A favor da vida e do direito ao aborto

A favor da vida e do direito ao aborto

Nada no Universo vale mais do que a vida humana desde os primeiros instantes da sua concepção. O valor da vida é tão especial quanto indivisível – duas vidas não valem mais do que uma. A ética humana não admitiria sacrificar sequer um embrião, no útero, pelo bem-estar de toda a população da Terra, mais de sete bilhões e meio de pessoas (na verdade não haveria proposta mais idiota, embora embriões criados em laboratório sejam destruídos para pesquisas científicas). O valor único da vida faz apenas uma exigência: o respeito ao direito individual de tomar decisões livremente, principalmente sobre o próprio corpo.

A vontade da mulher adulta de interromper uma gestação não pode ser menosprezada nem punida como crime. No Brasil, no entanto, a decisão impõe consequências físico e psicologicamente duras e não raro leva à morte da mulher. A Pesquisa Nacional do Aborto, da Universidade de Brasília, estima que uma em cada 4 mulheres de até 40 anos já interrompeu a gravidez e que por ano sejam feitos 500 mil abortos clandestinos. De acordo com o estudo, quase metade dessas mulheres teve que ser hospitalizada após os procedimentos e o Ministério da Saúde acredita que 4 mulheres morram por dia por complicações decorrentes desses abortos.

Ao invés de apoiá-los, a legislação brasileira ignora princípios constitucionais como a liberdade e a dignidade da pessoa humana e cria um problema de saúde pública. É o que tenta resolver a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 apresentada pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e debatida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na primeira semana deste mês. O julgamento da ação, que pede a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez em até 12 semanas de gestação, ainda não tem data para acontecer.

Por enquanto todos os brasileiros, homens e mulheres, foram convidados pelo STF a discutir sobre o aborto em casa, na rua e no trabalho. Diz respeito à sociedade cada ente que nasce ou morre e o tema faz parte da pauta atual de diversos países do mundo. Países que têm em comum, ao longo da História moderna, a liberdade de pensar e escolher como agente de evolução social.

O exercício da consciência a respeito do que é melhor para a mulher e para a sociedade onde vive auxilia na construção de um país justo e saudável. Antes do Código Penal Brasileiro proibir, a natureza concedeu tal prerrogativa ao entregar ao sexo feminino o esforço da gestação durante nove longos meses, responsabilidade mais sensível do que qualquer atividade paralela, como a necessidade de cuidar dos afazeres domésticos ou do departamento de marketing de uma empresa multinacional.

A vida humana precisa ser defendida desde o seu estágio inicial, mas defendida com amor e diálogo, respeitando devidamente a autonomia e a saúde física e mental feminina.

Um comentário em “A favor da vida e do direito ao aborto

  1. Brilhante, Mário Lima Jr.!
    Para além da pertinente, coerente e precisa argumentação do articulista, vale lembrar que segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), da Corregedoria Nacional de Justiça, existem 4.881 crianças cadastradas para adoção no país. 22,56% de pretendentes escolhem crianças brancas. Dessas, 3.206 (65,68%) têm irmãos. No entanto, entre os 40.306 brasileiros interessados em adotar, 26.556 (65,89%) não querem crianças com irmãos. Os dados mostram o descompasso histórico entre o perfil desejado de futuros pais diante dos futuros filhos adotivos. Outro impasse no momento da adoção, além das crianças com irmãos, é de pré-adolescentes, adolescentes, ou com problemas de saúde. Nos dados nacionais, há 1.920 crianças acima de 15 anos disponíveis para serem acolhidas, o equivalente a 39,33% do total. No entanto, os cadastrados interessados neste tipo de adoção chegam a apenas 66 no CNA, o equivalente a 0,16%.Ponto.
    As informações acima desmascaram a hipocrisia na preocupação com a reprodução num planeta com mais de sete bilhões de viventes e nenhuma com o futuro dessas pessoas uma vez que ocuparão a sociedade e terão de se virar pela sobrevivência e lutar pelo existir no sistema capitalista para a maioria é algo nada agradável e raramente se tem o sucesso cruelmente cobrado. Parafraseando o cantor Gilberto Gil na letra da música “Haiti”, “e se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal”, deduzimos que não importa tanto aos ferrenhos defensores da criminalização do aborto a saúde da mulher e o destino de quem será parido, importa meter o bedelho na vida do outro, definir o que uma mulher pode ou não pode fazer com o próprio corpo, conveniar o politicamente correto, parecer justo e defensor de princípios, mesmo que por debaixo do pano não se aja com tanta rigidez na vida pessoal. A pergunta que não quer calar aos milhões de católicos, evangélicos e moralistas de plantão: como explicar essa defasagem gigantesca entre quem defende a vida intra-uterina mas depois não está nem aí para o futuro incerto que chegará para esses mesmos bebês fofinhos? Aonde está o interesse de vocês pela vida? A resposta todos nós sabemos.

Deixe uma resposta