O ano quase perdido

Quando um governo repetidamente ofende e prejudica crianças e adolescentes que deveria desenvolver sob sua proteção, atinge o nível mais baixo possível da infâmia. Em 2015, em São Gonçalo, o governo Mulim serviu como abrigo para ladrões que enriqueceram ilicitamente, duas vezes, usando as crianças pobres da cidade. Como cafetões explorando suas putas por dinheiro, negociaram livros e merenda escolar, em vez de sexo. Apesar do domínio de um governo tão imoral, graças às iniciativas populares o ano não foi inteiramente perdido.

Entre outras calamidades, Mulim corrompeu as finanças municipais (a administração pública tem rombos milionários), humilhou o funcionalismo público (inchou seus quadros com cargos comissionados politiqueiros) e emporcalhou a cidade, que sufoca em meio ao lixo fedorento não recolhido (prática semestral para firmar, sem licitação, contratos emergenciais de coleta caríssimos).

Mas o pior que aconteceu em 2015 foi o martírio dos estudantes da rede municipal de ensino. Desamparados intelectualmente, muitos analfabetos aos 9 anos de idade, eles foram frequentemente dispensados por falta de merenda ou professor. Então caminharam famintos pelas ruas durante o horário escolar, carregando uma maleta com livros superfaturados – adquiridos sem licitação pelo programa Magia de Ler – sem ao menos saber juntar palavras.

Mesmo submetida à ganância de seres doentes que não deveriam ocupar a Prefeitura, através de suas ações a população impediu que São Gonçalo regredisse enquanto município politicamente independente, que busca sua afirmação cultural. Eventos independentes dedicados à arte local continuam existindo, como o Uma Noite na Taverna, e inúmeros outros movimentos se fortaleceram, como o Free Art e o Diário da Poesia. A luta pela recuperação da Fazenda Colubandê, liderada por moradores das redondezas, também se revigorou em 2015 e mostrou aos governos municipal e estadual que o gonçalense ama seu patrimônio ao ponto de acordar cedo aos domingos, varrer e recolher o lixo do espaço.

O governo Mulim perdeu a cabeça. Com o apoio de vereadores ensandecidos que deveriam fiscalizar e limitar os danos causados pelo prefeito, ele faz o que quer com a cidade. Se pudesse, alienaria a alma de cada cidadão porque o orçamento anual da Prefeitura de mais de R$ 1 bilhão é pouco para seus desperdícios. O cidadão modesto, porém, não se entrega. Ao descer o Morro da Caixa D’água de bicicleta, assoviando às seis da manhã, para vender panos de prato no sinal de trânsito em Alcântara, ele inunda São Gonçalo de orgulho e honestidade, mesmo sem saber. Que ele continue lutando em 2016, ano de eleições municipais.

Opressão que dura séculos

“Tomei um tiro, tomei um tiro”, gemeu Marcos Vinícius do Santos, de apenas 11 anos, antes de morrer, na Cidade de Deus. Que lugar brutal é este, onde crianças pobres, negras ou mestiças, são tratadas como seres insignificantes e assassinadas a esmo? É o Estado do Rio de Janeiro, é o velho Brasil violento, desigual e opressor das classes desfavorecidas.

A dor que atingiu o corpo de Marcos Vinícius, baleado enquanto ajudava o pai a vender peixes e frutas, qualquer adulto fluminense teme imensamente. Saímos de casa ao nascer do dia para trabalhar, apavorados. Torcendo para não acharmos uma bala perdida, pedindo a entidades e santos que desviem assaltantes do caminho, implorando a Deus por proteção contra a dor do tiro que Marcos, tão jovem, foi obrigado a suportar no braço e no peito ontem, faltando dois dias para o Natal. Além dele mais três pessoas foram baleadas: um adolescente de 17 anos, que também morreu, uma criança de 9 anos e uma mulher, ambos internados no hospital. Vítimas dos disparos realizados por ocupantes de um carro preto – da morte – que passou pela comunidade, dizem testemunhas.

