Um dia feliz em São Gonçalo

Um dia lindo em São Gonçalo

Hoje fez sol, o dia foi lindo. Acordei às 7h com o barulho habitual dos tiros e tomei um banho rápido. Antes de sair de casa, parado no portão, olhei para os lados e não vi ninguém armado na rua, assim me senti seguro o suficiente pra comprar pão. A padaria do bairro tinha sido assaltada 10 minutos antes por alguns moleques que nunca foram vistos na comunidade. Bandidos desconhecidos, mais ousados, talvez recém-chegados do Rio de Janeiro, os clientes diziam.

Na rua em frente à padaria percebi que haviam construído uma barricada nova com terra, pedras e entulho. Obra prima da construção civil, possível apenas com o uso de máquinas de grande porte, erguida em poucas horas durante a madrugada, praticamente sem fazer barulho.

De novo em casa, sentei à mesa da cozinha pra tomar café da manhã mas tive que levantar pra fechar as janelas, o som de funk que vinha do vizinho estava alto demais. Não eram nem oito horas da manhã. O barulho começa cedo nos dias de resenha entre os jovens.

Terminei de me arrumar e no caminho pro trabalho fiquei irritado de verdade. Um cara empinando a moto, fazendo um barulho horrível, passou raspando do meu lado. Não respeitam mais ninguém. Será que é doido e não me viu na rua? Eu andaria na calçada se existisse calçada em São Gonçalo. Quando existem, são apenas uma passagem cheia de lixo, mato ou buraco e o pedestre é obrigado a se arriscar na rua.

Parado no ponto de ônibus, sem banco e sem cobertura, embaixo de um sol capaz de rachar o asfalto, o alívio só veio quando entrei no coletivo. Moro em São Gonçalo há 30 anos e finalmente rodam ônibus na cidade com ar-condicionado, graças ao esforço dos incríveis parlamentares gonçalenses, em especial o vereador Eduardo Gordo, autor do projeto de lei.

Na volta pra casa, após o fim do expediente, tomei um susto. Minha rua estava lotada, um balão tinha acabado de cair. Escalaram o muro do meu vizinho e invadiram a casa dele, tudo por causa do balão. Algumas senhoras, vestidas a caráter, reclamavam na esquina que interromperam sem avisar as aulas de zumba patrocinadas por um candidato a deputado estadual. Ele não foi eleito e ficou revoltado por ter recebido poucos votos nas zonas eleitorais da região.

Deitei pra dormir agora há pouco, cansado. A roupa que eu tinha deixado no varal pra secar mudou de cor, para preto. Tive que lavar, alguém colocou fogo no mato outra vez. Mas o dia foi bom. Por milagre, São Gonçalo guarda certa ligação especial com a inocência do mundo. A luz da lua está iluminando a janela do meu quarto. A noite está limpa, estrelada, e tem um cheiro fresco no ar que não sei de onde vem. Pena que começaram os tiros de novo.

Quando o Exército passa, o gonçalense cumprimenta

Quando o Exército passa, o gonçalense cumprimenta

Quando um comboio das Forças Armadas circula pelas ruas de São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, o povo para o que estiver fazendo e presta atenção. Os gonçalenses estão acostumados com fuzis, pistolas e granadas nas mãos dos bandidos, mas tanques de guerra, veículos anfíbios e jipes transportando soldados armados despertam a curiosidade popular.

A cidade ocupa a segunda posição no ranking de tiroteios ocorridos na região, de acordo com o balanço dos oito meses de intervenção federal na segurança pública feito pela plataforma Fogo Cruzado. Fica atrás da capital do Estado, que possui seis vezes mais habitantes. No município gonçalense, 169 pessoas foram mortas em tiroteios desde fevereiro, enquanto na cidade do Rio de Janeiro o número chega a 331 mortos no mesmo período, até o dia 15 de outubro.

De fardas limpas, usando óculos escuros e mirando o horizonte, o comboio acelerado de militares parece vir de outro país, mais honesto e organizado. Já as comunidades gonçalenses são abandonadas na sujeira, o lixo não é recolhido regularmente e o esgoto corre livre a céu aberto.

Diante da tensão que acompanha o avanço dos carros blindados, os homens colocam o copo de cerveja na mesa, se levantam devagar e vão para a porta do boteco a fim de ver melhor a cena. Uma vez ouvi um bêbado eufôrico aconselhar o outro: “Tá vendo aí? Eu te falei. Olha o Exército, toma cuidado”.

