos, gestantes e pessoas com deficiência pode ser bastante agitada.

Hoje é dia 27 de junho de 2013 e tem sido um mês especial, pois foi no dia 14 desse mesmo mês que tive meu rápido e primeiro contato na vida com um deficiente visual. Sempre me envergonhei de mim mesmo por conta desse atraso.

Da Praça XV eu andei mais um pouco em direção ao escritório na Avenida Almirante Barroso. O Sr. Márcio seguiu viagem para o Méier, como faz todos os dias para trabalhar, pegando um ônibus até a Central do Brasil, onde pegaria um trem até o destino final, totalizando quatro embarques em três meios de transporte diferentes (ônibus, barca e trem), desde sua casa na cidade de Rio Bonito, a mais de 80 quilômetros de distância.

E eu, que percorro 37 quilômetros e tenho disponível um ônibus que faz todo o trajeto, havia desistido de lutar.

ps. Para que eu nunca me esqueça do exemplo do Sr. Márcio, quero registrar que ele aparentava ter 50 anos de idade, 1.75 m de altura e uns 65 quilos, era magro, negro, cabelo baixo característico, alguns fios brancos, tinha o rosto redondo, calçava um par de tênis brancos, estilo “sapa-tênis”, de cadarços longos, casaco branco com capuz e calça jeans escura.

Reduzir a maioridade penal é enganação

O número de adolescentes infratores aumentou no Brasil inteiro nos últimos meses e não para de crescer: sábado passado (25/05), um jovem de 17 anos matou a tiros um professor em Fortaleza e diariamente temos notícias de roubos, furtos e outros delitos cometidos por adolescentes. Mesmo assim, sou contra a redução da maioridade penal de 18 anos para qualquer idade porque a redução não resolveria o problema da criminalidade.

Pesquisas indicam que desigualdade social, baixa escolaridade e falhas na educação familiar, problemas tão profundos quanto a violência, geram jovens mais suscetíveis a cometer crimes. Por isso, enquanto cidadãos deveríamos analisar, discutir e cobrar com mais rigor soluções para esses males, em vez de defender prematuramente qualquer falso tratamento, como a redução da maioridade.

Mudar nosso pensamento é o maior desafio – acreditamos que problemas como a pobreza alheia não nos afetam diretamente, outro engano, e nos habituamos a tragédias como pessoas morando nas ruas e crianças pedindo esmola, mas nenhuma sociedade se desenvolve se não estiver plenamente unida.

E como cada pessoa pode agir de imediato a fim de combater a criminalidade? Podemos buscar mais educação para nós mesmos, educar melhor nossos filhos, transmitir valores morais e éticos aos jovens que conhecemos e favorecer a satisfação mútua em vez do lucro individual.

Lembrete da capacidade humana

Cada uma de nossas atitudes influencia imediatamente o meio em que vivemos e as pessoas ao redor. Isto é algo que não deveríamos esquecer jamais, pelo bem comum. Antes de agir ou se omitir, seja a questão importante ou aparentemente insignificante, algum tempo de reflexão é necessário, tamanha nossa capacidade individual de transformação. Afinal, preferimos existir em um ambiente saudável e harmonioso, que depende das decisões corretas para ser construído.

Sentir-se fraco é a maior ilusão que pode surgir na mente humana, pois sabemos que todos os exércitos e nações de importância da História foram sustentados pela força pessoal do homem. A motivação dos indivíduos, reunidos em prol do sonho, é o que torna qualquer causa realidade. Se uma garota de 12 anos de idade resistiu às ações de um grupo terrorista no Paquistão, não há limites para o que somos capazes de fazer.

Mas, frequentemente ignoramos a intensidade deste poder e sua responsabilidade intrínseca. Se todos decidirem beber refrigerante e jogar a lata na rua, certamente o local se tornará sujo, inabitável. Não sejamos os primeiros a demonstrar tal falta de educação. Procurar a lixeira é muito menos arriscado do que desafiar um grupo terrorista.