O Estado mata, debocha e mente

Poucos lugares do mundo experimentam tanto desprezo pela vida humana como o Estado do Rio de Janeiro. Pessoas e instituições que deveriam proteger a população e garantir seus direitos fuzilam inocentes à luz do dia e abandonam cidadãos à própria sorte, vivendo sem condições mínimas de segurança e dignidade.

No dia 5 de abril, sexta-feira, homens do Exército atiraram contra dois jovens em uma moto que teria furado uma blitz na Vila Militar, zona oeste da capital. Christian, de apenas 19 anos, não resistiu e morreu. O piloto da moto, menor de idade, ficou ferido. Ambos estavam desarmados. Dois dias depois, um domingo, soldados atiraram oitenta vezes contra um carro com uma família a bordo, inclusive uma criança de 7 anos, matando o pai dela e ferindo duas pessoas. No dia seguinte, cidadãos fluminenses morreram afogados e soterrados por causa de um fenômeno conhecido como descaso público, evidenciado quando chove. Não precisa chover tão forte para assisti-lo. Bem, não precisa nem chover.

Diante dos pedidos de socorro dos ocupantes do veículo atacado pelas forças oficiais de segurança, cuja função constitucional é a defesa da pátria, os militares nada fizeram para socorrer as vítimas, “ficaram de deboche”, de acordo com Luciana Nogueira. Luciana estava no veículo e era esposa de Evaldo Rosa dos Santos, morto com as armas compradas com os impostos pagos pelo brasileiro.

O Exército não atirou nos jovens e na família porque confundiu inocentes com criminosos. Quando vidas são perdidas, a questão não pode ser esgotada de maneira tão simples. O Exército atira porque age de acordo com o pouco valor e respeito que o Estado Brasileiro atribui ao povo. Ódio que começa contra criminosos, inclui negros e pobres e pode atingir qualquer pessoa.

Quando abriram fogo para matar, antes de qualquer abordagem inteligente, mesmo sem terem sido ameaçados, os soldados assumiram o risco de atingir crianças, o futuro do país, mas tentaram esconder o crime do conhecimento público. A primeira versão oficial disse que os militares responderam a uma agressão de bandidos. Em muitos casos, mentiras como essa prevalecem. No caso da família fuzilada, a injustiça é óbvia demais e os envolvidos foram presos. Presos pela Justiça Militar, a investigação será realizada pelo próprio Exército. Outro deboche contra a família da vítima.

Durante entrevista no bairro Jardim Maravilha, completamente alagado pela chuva, o prefeito do Rio de Janeiro também debochou. Crivella não quis explicar por que não decretou estado de emergência nas primeiras horas de crise. Disse que a explicação não ajudaria a resolver “bulufas”. Tragédias são recorrentes no Rio. Se a gestão pública não der explicações sobre suas ações, novas tragédias não serão evitadas. Aliás, trechos da ciclovia Tim Maia, que Crivella afirmou que jamais cairia novamente, caíram pela quarta vez. Também deboche do bispo.

Embora o Ministro da Justiça tenha declarado que episódios em que o Exército mata jovens e pais de família podem acontecer, o Rio de Janeiro tem saída: respeitar a vida humana desde o nascimento, sem exceção. Investir em educação e cidadania. E recusar que um Estado falido e despreparado atire para matar quando quiser.

Witzel vestiu a faixa da morte

Teve início a temporada oficial de caça aos bandidos no Rio de Janeiro. Ilegal, mas inaugurada pelo governador. Wilson Witzel revelou que atiradores de elite já agem no Estado, de forma secreta, prontos para estourar os miolos de quem estiver portando fuzil. Inclusive se não houver ameaça iminente à vida de alguém. A ordem é matar, a origem e o destino das armas são temas secundários, não rendem votos.

Incentivar o extermínio não deveria ser o papel do governador de um Estado sob calamidade financeira, onde o desemprego é maior do que a média nacional e 83% dos jovens infratores da capital abandonaram a escola. Witzel vestiu a faixa da morte quando tomou posse, ao invés da faixa da Educação e do desenvolvimento econômico e social. Cabe ao governador exibi-la de peito aberto, com a transparência que sentenciar um ser humano à morte exige.

Que o corpo de cada pessoa, marginal ou cidadão segurando guarda-chuva, seja resgatado pelo policial mais corajoso do BOPE, com quem Witzel foi até o chão fazendo flexões de braço. Que as roupas ensanguentadas do morto sejam rasgadas, amarradas e colocadas sobre os ombros largos do governador.

Como quem puxa o gatilho é o atirador de elite, Witzel deve participar da barbárie mais de perto. Ele carregaria o sangue do morador de São Gonçalo e de Duque de Caxias, da Vila Kennedy e da Cidade de Deus aos compromissos oficiais dentro e fora do Palácio Guanabara. Sangue dos jovens que apanharam da polícia, que nunca acredita na honestidade do negro favelado. Sangue dos jovens aliciados pelo tráfico, que se apresenta como único caminho para conseguir dinheiro e respeito.