Os jovens, que costumam falar alto, cochicham nas esquinas sobre o tamanho das armas e seu poder de destruição. As crianças se agarram às mãos dos adultos e viram o rosto para o lado oposto, assustadas. Seu passo amolece, as pernas se embolam. É medo de verdade, que só a criança de localidades dominadas pelo tráfico de drogas conhece.

A bandidagem se camufla, esconde armas, drogas, mas nem sempre se esconde. Fica no meio das pessoas que observam a movimentação militar e atividades como remoção de barricadas, obstáculos que os próprios bandidos reconstruirão logo depois, talvez na mesma noite. Às vezes tem tiroteio, mas não é raro o Exército entrar e sair da favela em silêncio, como o vento.

Ter a companhia da força militar por algumas horas nos lembra que o Estado Brasileiro existe, pelo menos em algum lugar. Traz a ilusão de que, com o Exército na periferia, os traficantes e seu arsenal terão oponentes à altura. No final de cada operação, vemos que elas não fazem nenhuma diferença profunda. O esgoto ainda passa na porta da casa do pobre, as crianças continuam sem opções de lazer. As bocas de fumo voltam a funcionar e a polícia militar raramente é vista.

A intervenção federal se resume ao trânsito soberbo de veículos militares, admiração e espanto do povo. E sempre que as Forças Armadas circulam, a segunda maior população do Rio de Janeiro renova suas esperanças e se levanta para assistir.

Plano de governo de Haddad é superior

Plano de governo de Haddad é superior

O plano de governo de Fernando Haddad tem o mérito de expor as necessidades do país e a vantagem de apresentar propostas com certa maturidade. O plano de Jair Bolsonaro é superficial, não cita as raízes históricas da desigualdade social brasileira e parece escrito por um militante jovem, inexperiente e exaltado, por abusar da cor vermelha no texto e tentar convencer o leitor através de insistentes pontos de exclamação.

O plano elaborado por Haddad tem 62 páginas, enquanto o de Bolsonaro, batizado como Projeto Fênix, tem 81. Mas ler o documento petista, de conteúdo técnico e escrito com uma fonte menor, leva mais tempo.

Haddad lista os sofrimentos de grupos injustiçados no país: negros, índios, LGBTIs, mulheres. E traz sugestões que respeitam as particularidades de cada segmento. Por fim promete “um livro numa mão e uma carteira de trabalho na outra” para superar o desemprego, a violência e a crise econômica.

Bolsonaro afirma no Projeto Fênix que armas de fogo podem ser usadas para salvar vidas (felizmente ele não incentiva o uso de armas pelo Sistema Único de Saúde). Quer a redução da maioridade penal para 16 anos e defende expurgar a ideologia de Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira, das salas de aula. Uma ameaça infeliz. Se nossos estudantes absorvessem hoje a menor das ideias de Paulo Freire, no futuro o Brasil teria candidatos à Presidência mais dignos e humanos que o próprio Bolsonaro.

O plano de Haddad tem uma visão mais consistente sobre Educação. Prega a melhoria do ensino em escolas localizadas em regiões de alta vulnerabilidade, que geralmente apresentam alta evasão escolar e altos índices de criminalidade, e estabelece em 10% o percentual do PIB que pretende investir na pasta.

Enquanto o pobre ainda almeja construir um patrimônio, o candidato do Partido Social Liberal (PSL) louva a propriedade privada, demonstrando preocupação em manter sua inviolabilidade, um valor elitista. Chega ao ponto de tipificar como terrorismo as invasões de propriedades no território brasileiro. O plano exalta a fraternidade, mas com tom de caridade, e mostra o Liberalismo como solução mágica para os problemas do mundo.

Já Haddad defende o equilíbrio de infraestrutura e serviços entre a cidade e o campo e coloca a Amazônia como ator estratégico nacional e internacional. Bolsonaro sequer cita a Amazônia. O candidato petista inclui o Brasil no contexto das grandes questões mundiais desse século, como o desenvolvimento sustentável. E aborda diretamente outros temas de fundamental importância ignorados por Bolsonaro, como o trabalho escravo.

Os dois projetos têm em comum a falta de amparo científico para as suas propostas e não mostram a origem dos recursos que pretendem aplicar. Haddad, pelo menos, planeja parcerias com comunidades de conhecimento especializado.

Tendo em vista o discurso antidemocrático pregado por Jair Bolsonaro e família, que inclui expulsar e fuzilar opositores e fechar o Supremo Tribunal Federal, um plano de governo arbitrário e de menor inteligência assinado pelo PSL não deveria surpreender.