As vítimas do gonçalense esperto

As vítimas do gonçalense esperto

Depois de votar em Capitão Nelson pra prefeito de São Gonçalo no segundo turno das eleições municipais, às sete e meia da manhã de domingo o gonçalense esperto já pendurava a gaiola na fiação elétrica em frente à casa dele, no Raul Veiga. Muito safado tinha furado a fila dos idosos no primeiro turno, na opinião de Boquinha, então na segunda etapa da votação ele resolveu não dar mole. Foi um dos primeiros a chegar na seção eleitoral, do alto dos seus 38 anos de idade. Se outros, inclusive idosos saudáveis, aproveitavam o horário mais vazio, ele achava que tinha esse direito também.

O coleiro na gaiola, sem culpa nenhuma da destruição da natureza, é a primeira vítima diária de Boquinha. De camiseta regata, boné na cabeça e um copo descartável com café na mão, nas manhãs sem chuva Boquinha pendura o coleiro cantor do lado de fora e se exibe para os vizinhos. Na consciência, ainda que não tenha autorização do IBAMA, a certeza de que a jaula contribui para a preservação de espécies que nasceram pra voar. No coração, raiva pela existência do IBAMA, que serviria apenas para multar quem deseja desenvolver o Brasil, quando é punido quem destrói o meio ambiente e enriquece a si mesmo e seu pequeno grupo de sócios.

No dia da eleição os idosos gonçalenses não foram as únicas vítimas lesadas por Boquinha. Pelo voto, numa jogada só ele pretendia atingir e expulsar da cidade o Partido dos Trabalhadores e as barricadas do tráfico de drogas. Os defensores da ideologia de gênero também mereciam ser confrontados e agora, graças à eleição do capitão, nas escolas municipais as meninas não usariam o mesmo vaso sanitário que os meninos. Sobre a dificuldade de aprendizado dos alunos Boquinha não tinha opinião porque não recebeu nenhuma fake news sobre isso no grupo da família no WhatsApp.

Sônia sofre com o nível de inteligência do marido. Ao perder a paciência e gritar com ele por causa dos copos de plásticos jogados perto do bueiro, Boquinha responde que sem a sujeira no chão gari não teria emprego. Sabendo dos riscos de alagamento que acompanham o lixo e dos demais prejuízos da poluição, a mulher varre, junta e joga os copos na sacola de material reciclável recolhida a cada 15 dias pelo caminhão do Albergue da Misericórdia.

Boquinha não valoriza tanto assim a geração de empregos. Ele ajuda nas contas de casa porque recebe do INSS auxílio mensal por invalidez, conquistado através de um atestado médico falso. Sugar uma parte do que o governo mama desde que o Brasil foi descoberto é o auge da esperteza, segundo Boquinha. A mulher dele passa a maior parte do dia na frente da máquina de costura, ganhando uma merreca preparando vestidos para as grifes femininas dos bairros nobres do Rio de Janeiro e Niterói. Sônia paga a maior parte das despesas mas é chamada de “burra” pelo marido por trabalhar honestamente.

Quando o bar da esquina abre na sexta-feira à tarde, Boquinha chega e aguarda companhia. O assunto que mais o agrada é falar da vida dos amigos. Dos cornos, crentes, afeminados e daqueles que não aguentam mais do que dois copos de cerveja. Boquinha se orgulha de ter “personalidade forte” e zomba na cara deles, inclusive. Nenhum amigo jamais tentou mudar a opinião do morador do Raul Veiga. Boquinha, Ensino Fundamental incompleto, é esperto demais para ouvir.

