O retorno da barricada

Barricada

Na verdade ela nunca vai embora, nem quando removida por soldados do Exército ou da Polícia Militar, com o rosto coberto, manobrando uma retroescavadeira. O medo da facção criminosa que controla o lugar, a tensão constante, a submissão compulsória, nada disso some com as barras de ferro arrancadas do chão, com as manilhas de concreto, móveis e eletrodomésticos velhos que bloqueavam as ruas.

O caminho não é varrido pelo Poder Público, nem pela comunidade amedrontada. A sujeira da barricada continua no mesmo local, o barro, a terra, a areia, os restos de concreto e vergalhões. A marca permanece também no coração e na mente do gonçalense. Dos resquícios se alimentam o terror e a ameaça de que a qualquer momento a barricada pode voltar ainda maior, mais forte.

Um dia, quando o trabalhador menos espera, quando a criança começa a esquecer que existe uma força maligna que determina quando e como ela poderá entrar e sair da rua de casa para ir à escola ou à igreja, nesse dia em que falta pouco para lembrarmos da paz do passado, a barricada retorna. Quase sempre à noite. Retorna em corpo, porque seu espírito violento é constante no local uma vez ocupado.

O morador das regiões dominadas pelo tráfico de drogas sente algo especial. A antiga sensação de perda da própria liberdade e do chão onde pisa se justifica ao ver a barricada ali, de novo. Onde estavam o sofá rasgado e a geladeira enferrujada, encontramos centenas de quilos de entulho que parecer emergir do centro da Terra como num passe de mágica. Afinal, as principais bocas de fumo não se desfazem. As motocicletas em alta velocidade nunca param. As investidas de bandidos armados monitorando, em plena luz do dia, sua propriedade, quarteirões onde vivem inúmeras famílias, não cessa.

Quando ela volta, algumas certezas voltam junto. Ingênua, pobre e destruída, São Gonçalo não tinha proteção contra a migração de bandidos. Tinha favela em São Gonçalo com uma boca de fumo e um morto por ano até a primeira década do ano 2000. Hoje esses lugares estão infestados de armas, pontos de venda de drogas e bloqueios contra o trânsito do resto de força policial que ainda temos. Não há projeto de desenvolvimento social, em nenhuma esfera, em que possamos depositar esperanças.

Não é mais a alegria que manda aqui. A barricada é a prova menos sutil de que não há ilusão, São Gonçalo foi dominada. O que muda são os bandidos de cada região, em algumas eles têm apelido ou sobrenome famoso, usam veículos patrocinados pelo dinheiro público e vestem terno e gravata.

Nosso canteiro é melhor que o da Barra

Nosso canteiro é melhor que o da Barra

Semana passada reclamei que São Gonçalo não tinha os belos canteiros arborizados da Barra da Tijuca. Depois da reclamação, que não passa de uma inveja vazia, São Gonçalo, o santo, brigou comigo, mandou eu tomar vergonha na cara, procurar algo pra fazer e conhecer minha cidade de verdade.

No bairro carioca, perto da península exclusiva dos ricaços, entre eles autoridades políticas, as calçadas parecem que saíram de um conto de fadas. Elas são feitas de trilhas de pedras grandes no meio, cercadas por grama sempre aparada. Disciplinados, os pedestres poupam a grama e só pisam nas pedras, onde geralmente cabe uma pessoa apenas (não daria certo em Alcântara). Pássaros buscando comida no chão cruzam o caminho dos pedestres às vezes. E voam se beijando. Talvez São Gonçalo não tenha calçadas iguais nos próximos duzentos anos.

Resolvi seguir o conselho do santo, de realmente viver o município onde moro há trinta anos, e me matriculei na natação, em uma academia a 10 minutos a pé da minha casa. Descobri que não é necessário academia de luxo, frequentada por atores globais, pra praticar natação. A piscina basta. No caminho para a academia, passando no bairro Raul Veiga, São Gonçalo apontou e disse:

– Taí, olha pra frente, não era um canteiro que você queria? Só tenho esse, e trate de ficar satisfeito.

Embora tão perto da minha casa, não o conhecia. O canteiro fica na rua Júpiter, perto da esquina com a Nonato Faria. Praticamente não tem grama, só barro. Mas tem arbusto, árvore e verde, tão raros nos nossos principais centros urbanos. Outro milagre, o canteiro é limpo e bem cuidado. No poste de luz, penduraram uma placa que diz “Favor manter este local limpo. Não temos serviço de gari”. Dia e noite o canteiro também tem inteligência, orgulho por São Gonçalo e ativismo político e social.

