Corri atrás do caminhão de lixo

Corri atrás do caminhão de lixo

Há décadas que eu não fazia isso. Corri atrás do caminhão de lixo, desembestados, eu e ele. Quando era criança, corria a pé, gritando e pulando as calçadas desniveladas do Vila Três ou pisando nas pedras doloridas das ruas sem asfalto. Nesse sábado, deixei meu filho na igreja, no centro de Alcântara, e retornei de carro pegando aquele trânsito infernal em direção e através da Avenida MARICÁ. Depois da praça CHICO MENDES, dobrei à direita, antes da Casa da Moeda, e lá estava o caminhão, grande e fedorento.

Parei o carro atrás dele e esperei. Os lixeiros estavam a todo vapor, pulavam da traseira do caminhão e catavam as sacolas largadas nas calçadas de um lado e do outro mais rápidos do que um velocista olímpico. Quando o caminhão acelerava, eu acelerava também e colava na traseira dele. Um dos garis usava óculos escuros, como se estivesse desfilando na São Paulo Fashion Week. Era negro. Para ele nosso país reserva os empregos menos remunerados e mais sofridos.

O gari de óculos gritava “Uh-Hul!” antes de jogar cada sacola na caçamba do caminhão. Como se comemorasse a conquista de uma medalha. Veio um cidadão e falou algo no ouvido dele. O gari só balançou a cabeça dizendo que sim. O homem entrou em casa, saiu carregando uma sacola pesada e tacou dentro da caçamba. O gari fez o mesmo três vezes, com o caminhão parado e fechando o trânsito. Era entulho, pedra, areia e ferro, material que não pode ser descartado assim. É a única forma que o gonçalense tem de se vingar da Marquise Ambiental, empresa que há muitos anos, independentemente do governo municipal, recolhe milhões e milhões através de contatos de emergência, sem licitação. Depois o entulho vai parar no meio ambiente e todos se ferram ao mesmo tempo, o gonçalense, a Marquise e o mundo.

Eles precisam cobrir a cidade em pouco tempo. Por isso o caminhão de lixo acelerou, e eu corri atrás dele. Sorrindo, um senhor disse “Bom-dia” aos garis e jogou um copo de plástico na caçamba, com restos de café. O velho ria porque era uma manhã de sábado ensolarada de inverno. Ria porque é gonçalense. Porque o lixeiro ao lado dele, pegando cacos de vidro com as mãos nuas, também sorria. Impossível saber.

Atrás de mim, os motoristas buzinavam sem parar. Do lado esquerdo, havia uma fila de carros estacionados na rua. Do lado direito, a mesma coisa. No meio, primeiro o caminhão de lixo da Marquise e depois eu. Nada conseguia nos ultrapassar, nem bicicleta.

Passamos em frente a uma oficina e os funcionários foram correndo até a porta e começaram a gritar “Êêêê, Êêêê” para o caminhão, com as mãos estendidas para o alto. O mesmo grito que eu dava quando era criança, o mesmo grito dos garis recolhendo as sacolas. Não se entende a razão desse hábito, mas é contagiante. Quem não grita, tem vontade de gritar. O gonçalense é muito mais inocente que o carioca e mais feliz e sincero que o morador de Niterói.

As engrenagens do caminhão espremiam as pedras e o entulho se misturava aos restos de comida e plástico. De repente, ele estacionou para recolher o lixo do sacolão na esquina da Rua Gustavo Mayer com a Estrada Raul Veiga e eu passei direto. Uma parte do espírito de São Gonçalo ficou ali, atrás do caminhão, com o povo gritando sem motivo e os garis sorrindo enquanto jogavam o lixo na caçamba.

Ouvir as mães que choram

Ouvir as mães que choram

Quando cria sua primeira consciência social, geralmente durante a adolescência, o brasileiro se pergunta como transformar o Brasil em um país sem pobreza, que respeite seu povo e cuide do meio ambiente. As mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia ou pelo tráfico conhecem bem a resposta: defendendo a vida humana a qualquer custo.

Miria Antunes chora a morte do filho Victor desde o fim do mês de maio, durante ação da Polícia Militar no bairro Jardim Bom Retiro, em São Gonçalo (RJ). Ela precisou ir aos jornais dizer que o filho não era bandido e trabalhava em uma lanchonete de uma cidade vizinha porque, hoje em dia, primeiro se destrói a vida e depois a reputação do pobre. Defender a memória dos filhos mortos e lutar por Justiça é tudo que resta às mães.

O Brasil do fim do primeiro semestre de 2019 é um país de perdas tristes, que atingem principalmente famílias espremidas entre as armas, as drogas e o esgoto, como a família de Victor. Elas são as primeiras vítimas das homenagens frequentes à morte feitas pelo time alinhado ao Partido Social Liberal porque vivem sob mira constante.

