Pedir intervenção militar é coisa de cachorro

Pedir intervenção militar é coisa de cachorro

“Liberdade não tem preço”, dizem artistas de culturas do mundo inteiro. E não há meio mais rápido para atacar a liberdade de um povo do que a força dos tanques, fuzis e pistolas. Pedir intervenção militar e abrir mão da própria liberdade é coisa de gente covarde, mau caráter, infame e vil. Que implora para ser domesticada quando nasceu no país de espírito mais livre que existe. A única semelhança com o animal de pelos é a coleira no pescoço do povo e a guia, as Forças Armadas usadas para controlar as instituições que defendem a vontade popular e o indivíduo.

Abrir mão da liberdade democrática, que tanto precisa ser desenvolvida, favoreceria apenas Jair Bolsonaro, fã da tortura, da ditadura e do assassinato. Além de ser criminoso e inconstitucional, pois nenhuma interpretação da Constituição permite o fim da liberdade ou de qualquer dos Poderes da República, não há vantagens possíveis para a população, a história brasileira prova. O último regime militar durou 21 anos e deixou um Brasil lutando pra implantar democracia plena até hoje, onde cada cidadão tenha oportunidades de desenvolvimento social.

Não haveria fim da liberdade sem violência e estupidez, especialidade dos militares (pensar demais pode transformar uma ordem recebida em algo indesejado pela autoridade). As pessoas que pedem o Exército, a Marinha e a Aeronáutica nas ruas não foram penduradas em um pau-de-arara pelas mãos e pelos pés e espancadas com o mesmo cabo de vassoura usado para penetrá-las. Antes, arrastadas dentro de casa, na frente dos filhos, encapuzadas, enfiadas dentro de um veículo, espancadas na cara e na barriga, ameaçadas de morte e jogadas nuas em um cubículo de temperaturas e luminosidade extremas. Espaço onde são aplicados eletrochoques na sua genitália. Onde não é possível ficar de pé, ora também completamente escuro e encharcado para causar mais incômodo. Tudo por causa de nada. Sua profissão ou partido político, talvez. Uma denúncia de que você tem livros que não deveria em casa. Ou porque você faz parte de um grupo que luta para que homens e mulheres não sejam torturados dessa maneira. Vítimas de tortura geralmente não desejam o mesmo a nenhum inimigo.

Sendo que a pior consequência de uma intervenção militar é a limitação da consciência do povo, que não pode refletir e decidir por si só. Quem merece segurar a guia do povo brasileiro? Ninguém jamais vai merecer. A gente elege presidente para que ela ou ele obedeça a vontade do povo. Se o eleitor deseja escolher alguém para controlá-lo, como a lei de nenhum país do mundo contempla tal absurdo, antes precisa comprar uma ilha no Pacífico e compilar uma nova constituição. Quer dizer, Constituição para que quando o desejado é o domínio da força? Ilha da Covardia fica como sugestão de nome.

O Brasil merece experimentar algo novo, metade do país vive nas mesmas condições de miséria, violência e perseguição de séculos atrás. Distribuir dignidade aos brasileiros seria a verdadeira revolução.

As vítimas esperam mais de nós

Conscientes ou entubadas em um leito de hospital, as vítimas da Covid-19 esperam que aumentemos o isolamento social e usemos máscara quando for preciso sair de casa. Também aquelas que não resistiram à doença, elas exigem que sejam socorridos os mais afetados pela recessão econômica, pessoas que tiveram seus empregos e negócios prejudicados e perderam seu sustento. As vítimas aguardam a punição perante a lei dos homens e mulheres que promovem aglomerações na rua, na padaria ou na praia, ainda que ocupem a Presidência da República. Todas desejam que o tão amigável e alegre povo brasileiro também se desenvolva como cidadão consciente.

Protestos com milhares de pessoas marchando, muitas sem máscara, se espalharam ontem pelo Brasil. Além de ter sido Dia do Trabalhador, foi o dia em que alcançamos o número de 406.437 mortos por uma doença de fácil e rápida transmissão. Há mais de um ano que reuniões são desaconselhadas, mas o conselho não é ouvido por aqui. A prova irrefutável de que falhamos é o Brasil ser um dos líderes em infectados e mortos. Para maior decepção das vítimas, parte dos manifestantes pedia intervenção militar na política e na sociedade, portanto, querem ainda mais violência contra a vida. Desde que não seja contra a vida deles, imploram por autoritarismo e fim do diálogo, ditadura e escuridão. Se nem por vacina deveríamos ocupar as ruas, granadas, pistolas e fuzis não foram criados para salvar vidas. A ciência e a tecnologia têm essa capacidade, nada melhor do que apoiarmos o uso de ambas para a contenção da doença. Graças à própria tecnologia, a pressão popular pode ser organizada e exercida à distância, usando as plataformas oficiais do Executivo e Legislativo.