A equipe de varrição da Prefeitura nunca pisou, sob nenhum governo, em pelo menos 80% das ruas dessa cidade (provavelmente uma estimativa otimista). Por isso o canteiro do Raul Veiga me conquistou, ele contrasta com a incompetência do Poder Público. Pelo tamanho e brilho, me parece que mais de uma pessoa se dedica, todos os dias, à sua manutenção. E a população do bairro respeita o espaço. Quando dizem que o gonçalense é porco, discordo. O carioca é multado se jogar lixo no chão. O gonçalense é mal fiscalizado.

Claro que os canteiros da Barra, que contam inclusive com investimento privado, são mais bonitos. Mas não são nossos, estão distantes, não servem pra gente. O canteiro do Raul Veiga está disponível, o tempo inteiro, pra quem quiser curtir um pouco de calma e organização. A rua Júpiter não tem domínio do tráfico ou barricada, ela é extremamente movimentada por veículos que deixam o segundo e o terceiro distritos em direção a Alcântara e ao Centro.

Pode ser que esteja próximo de nós, mas escondido, e tenhamos que procurar por bastante tempo. Porém, do seu jeito, às vezes com um pouco de rispidez, São Gonçalo oferece aquilo que precisamos.

Vergonha de viver em dois Brasis

Lições de Casa-grande & senzala para o Brasil atual

Durante anos trabalhei em alguns bairros da zona sul do Rio de Janeiro e na Barra da Tijuca, residência de ricos, presidentes e milicianos. Depois do expediente, voltava para a minha realidade, São Gonçalo, onde moro desde os sete anos de idade. A princípio o que me incomodava era a decadência gonçalense diante dos canteiros arborizados, das calçadas niveladas e dos lindos hidrantes vermelhos, sempre em bom estado de conservação, vistos nas quadras nobres do Leblon, do Jardim Botânico e em Botafogo. Depois percebi que, além dos diferentes níveis de urbanização entre os lados de lá e de cá, há inúmeros outros contrastes, absolutas injustiças sociais, que atingem principalmente uma determinada cor de pele.

Cheguei ao ponto de desejar que São Gonçalo fosse tão bonita e organizada quanto Ipanema. Há tantos gonçalenses que acordam cedo, enfrentam engarrafamentos no trânsito e servem sofrendo humilhações e ganhando baixos salários no bairro que inspirou canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que meu desejo não passava de um engano ingênuo. São Gonçalo não pode ser Ipanema porque Ipanema não é boa para São Gonçalo. O bairro prefere não organizar, distribuir, a riqueza que acumula.

Então adquiri um hábito do qual não consigo me livrar, virou vício. Passei a perceber as características físicas e o comportamento de quem serve e de quem é servido nos redutos da elite. Além da zona sul, os modernos prédios comerciais da Avenida Rio Branco e os escritórios de luxo no Centro do Rio de Janeiro. No outro extremo, a acompanhar a quantidade exorbitante de camelôs que sofrem nas calçadas, nas ruas e no cotidiano de São Gonçalo. O volume assustador de pedintes que se espalham nos semáforos, viadutos e estacionamentos da cidade, agravado pela falência do mercado formal de trabalho.

Com a constatação do óbvio, veio a vergonha. O Brasil continua o mesmo lugar retratado por Debret, só que com menos exuberância ambiental. Quem pena e sua sob o sol forte é a pele mais escura. Os ambientes confortáveis, hoje refrigerados por aparelhos de ar-condicionado, são ocupados pelos filhos dos homens que antes estiveram na mesma posição. O país inteiro segue cartilha semelhante.

Finalmente cansei de sentir vergonha. Não posso mais olhar o rosto dos vendedores ambulantes de água em São Gonçalo, que carregam a mercadoria pesada nos ombros nus, e ver que são negros. Desvio o olhar. Como também são negros os porteiros e ascensoristas da Avenida Ataulfo de Paiva, que não raro recebem frieza depois de sorrir e cumprimentar com “Bom dia” aos senhores e senhoras vestidos em traje esporte fino. Não suporto mais o fato de que o problema do Brasil não é incompetência administrativa ou infertilidade econômica, mas falta de respeito pelo próprio brasileiro.

Se a vergonha me cansou, tento imaginar como se sentem as vendedoras de chips para celular que passam o dia de pé nas esquinas, gritando sem parar, concorrendo com os amigos ao lado, e inalando o escapamento dos veículos. Não é difícil adivinhar sua ascendência, sua formação educacional e as condições sem infraestrutura do lugar onde vivem. O Brasil é dividido há séculos. Unir o país exige o reconhecimento de que as partes têm dores e cores bastante diferentes.