A cidade que não é levada a sério

Moro em São Gonçalo há 26 anos e ainda me surpreendo ao ver um guarda municipal conversando, alegremente, com um camelô em local irregular. Falam sobre a vitória do Flamengo no dia anterior, comentam a beleza da mulher que passa ao lado, trocam tapinhas nas costas e o guarda se vai, apreciando um cafezinho. Em uma cidade respeitada, o guarda e o camelô seriam inimigos mortais. Como o diabo corre da cruz, o vendedor ambulante fugiria ao ver o guarda de longe, mas São Gonçalo não é levada a sério.

O Comandante da Guarda admite a displicência do seu subordinado e o prefeito Mulim, aquele que mais nos desrespeita, releva o trabalho frouxo do Comandante da Guarda. Como os vereadores, pagos para fiscalizar a gestão do prefeito, se promovem pendurando faixas irregulares nos postes, fica provado que ninguém na cadeia de poder leva esta cidade a sério, por isso os servidores públicos relapsos conduzem sua rotina de maneira desleixada, por isso viver em São Gonçalo é um desafio.

Até o nome da cidade sofre com a falta de cuidado. No alto da fachada da Prefeitura Municipal há letras tortas há meses, talvez anos. No gramado ao lado da escadaria da Igreja Matriz o nome da cidade também está danificado. Aqui as ações mais simples, que resolveriam grandes problemas, não são desempenhadas, como disponibilizar lixeiras onde o caminhão da coleta não consegue chegar.

Uma amiga de Minas Gerais, pela primeira vez em São Gonçalo, chegando a bordo do 532, que vem de Niterói, definiu a cidade da seguinte forma:

– A enorme quantidade de pichações nos muros é assustadora, até sufocante; as ruas são extremamente sujas. A cidade parece tomada pelo comércio irregular.

As calçadas de Alcântara, cheias de camelôs, onde as pilhas de lixo quase alcançam o céu, ficam intransitáveis após às 18h. Durante o dia o bairro é caótico, à noite, infernal. Em ruas importantes do Centro, como a Coronel Rodrigues e a João de Souza, os flanelinhas exploram a população livremente, sustentados pela negligência que começa no Prefeito e termina no guarda municipal. Por quê? Porque habitualmente a cidade não é respeitada pelo poder público. Em vez de resolvê-los, usam os problemas eternamente como plataforma de promessas jamais cumpridas.

Os gonçalenses não podem se acostumar ao caos visto diariamente, não podem deixar de se assustar, como alguém que visita a cidade pela primeira vez.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta