Antes de um líder político, São Gonçalo precisa de um símbolo

Antes de líderes políticos, São Gonçalo precisa de um símbolo

Foto: Rafael Corrêa

Nós, gonçalenses, ignoramos quem somos. Em geral não conseguimos citar nenhum fato de importância sobre São Gonçalo, e há muitos deles. Por causa dessa ignorância, cometemos a heresia de achar que nada realmente positivo aconteceu no município. E atribuímos à São Gonçalo o título de cidade que nada de bom representa.

Uma religião brasileira, cujo princípio básico é jamais fazer o mal, foi fundada em nosso território, no bairro de Neves, provavelmente no dia 16 de novembro de 1908. Poucas cidades podem dizer que assistiram o nascimento de uma religião e a Umbanda tem grande valor para a nossa cultura, por valorizar aspectos negros e indígenas, alma e força brasileiras, tão desprezadas pela ideologia que domina a política nacional.

Como lembrar o gonçalense de que ele vive em uma cidade sofrida, mal tratada, mas que está longe de ser uma cidade sem história, morta ou vazia? Através da divulgação constante de um símbolo.

A bandeira, o brasão de armas e o hino são símbolos oficiais. Nenhum deles destaca a tradição ou o potencial gonçalense no dia a dia da população, mas podem servir de inspiração. Há elementos dentro do brasão que se fossem destacados talvez cumprissem esse papel. A cruz sobre o monte, o Cruzeiro, nos lembra da vocação religiosa do município que é berço da Umbanda, dono do maior tapete de Corpus Christi da América Latina e de uma grande representatividade evangélica.

Aliás, a Pedra da Coruja, local onde o Cruzeiro foi construído com a ajuda de estudantes carregando morro acima areia lavada, brita e cimento, fica na região a partir da qual São Gonçalo se expandiu, a pedra era ponto de vigia na época do Brasil Colonial e ela guarda até hoje perfurações de canhões da Revolta da Cachaça, ocorrida em 1660. Por si só, o contorno da Pedra da Coruja poderia nos lembrar da resistência do povo gonçalense diante das adversidades.

Mudam os governos municipais e com eles a marca usada na sua comunicação. O que não muda é o crime que cometem, a falta de incentivo à criação de uma identidade gonçalense. Os não religiosos poderiam defender o uso do cocar e das flechas indígenas, também componentes do brasão, visto que são eles os primitivos donos do território. O Cine Tamoio, nosso festival anual de cinema, compreendeu bem o valor de um nome e de um símbolo ligados à nossa terra e adotou um índio atirando uma flecha.

Talvez significasse mais para a juventude ter um grafite como símbolo municipal, artistas gonçalenses estão entre os mais famosos do mundo, ou uma simples pipa no alto, tradição que até adultos costumam brincar. O que não pode continuar acontecendo é o povo de São Gonçalo usando camisetas com o nome e a bandeira do urso do estado americano da California, como se fosse um uniforme. Compradas nas principais lojas de varejo, não é só a classe média que usa essas camisetas, o nome da California também já invadiu o Complexo da Alma, no bairro Amendoeira, sem dar um tiro.

A distância entre o Brasil e os Estados Unidos é de 7308 km. Se os americanos conseguem popularizar sua marca entre nós de tão longe, também somos capazes de espalhar nossos símbolos entre nós mesmos. Um que seja usado pela Câmara, pela Prefeitura, nos projetos de empreendedorismo, na fachada dos bares, nas camisetas e até nas pichações nos muros.

Fontes:
Frederico Carvalho, Histórias contadas por aí, Tafulhar

São Gonçalo ausente

São Gonçalo ausente

São Gonçalo está desaparecendo. A intimidade que podia ser construída entre pessoas cruzando a mesma esquina no horário do almoço deu lugar ao medo de ser assaltado, alvejado ou morto. Quando uma nova barricada do tráfico de drogas é erguida, seja em Neves ou em Santa Isabel, um pedaço da alma do povo se destrói sob os montes de entulho, ferro e concreto desses verdadeiros bloqueios à cidadania. O desespero por paz no município é tão grande, e nele cabe tanta exploração política, que o aumento do efetivo policial em míseros 8% causou comoção, inclusive com a presença do governador do Estado.

Depois da capital, São Gonçalo é a cidade mais suja de sangue do Rio de Janeiro. De acordo com o laboratório de dados Fogo Cruzado, em 2019 o município sofreu com 800 tiroteios, 243 assassinatos por armas de fogo e 250 pessoas feridas. São incontáveis os roubos e confrontos armados não denunciados através da plataforma do Fogo Cruzado, principalmente nas inúmeras comunidades amedrontadas pela disputa entre facções criminosas, onde o Estado não passa de espectador da tragédia.

Distritos inteiros já foram dominados por bandidos. Na tentativa de impedir que o crime assuma também o controle dos bairros de maior importância, Centro, Zé Garoto e Alcântara, respectivamente onde estão localizados o Poder Executivo, o Legislativo e o principal complexo comercial, o Governo do Estado trouxe viaturas, motos e 80 policiais para reforçar o patrulhamento nessas regiões. Aqueles que vivem da exploração do voto do eleitor amaram a decisão. O povo também se empolgou com aquilo que não passa de uma medida de emergência insuficiente. Para a segurança pública o aumento do efetivo policial é menos importante do que o combate aos baixos índices de desenvolvimento social, dizia o ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. Não à toa as Unidades de Polícia Pacificadora fracassaram.

Alcântara anda tão perigoso e poluído que a presença do governador Wilson Wizel no bairro nesta sexta-feira, 24 de janeiro, para inauguração do programa “Segurança Presente” exigiu duas medidas que saltaram aos olhos: a retirada das faixas ilegais penduradas no viaduto que corta o bairro e a distribuição de atiradores de elite pelo mesmo viaduto, praticamente no lugar das faixas, para proteger as autoridades contra atentados.

Inclusive políticos sem tradição eleitoral na cidade tentaram assumir a paternidade do programa implantado pelo Governo Witzel (com a nossa grana, nada por bondade, vale lembrar). Em uníssono, para fingir uma iniciativa municipal eles trocaram o nome oficial de “Segurança Presente” para “São Gonçalo Presente” ao divulgar a inauguração da 21ª base do projeto, em Alcântara. O prefeito José Luiz Nanci não ficou de fora do interesse em absover os frutos eleitorais e usou os canais geridos pelo governo do município, como o site da Prefeitura, para insinuar que foi coautor do projeto com Witzel. O Plano Municipal de Segurança Pública, como as ruas provam, é nulo.

No mesmo discurso de inauguração do “Segurança Presente”, Wilson Witzel prometeu que a Fazenda Colubandê voltará a ser sede da polícia ambiental e que São Gonçalo vai ter barca ou metrô, questão a ser definida em 2020. É ano eleitoral, o engodo é sempre o mesmo e São Gonçalo fica cada vez mais distante.

A Enel matou Kaio e Kauã eletrocutados

A Enel matou Kaio e Kauã eletrocutados

Dois irmãos de 2 e 14 anos de idade foram eletrocutados no dia 13 de janeiro no bairro Porto do Rosa, em São Gonçalo. Uma tragédia criminosa que deveria ter sido evitada. Segundo moradores do bairro, um cabo elétrico que há pelo menos um mês ameaçava se romper finalmente caiu, acertando Kaio, o menino mais novo. Kauã foi tentar socorrer o irmão e morreu também.

De acordo com o último relatório financeiro disponível online para investidores da Enel Brasil, distribuidora de energia para São Gonçalo e responsável direta pelo cabo elétrico que matou as crianças, a empresa lucrou R$ 2 bilhões no ano de 2018. Nenhum centavo dessa fortuna foi aplicado pela Enel, voluntariamente ou por força de lei, para impedir que crianças gonçalenses fossem assassinadas ou brutalmente feridas.

Kaio e Kauã não são as primeiras vítimas da empresa. Em abril do ano passado, Adrian, de 7 anos, foi atingido por um fio de alta tensão que estava solto na calçada no bairro Almerinda, também em São Gonçalo. Adrian teve 60% do corpo queimado, precisou amputar o braço direito e os movimentos do menino foram prejudicados. Apesar das sequelas, a Enel cancelou o auxílio-tratamento que fornecia (O São Gonçalo). Se houvesse dignidade na direção da empresa, cuja sede fica em Niterói, bem perto dos crimes que comete em São Gonçalo, o auxílio ao Adrian seria pago durante toda a vida do garoto.

Um passeio por qualquer bairro de São Gonçalo mostra a decadência da fiação elétrica municipal, sempre embolada e pendente, inclusive no centro da cidade. Em alguns trechos falta menos de dois metros para tocar o chão. Além daquilo que economiza por sua negligência na manutenção dos cabos, dentro do lucro bilionário está o dinheiro suado de 1 milhão de gonçalenses. O descaso e a exploração seguem impunes há anos.

Na sua nota oficial, a Enel Brasil teve a ousadia de dizer que não havia pedido de manutenção na área da tragédia e mencionou que Kaio e Kauã soltavam pipa no momento em que foram mortos, insinuando que a linha poderia ter cortado o cabo. Se isso for possível, constitui prova adicional de culpa. Porque permitiu que um fio de alta tensão fosse facilmente cortado e matasse duas crianças, em tempos de alta tecnologia preventiva disponível no mercado e aumentando seu lucro 163% em um ano, em comparação com 2017.

É necessária uma investigação rápida e honesta a respeito do ocorrido. Embora nada seja capaz de reduzir o sofrimento da família de Kaio e Kauã. Por enquanto, entre acreditar nos moradores do Porto do Rosa, que todos os dias testemunham o mau serviço prestado pela Enel, e acreditar na palavra da empresa que interrompe a ajuda financeira dada a crianças que mutila, parece mais sensato acreditar nos habitantes de São Gonçalo, que afirmam que informaram sobre o cabo que ameaçava se partir.

São Gonçalo não tem redutos de riqueza. As crianças daqui não se dedicam a aprender uma segunda língua para seguir os passos profissionais dos pais. Os condomínios fechados com lazer são raríssimos. Já a Enel Brasil faz parte de um grupo que atua em 34 países e se define como um dos principais atores do mercado global de energia. Sua última conquista foi matar dois meninos de uma comunidade pobre cuja maior preocupação era brincar.