O racismo que nunca sofri

O racismo que nunca sofri

Nasci branco, para o padrão brasileiro, em 1982. Brinquei com crianças negras e brancas na infância em São Gonçalo. A gente perambulava, às vezes tocava uma campainha, corria, pegava um jamelão e depois jogava bola no campinho de várzea. Nunca nenhum adulto me chamou gritando “Ei, brancão, vem aqui!”, pra pedir um favor ou me repreender. Vi acontecer com diversos colegas negros. Aqueles de tom de pele mais escuro eram cartas marcadas que recebiam ainda mais ódio. “Porra, negão, só faz merda, hein?”, os moleques mais velhos, brancos, debochavam. Sempre senti que era errado e jamais levantei a voz em defesa dos meus amigos negros.

Continuo brincando com crianças em São Gonçalo e o racismo ainda existe. Quando um menino negro aparece, é o “negão” das conversas. Pra pedir a bola numa partida de futebol, os outros garotos falam “Toca, negão!”. O grupo só se preocupa em perguntar o nome das crianças que, de alguma forma, aparentam superioridade econômica.

O apelido de um dos meus colegas de infância negros era “Dingo”, abreviação de mendigo. Quando a gente frequentava as festinhas de bairro, era comum Dingo calçar um tênis velho, vestir uma bermuda desbotada e uma camisa furada. Dingo chegava e era uma zoação danada, zombaria total. Brancos e “morenos claros”, felizes por não serem chamados de “negão”, apontavam pra Dingo e gargalhavam. Ele se acostumou e sorria da situação. Sorria fingido, com metade da boca meio caída, deprimida. Racismo só tem graça de verdade pro agressor. A personalidade de Dingo se desenvolveu acumulando sorrisos falsos por ser vítima de racismo. Ele se aproximava pra brincar já com o sorriso caído na boca, esperando o primeiro ataque. Décadas depois Dingo foi assassinado. Pobreza e morte violenta são crimes contra a população negra bem conhecidos.

O tempo passou e o racismo se manteve por perto, mas não contra mim, de outras formas. Sozinho, nunca fui parado pela polícia. Nenhum policial sequer me olhou. Peguei ônibus todos os dias por 12 anos para ir trabalhar e não sei o que é ter a mochila revistada, embora tenha presenciado algumas batidas policiais. Os parados e revistados foram os negros ao meu redor, tão inocentes quanto eu, suspeitos pela cor da pele.

Na curtição à noite, de carro, com amigos brancos por São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro fomos parados apenas uma vez, na RJ-104. Ninguém saiu do veículo. O policial fez algumas perguntas, com absoluta educação, respondemos e nos despedimos. Conduta policial exemplar. Não é assim que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro aborda negros. Nunca foi. Em São Gonçalo, a polícia invade casa de preto atirando e mata adolescentes brincando com os primos. Em Belford Roxo, a polícia para jovens negros de moto a tiros. Com as vítimas caídas no chão, se arrastando, a polícia chuta a cabeça delas com o coturno. Então as coloca na viatura, tortura e mata. Nas favelas do estado inteiro, a polícia dá “boa noite” a jovens negros junto com um tapa na cara. Ódio assassino que aprendem com seus pares dentro da própria instituição.

Racismo que vemos nas ruas, na televisão e na internet todos os dias, não é nada excepcional. Aliás, trabalhar no Centro, na zona sul da capital e na Barra da Tijuca me mostrou que o racismo sai das ruas e invade os prédios comerciais de alto nível do Rio de Janeiro. Porteiros negros são comuns nesses locais. O doutor que passa pela portaria quase nunca responde ao “bom dia” que recebe. O doutor nem olha pro lado, como se o pescoço dele estivesse congelado e quebrasse com o menor movimento. Mas, quando entra no elevador, o doutor abre a boca e mostra os dentes para os amigos do escritório.

Eu diria aos porteiros negros do Brasil e a Dingo, onde quer que ele esteja, que sinto muito, que tenho vergonha do racismo nacional, mas esses sentimentos mudariam pouco o país. Lembrei, assistindo o documentário AmarElo, do Emicida no Netflix, que o ideal é reconhecimento. Reconhecer que vivemos em um país feito por negros, mantido por negros, de alma e cultura negra. Agradecendo a gente começa a entender o que é ser brasileiro e vence o racismo.