Além dos pronunciamentos saudosistas sobre a ditadura militar, que cobrem o território nacional com a sombra da violência daquele período de exceção, o governo de Jair Bolsonaro destrói, um após o outro, os instrumentos de combate à tortura e promoção da dignidade. É oficial, está no Diário da União, e foi denunciado à Organização das Nações Unidas por ativistas da entidade Justiça Global. O Presidente da República, em pessoa, ainda defende e apoia a indústria de armamentos e a circulação de mais armas na rotina da nossa sociedade.

A combinação entre pobreza e desprezo pela vida, pregado das janelas do Palácio do Planalto, não vai permitir que o Brasil encontre seu rumo no cenário mundial. Bolsonaro é tão incapaz de viabilizar o crescimento nacional, respeitando o povo e as riquezas naturais do país, que também tem atacado e reduzido órgãos de defesa do meio ambiente e permitido o uso desenfreado de agrotóxicos pela agricultura.

Abandonando princípios básicos da Constituição cidadã, o atual presidente comparou sua popularidade a do general Médici, cuja gestão foi responsável por 50% das mortes na ditadura. O Brasil é guiado por Bolsonaro à pior das pobrezas, a pobreza de espírito. Ela corrompe a alma de um povo que já traz as finanças corrompidas pelo desemprego e pela má formação educacional. Mais ninguém acredita em um considerável avanço econômico ainda nesse governo, seja porque percebe a ausência de uma agenda positiva ou porque culpa a imprensa e a oposição pelas mazelas do país e os desenhos da Disney pela homossexualidade humana.

O mais significativo indicador social do Brasil é a quantidade de mães que choram após cada decisão ignorante e preconceituosa do governo Bolsonaro. A tendência é o país se transformar em um gigante armado, que cospe tiros contra a juventude negra – segmento que mais sofre com a violência – e compartilha pornografia carnavalesca nas redes sociais. Não se discute mais o direito à uma existência digna, voltamos a pedir permissão para viver.

Há inocentes na favela

Há inocentes na favela

A comunidade ouviu tiros disparados por armas pesadas. Muitos tiros, parecia guerra. Depois, gritos de desespero. Mulheres imploravam por socorro, homens mandavam agir rápido, uma voz isolada pedia calma. Na esquina da entrada principal da favela, Paulinho, 11 anos de idade, caído sobre uma poça de sangue no chão, com a bicicleta ainda no meio das pernas. Alguns metros a frente, do outro lado da rua, Rômulo, mototaxista, morto com um tiro na cabeça. Tinha 25 anos e era pai de um bebê de 6 meses.

Os moradores se revoltaram: juntaram pneus, móveis, um sofá e colocaram fogo para bloquear a rua. Uma adolescente pegou duas folhas de papel em casa, colou as folhas, escreveu “PAZ” e se juntou à multidão. Policiais se aproximaram, mas não interferiram. A imprensa chegou. A primeira foto do protesto compartilhada nas redes sociais tinha uma legenda onde se lia “Bandido defendendo bandido!”. Quem compartilhou não leu a matéria (a violência em curso é o auge de um projeto político e social criminoso que contamina). O corpo de Rômulo ainda estava no chão, coberto por um plástico preto. Paulinho tinha sido levado ao hospital em estado grave, com um projétil na coluna.

Questionada pela imprensa, a Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro declarou que agentes faziam patrulhamento na localidade quando foram atacados por criminosos e houve confronto. Os suspeitos conseguiram fugir, mas foram apreendidos três pistolas nove milímetros e seiscentos e quarenta papelotes de maconha. Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

A mãe do menino está em estado de choque, não fala, as lágrimas secaram. Por causa da tristeza, ela não consegue voltar para casa, todas as noites dormia abraçada ao filho. Eram quatro horas da tarde quando ele pediu para andar de bicicleta, a comunidade parecia tranquila. Embora o controle do Rio de Janeiro esteja nas mãos de bandidos ou psicopatas, do Palácio Guanabara às mais capengas bocas de fumo, e o pobre não tenha para onde ir, ele guarda a fé de que o pior não vai lhe atingir. Apesar de Rômulo e Paulinho terem muito em comum – a cor da pele, a renda familiar, o bairro de origem – com as vítimas dos frequentes assassinatos no Rio de Janeiro. É humano ter esperança.

A tia de Paulinho também deu entrevista e disse ao repórter que não houve confronto. Na opinião da senhora, policiais desconfiaram do mototaxista que passava em alta velocidade e começaram a atirar. “É assim que eles agem aqui, sem respeito pelo morador”, acusou. Os gritos de socorro que a comunidade ouviu eram delas, da mãe e da tia.

Menos de 24 horas depois, a morte cerebral de Paulinho foi confirmada. Os órgãos dele serão doados porque, mais uma vez, é humano ter esperança. Só não é humano admitir que o Estado siga matando, sem parar, criança e trabalhador. Ou pensar que a morte de negros e pobres faz parte da solução que o Rio de Janeiro pode implementar contra a violência.