A história recente da política brasileira, marcada pela corrupção, traz surpresas demais até para cientistas políticos experientes. O cidadão comum frequentemente desiste de entendê-la, procura um bar – ou o Jornal Nacional – e canta o refrão da música “Deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho. Se, por um instante, isolarmos os detalhes abundantes das notícias e destacarmos os objetos de desejo daqueles que traíram o voto popular, perceberemos que seus interesses são bastante parecidos e consideravelmente simples.

O senador Romero Jucá, famoso por ter sido gravado sugerindo um pacto para barrar a Lava Jato, continua líder do governo no Senado e entrou para o Conselho de Ética da Casa, embora responda a processo e seja citado em 8 investigações da operação que tentou conter. Aceitar o fato é tão difícil quanto entendê-lo.

Exemplo maior de aberração aparentemente incompreensível, Michel Temer ainda ocupa o Palácio do Planalto, apesar da notória negociação criminosa com Joesley Batista em plena residência oficial na calada da noite. Estourando fogos nas redes sociais há dois dias e usando pontos de exclamação nas postagens – algo que poetas raramente admitem -, Temer se apropriou do frágil crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano. Sobre a prisão do deputado Rocha Loures, seu braço direito, amigo e homem de confiança flagrado pela Polícia Federal recebendo uma mala com R$ 500 mil sujos, nenhuma palavra.

Joesley entrou no Jaburu usando nome falso, sem deixar registro e sem mostrar documento. Ater-se ao desrespeito com que ele e Temer trataram as instituições nacionais nos deixa paralisados, em choque.

Tem o mesmo efeito confuso o relacionamento vibrante entre empresários, políticos e estatais ao longo de décadas, mantido por financiamentos de campanhas através de caixa 2 e contas no exterior, medidas provisórias favoráveis a construtoras e liberação de crédito para aquisição de negócios internacionais. São elementos riquíssimos merecedores de estudos profundos, de preferência isolados.

Gravado no porão de um palácio, o presidente Temer nos mostrou que a podridão é vulgar, inclusive entre eruditos como ele. Sem hierarquias extensas nem conspiração da grande mídia. Os envolvidos no jogo, repleto de incertezas, querem algo mais direto e usam as condições disponíveis no momento.

Na verdade a política brasileira é regada a palavrões e pedidos descarados de propina, como se R$ 2 milhões fossem encontrados ali na esquina. Esta lição vem da gravação entre Joesley e Aécio Neves. Com eles aprendemos que, além do dinheiro, corruptos amam o poder de influência. Os honestos espectadores, nós, tendem a complicar demais.

– Vou falar pra você, eu não falei pra ninguém: eu nomeei o presidente da Vale – disse Aécio a Joesley no luxuoso Hotel Unique, em São Paulo.

O desejo de bandidos, em qualquer lugar do mundo, não se resume a dinheiro e influência constante para conseguir mais dinheiro? O tratamento dado a eles precisa ser tão objetivo quanto. Franco como eleições diretas.

Antes da prisão, o ciclo de vida do corrupto inclui sua defesa. É o ponto em que estão Temer e Aécio agora, ameaçados pela Justiça. Influência, roubo, defesa, prisão e mais nada.

Importa descobrir como Rodrigo Rocha Loures distribuiria os R$ 500 mil e seus destinatários. Com cuidado, para que a ânsia de entender o pecado do deputado e de superar sua traição não leve à romantização do caso. A simplicidade da safadeza pode ser assustadora.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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