Barricada

É avassalador o nascimento de uma barricada. Como se fosse uma força da natureza incontrolável. De repente, numa noite qualquer, ela surge e nenhum bairro de São Gonçalo está livre.

Sua gestação é tão sutil quanto o desenvolvimento da violência urbana. Ela cresce lentamente por baixo do solo por dias, até meses, as notícias de assaltos e assassinatos se acumulam, nos acostumamos a elas, o tempo passa, o tiro come, homens armados circulam cada vez mais cedo, à luz do dia. São os componentes da seiva que a nutre secretamente até que irrompe do solo uma barricada dura como a realidade sofrida ocupando toda a rua.

Na manhã seguinte, espanto geral. No caminho até a padaria, as pessoas reduzem o passo perto dela e observam. Quando voltam para casa, pão embaixo do braço, olham a barricada e se espantam de novo, não podem evitar a surpresa. Há vergonha em seus olhos. Aquilo é a materialização do fracasso do Estado e da Sociedade do Rio de Janeiro.

Os alunos do Ensino Fundamental em direção à escola e o trabalhador que sai de casa pela primeira vez após o nascimento da barricada se perguntam: “como algo tão grande foi parar aqui, sem eu ter visto nada?”. No fundo todos sentiam o aumento da criminalidade ao redor. Os jovens do Ensino Médio sorriem diante dela, inconsequentes naturais atraídos pela sensualidade da violência sem sangue.

Ruas como a Dr. Feliciano Sodré, onde fica a Prefeitura, ainda estão livres porque não reúnem o silêncio, o solo e o medo necessário para uma barricada perfeita.

Os dias passam, pessoas e veículos também e a barricada permanece onde nasceu. Não é preciso vigiá-la como a um bebê. Alguns motoristas em direção à própria garagem a deslocam não mais que o suficiente pro carro atravessar, com o pisca-alerta ligado até durante o dia, e rapidamente, mas com carinho, reacomodam o objeto sagrado.

O poder da barricada é tremendo, ela divide São Gonçalo. Do gigantesco lado depois dela, o terror. Ele mantém sofás, geladeiras, armários e manilhas de concreto na posição exata em que surgiram. No lado anterior vemos a cidade um pouco mais estruturada, parte reduzida do território que se ajusta a cada perda de terreno e sobrevive.

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