O depoimento do pai de Marcos Vinícius é de um homem metade morto, de acordo com ele. Alguém profundamente infeliz, abandonado pela vontade de viver. Mas não há desespero em sua voz, apesar de ter perdido o filho instantes antes. O morador da favela sabe que a qualquer momento pode ter destino parecido, sofrer uma agressão física policial, execução sumária, ou receber um dos projéteis que têm incrível precisão de encontrar trabalhadores humildes ou seus filhos e poupar a elite branca brasileira.

Não é por acaso. Na zona sul carioca, principalmente no horário noturno deste período comercial intenso, se encontra uma viatura policial quase a cada esquina. Parece que o presidente de uma importante nação está fazendo compras nas redondezas. No horário de entrada e saída dos colégios da região, onde Marcos não tinha dinheiro para estudar, outras viaturas circulam o tempo inteiro fazendo a ronda. No resto do Rio de Janeiro a Polícia Militar caminha a passos curtos e suspeitos.

Incendiar pneus e pedaços de madeira é o desabafo do morador da comunidade, atingido pela guerra do Estado contra suas antigas lacunas sociais. Por fogo no lixo que não é recolhido regularmente pelo poder público, lixo que mais tarde entope valões e provoca alagamentos que maltratam o pobre novamente, sempre o pobre. Fecha o trânsito para despertar a atenção das autoridades e dos insensíveis – esclarecidos, mas omissos – que se sentem lesados pelos protestos. Para encerrar as manifestações, aí surge o Estado, através da força policial.

Os favelados devem enterrar seus filhos, muitas vezes mortos pelo próprio Estado, e retornar para casa em silêncio.

Ficamos mais gonçalenses no Natal

São Gonçalo fica ainda mais gonçalense no Natal. As ruas estão lotadas, não? De gente, carros, lixo e fedor. Pessoas de todos os tipos e gostos circulam de mãos cheias, ensopadas de suor, carregando sacolas de compras pra cima e pra baixo, ansiosas como se vivessem o último dia na Terra. Graças ao horário de verão e às férias escolares, as crianças brincam até o início da noite e raias e cortadeiras colorem o céu da cidade.

Nos estacionamentos dos supermercados e shoppings não há mais espaço. Motoristas brigam por vagas batendo um carro no outro, como se disputassem no autopista, brinquedo dos parques de diversão. Se o pedestre não sai da frente, é atropelado imediatamente.

A iluminação de Natal das casas e apartamentos, no entanto, está mais modesta, pelo menos no Vila Três. A inflação de dois dígitos e o desemprego afetaram a economia doméstica do cidadão. A Fazenda Colubandê, sob incertezas, foi iluminada com pompa, centenas de pessoas e a presença ilustre da Orquestra Sinfônica Municipal. São Gonçalo poderia ficar inteiramente às escuras nesta época, exceto a Fazenda Colubandê. Dezenas de milhares de trabalhadores que voltam para casa pela RJ-104 recuperam suas forças no exato momento em que passam em frente a ela, viva, iluminada. Refresco para a alma que renova a esperança do homem e da mulher explorada, cuja jornada de trabalho aumenta em 50% por causa dos engarrafamentos. Que o lixo proveniente da decoração tenha sido recolhido, ao invés de jogado no Casarão, como fizeram ano passado.

Enquanto a Fazenda se destaca, a Política desaparece totalmente no Natal. Os vereadores que não sabem ler nem escrever se vestem de Papai Noel, trocam entre si honrarias, títulos e aplausos sem qualquer merecimento, distribuem presentes para a população e montam árvores de Natal para enfeitar os bairros, que maravilha. Existe aspecto mais gonçalense que o populismo miseravelmente ignorante?

A Saúde “morre”, entra em um dos piores colapsos do ano. Faltam médicos até nas unidades particulares, o povo que não adoeça.

Ficamos mais criativos, agitados e sensíveis neste período. E carregamos na memória outro Natal compartilhado nesta cidade humilde, também só nossa.