Vergonha de viver em dois Brasis

Lições de Casa-grande & senzala para o Brasil atual

Durante anos trabalhei em alguns bairros da zona sul do Rio de Janeiro e na Barra da Tijuca, residência de ricos, presidentes e milicianos. Depois do expediente, voltava para a minha realidade, São Gonçalo, onde moro desde os sete anos de idade. A princípio o que me incomodava era a decadência gonçalense diante dos canteiros arborizados, das calçadas niveladas e dos lindos hidrantes vermelhos, sempre em bom estado de conservação, vistos nas quadras nobres do Leblon, do Jardim Botânico e em Botafogo. Depois percebi que, além dos diferentes níveis de urbanização entre os lados de lá e de cá, há inúmeros outros contrastes, absolutas injustiças sociais, que atingem principalmente uma determinada cor de pele.

Cheguei ao ponto de desejar que São Gonçalo fosse tão bonita e organizada quanto Ipanema. Há tantos gonçalenses que acordam cedo, enfrentam engarrafamentos no trânsito e servem sofrendo humilhações e ganhando baixos salários no bairro que inspirou canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que meu desejo não passava de um engano ingênuo. São Gonçalo não pode ser Ipanema porque Ipanema não é boa para São Gonçalo. O bairro prefere não organizar, distribuir, a riqueza que acumula.

Então adquiri um hábito do qual não consigo me livrar, virou vício. Passei a perceber as características físicas e o comportamento de quem serve e de quem é servido nos redutos da elite. Além da zona sul, os modernos prédios comerciais da Avenida Rio Branco e os escritórios de luxo no Centro do Rio de Janeiro. No outro extremo, a acompanhar a quantidade exorbitante de camelôs que sofrem nas calçadas, nas ruas e no cotidiano de São Gonçalo. O volume assustador de pedintes que se espalham nos semáforos, viadutos e estacionamentos da cidade, agravado pela falência do mercado formal de trabalho.

Com a constatação do óbvio, veio a vergonha. O Brasil continua o mesmo lugar retratado por Debret, só que com menos exuberância ambiental. Quem pena e sua sob o sol forte é a pele mais escura. Os ambientes confortáveis, hoje refrigerados por aparelhos de ar-condicionado, são ocupados pelos filhos dos homens que antes estiveram na mesma posição. O país inteiro segue cartilha semelhante.

Finalmente cansei de sentir vergonha. Não posso mais olhar o rosto dos vendedores ambulantes de água em São Gonçalo, que carregam a mercadoria pesada nos ombros nus, e ver que são negros. Desvio o olhar. Como também são negros os porteiros e ascensoristas da Avenida Ataulfo de Paiva, que não raro recebem frieza depois de sorrir e cumprimentar com “Bom dia” aos senhores e senhoras vestidos em traje esporte fino. Não suporto mais o fato de que o problema do Brasil não é incompetência administrativa ou infertilidade econômica, mas falta de respeito pelo próprio brasileiro.

Se a vergonha me cansou, tento imaginar como se sentem as vendedoras de chips para celular que passam o dia de pé nas esquinas, gritando sem parar, concorrendo com os amigos ao lado, e inalando o escapamento dos veículos. Não é difícil adivinhar sua ascendência, sua formação educacional e as condições sem infraestrutura do lugar onde vivem. O Brasil é dividido há séculos. Unir o país exige o reconhecimento de que as partes têm dores e cores bastante diferentes.

Corri atrás do caminhão de lixo

Corri atrás do caminhão de lixo

Há décadas que eu não fazia isso. Corri atrás do caminhão de lixo, desembestados, eu e ele. Quando era criança, corria a pé, gritando e pulando as calçadas desniveladas do Vila Três ou pisando nas pedras doloridas das ruas sem asfalto. Nesse sábado, deixei meu filho na igreja, no centro de Alcântara, e retornei de carro pegando aquele trânsito infernal em direção e através da Avenida MARICÁ. Depois da praça CHICO MENDES, dobrei à direita, antes da Casa da Moeda, e lá estava o caminhão, grande e fedorento.

Parei o carro atrás dele e esperei. Os lixeiros estavam a todo vapor, pulavam da traseira do caminhão e catavam as sacolas largadas nas calçadas de um lado e do outro mais rápidos do que um velocista olímpico. Quando o caminhão acelerava, eu acelerava também e colava na traseira dele. Um dos garis usava óculos escuros, como se estivesse desfilando na São Paulo Fashion Week. Era negro. Para ele nosso país reserva os empregos menos remunerados e mais sofridos.

O gari de óculos gritava “Uh-Hul!” antes de jogar cada sacola na caçamba do caminhão. Como se comemorasse a conquista de uma medalha. Veio um cidadão e falou algo no ouvido dele. O gari só balançou a cabeça dizendo que sim. O homem entrou em casa, saiu carregando uma sacola pesada e tacou dentro da caçamba. O gari fez o mesmo três vezes, com o caminhão parado e fechando o trânsito. Era entulho, pedra, areia e ferro, material que não pode ser descartado assim. É a única forma que o gonçalense tem de se vingar da Marquise Ambiental, empresa que há muitos anos, independentemente do governo municipal, recolhe milhões e milhões através de contatos de emergência, sem licitação. Depois o entulho vai parar no meio ambiente e todos se ferram ao mesmo tempo, o gonçalense, a Marquise e o mundo.