São Gonçalo resiste na subida da rua Francisco Portela

São Gonçalo renasce na subida da rua Franciso Portela

Foto: Vagner Rosa

Há muitos anos quero compartilhar esse sentimento. Parece que São Gonçalo supera seus problemas e continua existindo graças ao que acontece em uma longa subida que começa na rua Francisco Portela, logo após o cemitério que leva o nome da cidade. Cada centímetro de inclinação na pista é mantido por uma deficiência municipal (elas são muitas). Ao fim da subida São Gonçalo inevitavelmente surge trazendo, além dos obstáculos, povo, história, vida e futuro, como se estivesse morta e decidisse levantar.

A experiência é mais intensa de carro, pegando o retorno da rua Abílio José de Mattos, vindo do Porto da Pedra ou da avenida Presidente Kennedy. Acelero, de propósito, no ponto mais acentuado do retorno e por causa disso uma vez quase bati num ônibus. A velocidade ajuda a priorizar o sentimento (ao invés do pensamento), a alcançar São Gonçalo e não ficar pra trás.

No início da subida, onde a cidade ainda está enfraquecida, perto do Centro Educacional Monteiro Lobato, há muitos imóveis disponíveis pra aluguel. Um pouco à frente, o bonito prédio do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos me lembra como eu ficava nervoso durante as aulas de Inglês na adolescência. Logo depois aparece a Câmara Municipal de São Gonçalo e ali se firma a certeza de que a cidade não está completa, continua imatura, se desenvolvendo.

Na praça Zé Garoto, berço da criação do município, oásis arborizado do centro urbano, tenho uma recordação mais recente. Durante o último festival gastronômico organizado ali, onde hambúrgueres foram vendidos a R$ 35, um copo de cerveja de 300 ml custava R$ 15 e eu tive orgulho da capacidade municipal de empreender para a classe média, um moleque de roupa encardida implorava pra alguém comprar um saquinho de balas a R$ 1, andando de lá pra cá sem sucesso. A partir desse dia a praça Zé Garoto se tornou daquele garoto, que devia ter uns sete anos de idade, pelo menos na minha memória.

São Gonçalo toma forma. A rua Coronel Moreira César assume o controle sobre a Francisco Portela, mas a subida é única. Passam o complexo de hospitais públicos, local de tanta carência e improviso, e a Casa das Artes, onde as obras dos artistas locais são jogadas em um cubículo apertado depois de expostas. A Igreja Matriz, outro marco histórico aconchegante no Centro, mostra rachaduras na fachada que assustam mas não impedem a igreja de dominar o cenário até a Prefeitura, onde o poder nada contribui pelo bem-estar popular.

Do outro lado da rua as autoridades políticas e empresários comem, bebem e se divertem mijando no gelo dos mictórios em banheiros com ar-condicionado. São eles que gastaram milhões e mantiveram o Teatro Municipal fechado, aguardando entreter e educar o povo. Poucos metros adiante está o Espaço Salvatori, que não vive seu melhor momento e guarda no ar a ressaca de um milhão de gonçalenses.

Ao passar no Rodo, o prazer de andar na praça, comprar um jornal ou uma pipoca acompanha o movimento das pessoas sofrendo embaixo do sol. No pequeno shopping da região fiz passeios com amigos há mais de 20 anos atrás. Essa lembrança me diz que estou no território que é meu, e eu sou dele. Aí o sentimento de renovação em que o passado estimula o presente problemático vai diminuindo. O carro avança, São Gonçalo fica sem impulso. Imóveis decadentes esperando aluguel se destacam na paisagem outra vez, após o abandonado Centro Cultural Joaquim Lavoura. Até o dia em que alguém fizer o retorno na Abílio José de Mattos e perceber São Gonçalo resistindo de novo.