Problemas simples que o Governo Nanci não resolve

Problemas simples que o Governo Nanci não resolve

Os moradores de uma rua fechada com portão e guarita, no bairro Vila Três, abriam o portão, atravessavam a rua e jogavam seu lixo na calçada, em frente a um cruzamento de veículos. Fizeram isso todos os dias durante anos. Ratos se alimentavam do lixo, de dia e de noite, e voltavam correndo para o valão que corta o bairro.

Há menos de dois meses a Prefeitura de São Gonçalo colocou uma placa informando que é proibido jogar lixo no local e disponibilizou um telefone da Secretaria de Meio Ambiente para denúncias, chamado de WhatsApp Verde. O problema foi resolvido! Agora os moradores da rua deixam seu lixo dentro de coletores colocados na portaria. Quando o caminhão da coleta passa, o portão é aberto e o lixo é recolhido. A calçada está limpa e o pedestre pode circular sem tropeçar nos ratos.

Essa atitude mostra que existe no Governo inteligência suficiente para resolver pelo menos os problemas simples do município. Eles não são resolvidos por desleixo. Desde o dia 4 de junho, por exemplo, nenhum funcionário da Prefeitura responde às mensagens enviadas para o WhatsApp Verde.

No início do Governo Nanci as ruas do centro de Alcântara eram varridas aos domingos. Eu passava pelo bairro à tarde e não via lixo espalhado pela sarjeta. A sensação era de dignidade e respeito mútuo entre a população, a cidade e seus governantes. O bairro voltou a ficar largado e hoje está imundo. Por toda a cidade as ruas não são varridas nem o lixo é recolhido com a frequência necessária.

Ainda em Alcântara, embaixo do viaduto tem um mato gigante que está invadindo a calçada. Quando a multidão que circula no bairro passa pelo local, precisa sair da calçada e se arriscar na rua Manoel João Gonçalves pra não bater com a cara no matagal. O mesmo viaduto está cheio de placas e faixas ilegais, algumas de grandes empresas como o supermercado Atacadão.

Não existem problemas mais simples que esses, resolvidos com uma enxada e uma faca, ou respondendo uma mensagem pelo WhatsApp. Muitos problemas de São Gonçalo seriam rapidamente resolvidos com amor e cuidado pela coisa pública. Como o sistema de som clandestino que funciona a poucos metros da Prefeitura e publica anúncios comerciais o dia inteiro. Poucas cidades do Brasil têm o ar e o solo tão poluídos.

O atendimento à população é uma deficiência que poderia ser resolvida com  softwares gratuitos. Quando abre uma reclamação na Ouvidoria, nunca mais o cidadão recebe notícias sobre nela. O site da Prefeitura é confuso e incompleto, chega a ser amador. Ao clicar no link para saber informações sobre a coleta de lixo, o usuário é direcionado para o site da empresa que faz a coleta, numa tentativa de transferir a responsabilidade, e não encontra a informação desejada.

A própria Prefeitura cria problemas para si mesma ou deixa para a próxima gestão. Quando funcionários precisam quebrar o asfalto ou a calçada pra fazer um reparo, não raro deixam o buraco aberto. Obra iniciada no governo anterior, já são quase 128 anos de espera para ver o primeiro teatro municipal gonçalense funcionando. Pagar a dívida de R$ 1,3 milhões com a construtora e concluir a instalação elétrica não é mais complicado do que captar R$ 13,6 milhões para erguer o prédio, construído em 2016.

Encontro cara a cara de um brasileiro com Sergio Moro

Encontro cara a cara de um brasileiro com Sergio Moro

O coração de Job batia com tanta força que doía dentro do peito. A ansiedade fechava a garganta do homem, quase não respirava. Uma semana antes, o resultado da promoção do jornal A Esfera tinha saído. Job cadastrou um cupom só pela Internet e ganhou o prêmio “Conheça Sergio Moro, herói nacional”. Realizava um sonho.

Nervoso, suando por baixo do terno apesar do ar-condicionado do hotel curitibano, Job apertou a mão de Moro com força, olhando nos olhos do juiz. Sentiu logo um perfume delicioso. “Além de todas as coisas que fez, ele ainda usa perfume”, pensou diante do ídolo brasileiro. Moro retribuiu com um sorriso altivo, ereto e seguro, como uma simpática estátua de mármore apolínea.

Job não conteve mais a excitação e desembestou a falar, de pé ali mesmo no hall do hotel.

– Que loucura você fez com o país, rapaz. Ficou famoso, hein? Deve ser português esse perigoso culto à personalidade que praticamos. Seu rosto estava lá, estampado nos trens de Lisboa para Cascais. Seu nome não deveria ser lembrado, mas o da Justiça. Você é uma criança que se diverte como Magistrado. Fez piada durante os depoimentos de Lula, distribuiu comentários desnecessários de falsa e mesquinha afabilidade, fez piada durante o depoimento de Sergio Cabral, e a família brasileira aplaudiu durante o horário nobre da TV, sentada imóvel no sofá.