As pessoas que resistem rezam para que permaneçam entre seus entes queridos por bastante tempo. Mas a pandemia é tão grave que reduziu a expectativa de vida da população em quase dois anos, notícia que deve ter agradado Paulo Guedes, o ministro da Economia que prefere um país esvaziado. O desprezo que o Governo Bolsonaro tem pela vida parece incorrigível, mas as vítimas merecem que as autoridades e cada brasileiro cumpra seu papel. A atuação popular costuma ser de importância fundamental para a recuperação diante de crises humanitárias.

Não é seguro pra ninguém dispensar a máscara, mesmo se você foi infectado e não sente mais os sintomas (a reinfecção é uma realidade no mundo inteiro). As vítimas esperam que nos lembremos delas com respeito. Que o pior já tenha passado, visto que o risco de um cenário mais grave não é descartado pelos cientistas. Se cada brasileiro em condições de ajudar for solidário com quem mais precisa de apoio, sairemos da pandemia com menos sofrimento e como um povo mais completo.

São Gonçalo continua presa a governos medíocres

Foto: Alex Ramos/O São Gonçalo

A corrupção não é o único mal que prejudica São Gonçalo, cidade que nunca vê realizações políticas de grande impacto social. Há décadas a cidade é controlada por gente incapaz de criar ideias de transformação profunda, sequer resumir em uma frase o futuro desejado pela população.

Cuidar dos gonçalenses foi a proposta oficial do Governo Nanci herdada sem vergonha alguma por Nelson Ruas. Continua anotada na página da Prefeitura no Facebook desde o governo anterior, que não se reelegeu. Se você perguntar a um camelô na Rua da Feira o que ele espera do governo municipal, duvido que ele responda “Quero que cuide de mim”. Ele vai dizer que gostaria de estabilizar seu negócio, talvez alugar uma loja e ter condições de sustentar seus filhos para que eles tenham um futuro melhor. São Gonçalo tem sonhos maiores do que ser mal cuidada por governos onde o nepotismo é descarado e esses sonhos precisam fazer parte, de maneira clara e objetiva, da comunicação dos poderes municipais.

Após 100 dias de gestão, o Governo Nelson publicou suas realizações dentro de cada pasta nas redes sociais. A secretaria de desenvolvimento urbano incluiu, com certo orgulho, os trabalhos de limpeza, capina e varrição no vídeo promocional, bem como algumas obras de infraestrutura. O mais triste é que isso não é desenvolvimento urbano. O conceito pode ser definido como “um conjunto de ações, estratégias e instrumentos necessários para a transformação da cidade, tendo como objetivo principal o seu desenvolvimento econômico, social e ambiental” (ArqFuturo). Integração e diálogo com outros setores para viabilizar projetos maiores, quando o que o Governo Nelson faz é tirar um pouco do mato nas regiões não dominadas pelo tráfico, onde a Prefeitura ainda tem coragem de entrar.

Sobre mobilidade urbana, mostrou o quanto está punindo motoristas infratores, rebocando carros e se esforçando para melhorar o trânsito. Sabemos que são problemas crônicos que já deveriam ter sido resolvidos. O governo não merece medalha por isso e só destacou o assunto porque não foi capaz de fazer mais. Obras inovadoras, como a construção de ciclovias e bicicletários, não foram lembradas.

O vídeo da secretaria de gestão integrada e projetos especiais, coordenada pelo filho do prefeito, cita a necessidade de implementação de projetos para melhor qualidade de vida e geração de empregos. Menciona inclusive a ousada, mas necessária, remodelagem dos bairros. Sabe quantos projetos o vídeo cita como em andamento? Nenhum. Zero. Cem dias não são suficientes para revolucionar São Gonçalo, mas houve tempo para montar a documentação e o cronograma de alguma coisa. Nada de concreto foi apresentado.

A Educação, outra pasta vital, alega ter trazido de volta duzentos alunos em algumas escolas e ter reformado unidades de ensino. Além disso, não há sonho de futuro. Nada sobre disciplinas modernas, tão necessárias nos dias atuais, como programação e robótica. O problema não é falta de dinheiro, há plataformas de ensino gratuitas. O problema também não é a pandemia de Covid. Itaboraí, por exemplo, acabou de aprovar a implantação da sua moeda social e de um banco popular. O problema em São Gonçalo é o tradicional buraco onde governos enfiam a cabeça e abandonam qualquer ambição de mudar a vida do povo.