Eles precisam cobrir a cidade em pouco tempo. Por isso o caminhão de lixo acelerou, e eu corri atrás dele. Sorrindo, um senhor disse “Bom-dia” aos garis e jogou um copo de plástico na caçamba, com restos de café. O velho ria porque era uma manhã de sábado ensolarada de inverno. Ria porque é gonçalense. Porque o lixeiro ao lado dele, pegando cacos de vidro com as mãos nuas, também sorria. Impossível saber.

Atrás de mim, os motoristas buzinavam sem parar. Do lado esquerdo, havia uma fila de carros estacionados na rua. Do lado direito, a mesma coisa. No meio, primeiro o caminhão de lixo da Marquise e depois eu. Nada conseguia nos ultrapassar, nem bicicleta.

Passamos em frente a uma oficina e os funcionários foram correndo até a porta e começaram a gritar “Êêêê, Êêêê” para o caminhão, com as mãos estendidas para o alto. O mesmo grito que eu dava quando era criança, o mesmo grito dos garis recolhendo as sacolas. Não se entende a razão desse hábito, mas é contagiante. Quem não grita, tem vontade de gritar. O gonçalense é muito mais inocente que o carioca e mais feliz e sincero que o morador de Niterói.

As engrenagens do caminhão espremiam as pedras e o entulho se misturava aos restos de comida e plástico. De repente, ele estacionou para recolher o lixo do sacolão na esquina da Rua Gustavo Mayer com a Estrada Raul Veiga e eu passei direto. Uma parte do espírito de São Gonçalo ficou ali, atrás do caminhão, com o povo gritando sem motivo e os garis sorrindo enquanto jogavam o lixo na caçamba.

Ouvir as mães que choram

Ouvir as mães que choram

Quando cria sua primeira consciência social, geralmente durante a adolescência, o brasileiro se pergunta como transformar o Brasil em um país sem pobreza, que respeite seu povo e cuide do meio ambiente. As mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia ou pelo tráfico conhecem bem a resposta: defendendo a vida humana a qualquer custo.

Miria Antunes chora a morte do filho Victor desde o fim do mês de maio, durante ação da Polícia Militar no bairro Jardim Bom Retiro, em São Gonçalo (RJ). Ela precisou ir aos jornais dizer que o filho não era bandido e trabalhava em uma lanchonete de uma cidade vizinha porque, hoje em dia, primeiro se destrói a vida e depois a reputação do pobre. Defender a memória dos filhos mortos e lutar por Justiça é tudo que resta às mães.

O Brasil do fim do primeiro semestre de 2019 é um país de perdas tristes, que atingem principalmente famílias espremidas entre as armas, as drogas e o esgoto, como a família de Victor. Elas são as primeiras vítimas das homenagens frequentes à morte feitas pelo time alinhado ao Partido Social Liberal porque vivem sob mira constante.

Além dos pronunciamentos saudosistas sobre a ditadura militar, que cobrem o território nacional com a sombra da violência daquele período de exceção, o governo de Jair Bolsonaro destrói, um após o outro, os instrumentos de combate à tortura e promoção da dignidade. É oficial, está no Diário da União, e foi denunciado à Organização das Nações Unidas por ativistas da entidade Justiça Global. O Presidente da República, em pessoa, ainda defende e apoia a indústria de armamentos e a circulação de mais armas na rotina da nossa sociedade.

A combinação entre pobreza e desprezo pela vida, pregado das janelas do Palácio do Planalto, não vai permitir que o Brasil encontre seu rumo no cenário mundial. Bolsonaro é tão incapaz de viabilizar o crescimento nacional, respeitando o povo e as riquezas naturais do país, que também tem atacado e reduzido órgãos de defesa do meio ambiente e permitido o uso desenfreado de agrotóxicos pela agricultura.

Abandonando princípios básicos da Constituição cidadã, o atual presidente comparou sua popularidade a do general Médici, cuja gestão foi responsável por 50% das mortes na ditadura. O Brasil é guiado por Bolsonaro à pior das pobrezas, a pobreza de espírito. Ela corrompe a alma de um povo que já traz as finanças corrompidas pelo desemprego e pela má formação educacional. Mais ninguém acredita em um considerável avanço econômico ainda nesse governo, seja porque percebe a ausência de uma agenda positiva ou porque culpa a imprensa e a oposição pelas mazelas do país e os desenhos da Disney pela homossexualidade humana.

O mais significativo indicador social do Brasil é a quantidade de mães que choram após cada decisão ignorante e preconceituosa do governo Bolsonaro. A tendência é o país se transformar em um gigante armado, que cospe tiros contra a juventude negra – segmento que mais sofre com a violência – e compartilha pornografia carnavalesca nas redes sociais. Não se discute mais o direito à uma existência digna, voltamos a pedir permissão para viver.