– Parecia que tinha começado bem, enchendo o povo de esperança. Ele começou a se perguntar se finalmente o Brasil combatia a corrupção política e empresarial com seriedade. Depois enlouqueceu, passou a condenar por ideologia, citando nos despachos frases filosóficas de efeito mais do que capítulos da Legislação.

– Tem bandido preso sim. Mas também tem gente condenada pelos vazamentos à imprensa antes de qualquer defesa formal. Tem gente presa sem provas porque fizeram da falta de provas um crime. Agrada a quem sempre explorou o Brasil e pensa no próprio pirão sem ligar pra farinha dos outros.

– Nós evoluímos? Nos tornamos mais humanos? Pelo contrário! Recebo todos os dias pelo WhatsApp uma foto sua com um olhar ameaçador, chega a ser demoníaco, e uma mensagem de “Bom dia”. Não faz sentido essa combinação. Parte da sociedade brasileira desenvolveu certa psicopatia tendo Sergio Moro como elemento catalisador.

– A Operação Lava Jato se tornou uma caça seletiva. Não somos corruptos como querem nos convencer. O Brasil apresenta altos índices de corrupção menos por causa do gosto popular pelo ilícito do que por um hábito sistêmico dos donos do poder que se perpetuam nele.

– Autografa esse livro aqui sobre a Lava Jato, por favor, que minha mãe implorou pra eu trazer.

Moro nem ao menos tirou o meio sorriso dos lábios. Uma repórter do jornal A Esfera acompanhava o encontro e queria levar para a redação a cena de um Brasil melhor. Ficou horrorizada.

São Gonçalo, a menor cidade grande do Brasil

A menor cidade grande do Brasil

Entre as cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes, o município de São Gonçalo recebeu a pior nota do Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal: 0,6189. Somos oficialmente “a menor cidade grande do Brasil”, a menos desenvolvida.

O índice atual, baseado em dados de 2016 sobre Educação, Saúde, Emprego e Renda, é o mais baixo desde o ano de 2006 (quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento do município). Não é exagero dizer que a cidade nunca esteve tão ruim em comparação com os últimos 10 anos.

Embora a Saúde tenha apresentado melhoras, seu desenvolvimento ainda é classificado como moderado pela FIRJAN. A Educação piorou em relação ao ano de 2013 e continua refém do descaso com a merenda, da falta de inovação e de estímulo aos alunos. Já Emprego e Renda estão em queda livre: 34,7% dos jovens de São Gonçalo estão desempregados, número que supera as taxas de desocupação de jovens em países como Síria e Haiti (Jornal Daki).

Segurança Pública, um dos maiores problemas municipais e que tem impacto imediato sobre a qualidade de vida da população, ficou de fora do estudo. A situação em São Gonçalo é ainda mais grave do que o índice FIRJAN é capaz de mostrar.

O município abriga a 16ª maior população do Brasil e conta com 248,4 km² de extensão territorial. Não passa despercebido. Contudo, é a menor cidade grande do país porque é a mais desrespeitada pelos políticos eleitos nas três esferas de governo. Governantes de todos os naipes passam por ela, de Lula a Dilma Rousseff, de Sérgio Cabral a Luiz Fernando Pezão, prometendo resolver as carências do segundo maior colégio eleitoral do Rio de Janeiro. E os gonçalenses continuam sem a Linha 3 do Metrô, sem uma ligação marítima com outras regiões do Estado e sem alternativas de desenvolvimento econômico.

Os Poderes locais também não estão à altura da cidade que representam. Neilton Mulim, último prefeito, foi preso por corrupção. A prefeita anterior, Aparecida Panisset, foi condenada pela Justiça e tornada inelegível. José Luiz Nanci, prefeito atual, embora não possa ser responsabilizado pelo baixo índice de desenvolvimento, não sabe o que fazer com o próprio mandato para beneficiar a cidade. Já beneficiar a própria família usando o mandato, o prefeito Nanci sabe muito bem.

A frase usada no título desse artigo foi inspirada por duas grandes personalidades gonçalenses: Helcio Albano e Josemar Carvalho. Eles costumam dizer “São Gonçalo, a maior cidade pequena do Brasil”. Gostei do sentido e peguei ele pra mim. Para amenizar a tristeza do baixo desenvolvimento municipal, os gonçalenses podem conhecer e se apropriar daquilo que a cidade tem de melhor, como a versatilidade genial, presente em Helcio Albano, e a capacidade política, marcada em Josemar Carvalho.