Depois de um dia cansativo, sem tirar as faixas que conquistou, rígidas pelo sangue coagulado, o governador se sentaria à mesa para jantar com a família. Quem mata não sente nojo, não faz cara feia. Afinal, Witzel já provou o tamanho da sua frieza durante a campanha eleitoral, ao defender as execuções em entrevistas para canais de televisão, em horário nobre, e jornais do país inteiro.

Além das vítimas do tráfico de drogas, dois milhões de pessoas vivem em áreas sob influência de milicianos no Rio de Janeiro. Bandidos que guardam centenas de fuzis em condomínios de luxo, dignos de um Presidente da República, e aterrorizam a Baixada Fluminese, a Região Metropolitana e comunidades da capital. No governo Witzel existe estratégia para matar e desrespeitar a lei, mas nenhum planejamento eficiente contra a tristeza de ser expulso de casa, de ser obrigado a pagar pela própria segurança – responsabilidade do Estado – e contratar serviços de internet e tv por assinatura controlados pela milícia.

A promessa de matar mirando na “cabecinha” elegeu Witzel e ela jamais o perturbou. O governador continua capaz de exibir para as câmeras um sorriso puro e infantil, quase angelical, mesmo derramando sangue. Transformando o número de execuções e faixas no principal indicador de qualidade do governo, ao final do mandato veremos que tipo de pessoa Witzel se tornou e se alguém suportará o incômodo de ficar ao seu lado.

De volta ao golpe

O presidente Jair Bolsonaro e as Forças Armadas celebram hoje o golpe civil-militar iniciado há exatos 55 anos. Inspirados por Bolsonaro, adorado como fenômeno incorruptível, parte dos brasileiros se junta às comemorações através do celular e das redes sociais. Com eles, ao invés de avançar na direção da justiça social e do desenvolvimento, o Brasil dá um passo para trás, de volta à estupidez e ao ódio.

O Exército pertencia ao presidente João Goulart nas primeiras horas do dia 31 de março de 1964, como narra o jornalista Elio Gaspari em A Ditadura Envergonhada. Mas, o país inteiro cambaleava. Nas Forças Armadas, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria, apresentava maior grau de desequilíbrio. Às cinco horas da manhã, vestindo pijama e roupão de seda vermelho, Mourão desencadeou o golpe, inicialmente usando o telefone como arma, em busca de apoiadores. O domínio dos militares sobre o povo brasileiro teria fim 21 anos depois, após torturar cerca de 20 mil pessoas, destituir do cargo 4841 representantes eleitos e matar pelo menos 434 pessoas, de acordo com números da Comissão Nacional da Verdade.

Bolsonaro repete a tese de que o golpe, que ele chama de “revolução”, livrou o Brasil do comunismo. Na verdade, a ditadura militar chegou ao ponto de torturar e estuprar crianças. Dezenas foram presas, fichadas, exiladas ou entregues para adoção ilegal. Mulheres grávidas estiveram entre as vítimas violentadas. Não parece que o país se livrou de muita coisa.

Tanto que após o início da barbárie e o endurecimento do regime, os civis se arrependeram de tê-lo apoiado. Protestos se tornaram cada vez maiores e mais frequentes. Mas era tarde. O Congresso foi fechado, o habeas corpus, suspenso, e os cidadãos perderam seus direitos mais sagrados. Em um país sem memória, que não se lembra da dor da época, há infelizes que sonham com uma nova intervenção militar e o fim da democracia.

A comemoração do golpe é nojenta e vergonhosa. Por 6 anos servi em diferentes organizações militares da Marinha. Nunca nenhum comando cogitou comemorar o uso indevido das Forças Armadas para derrubar um presidente legítimo. A proposta pareceria ridícula para qualquer militar se não tivesse vindo de Jair Bolsonaro, fã assumido de Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador na ditadura.

Jamais meus companheiros de trabalho citaram o golpe com alegria ou orgulho. Todos os militares que conheci, milhares de pessoas, sempre viram as Forças Armadas como uma ferramenta para defesa do Brasil e garantia das liberdades individuais. O bom militar sabe que as Forças Armadas não comemoram suas realizações. Elas servem aos interesses do povo brasileiro, sob a força da Constituição. Bem como sabe que o Presidente da República é o seu comandante supremo, em vez de alvo de conspirações entre almirantes e generais.

O dia 31 de março é uma nova oportunidade para o debate sobre o passado – quando torturar e matar se tornaram práticas de Estado – e um estímulo ao fortalecimento da democracia. Celebrando a ditadura, o presidente Bolsonaro despreza os brasileiros que realmente amam e respeitam a liberdade humana.