A vida não vale nada em Rio do Ouro

Foto: Sandro Nascimento / O São Gonçalo
Foto: Sandro Nascimento / O São Gonçalo

Dois irmãos foram assassinados na Favela da Linha, em Rio do Ouro, no início deste mês. Trabalhadores ou bandidos, não importa, eram jovens gonçalenses no princípio da vida – 21 e 18 anos de idade – que cresceram na comunidade e foram vítimas da crueldade do tráfico de drogas, que ocupa o lugar de direitos humanos básicos em diversas regiões de São Gonçalo.

Mato, lixo, valões imundos, ruas improvisadas esburacadas, estreitas e bocas de fumo. Entre tais calamidades crescem as crianças em Rio do Ouro, Engenho do Roçado, Ipiíba e bairros adjacentes. Violência, abandono e sujeira são os aparelhos à disposição dos jovens. São bairros que nos lembram da imensidão do município, da falta aguda de infraestrutura que muitos moradores do Centro e frequentadores da revigorada noite gonçalense fingem não existir, preferem esquecer, por preconceito ou vergonha.

Quando uma criança sai da escola e vai para rua mais cedo porque a merenda acabou ou não tem professor. Quando um jovem abandona o Ensino Fundamental aos 16 anos, perambula sem opções de emprego, nem lazer, e fuma seu primeiro baseado. Aí que inicialmente a vida perde seu valor. O crime começa antes do gatilho ser apertado. Que responsabilidade tem o prefeito Neilton Mulim sobre a morte de Wanderson e Richard, os jovens do Rio do Ouro, como tantos outros executados frequentemente? Mulim recebeu mais de R$ 7 milhões em verbas federais para construir dois centros de artes e esportes unificados, um em Neves, outro no Colubandê, mas enfiou os projetos no meu rabo de cidadão. Os centros, que deveriam ter sido inaugurados até o fim de 2014 e teriam opções saudáveis para a juventude como biblioteca, pista de skate, quadras etc, são até o momento apenas um grande incômodo traseiro, pois teriam 7.000 m², os maiores modelos do Brasil.

E que responsabilidade tem o gonçalense que escreve e lê artigos sobre o assunto? A culpa pode não ser direta, no entanto, nossa omissão é óbvia: enquanto sociedade, nós que atribuímos o valor que a vida tem. Vemos o mal acontecendo e nada do que está ao alcance fazemos. Nada fazemos. A notícia da morte dos irmãos teve destaque apenas no pior jornal da cidade, sedento por sangue.

Não conheço respostas para São Gonçalo, somente perguntas. Acho que podemos dedicar uns minutos de conversa ou emprestar um livro àquele vizinho “tão novo e já fazendo coisas erradas”.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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