Amar sem limites

Obedecer e amar sem limites, mesmo dizendo que não chegou a hora certa de amar. Ainda que não se considere preparado, buscar amar como ninguém nunca amou. Depois, por não saber fazer outra coisa tão bem, continuar amando. Amar por compaixão de si mesmo e dos outros, já que o maior presente que alguém pode dar e receber é amor.

Amar o pobre por onde passar. Ofertar esperança, conforto e alegria junto com o pão. Acabar de uma vez por todas com a exploração do outro, permitir que cada um tenha as mesmas oportunidades e possa trabalhar para se sustentar. Amar sem esperar nada em troca. Nenhum tipo de benefício ou mudança de comportamento do ser amado. Sem exigências, inspirar o amor. Transformar a sociedade através da oração, da confiança, do sentimento e do conselho amoroso. Amar os desconhecidos, principalmente os injustos, corruptos, violentos e mesquinhos. Com o seu amor, provar para eles que um mundo de paz é possível.

Não julgar porque geralmente fazem julgamento idêntico de nós: frio, superficial e corrompido por preconceitos. Julgamento que destrói e mata. Portanto, ser o primeiro a amar. A interromper as injustiças e a violência. Amar como ninguém está acostumado a ser amado. Vencer a morte e permanecer unido ao mundo por meio do amor.

Conceder uma segunda chance a quem errou, uma terceira chance e quantas forem necessárias desde que você ame de verdade. Com amor sincero, cada perdão tem fundamento e nada permanece como antes. Há tantos jovens presos, aguardando uma oportunidade de recomeçar a vida, condenados para sempre por um único erro. Erro que se repete a cada geração e não impedimos por falta de amor. Sequer os arrependidos são ouvidos, amados e protegidos, quando tudo o que Deus nos pede, sem nos privar do Seu amor, é arrependimento.

Amar a vida desde o princípio sem restrições de raça, cor, idade e classe. Onde houver desespero, dor e morte, intervir com amor e acolhimento imediato. Afinal, cada pensamento, ato e realização humana faz parte da alma do mundo e não há separação entre nós e a obra divina. De tudo o que existe na natureza, desde o princípio está claro que nada pode ser desperdiçado, jogado fora nem tratado com irresponsabilidade. Além do amor, temos direito a apenas aquilo que precisamos para o nosso sustento.

Amar o excluído, aquele que todos odeiam por seus pecados. Amar quem não merece ser amado. Ser xingado, cuspido, espancado, torturado e crucificado e amar cada vez mais.

Bolsonaro colocou Deus abaixo das armas e da morte

“Deus é amor”, diz a Bíblia Sagrada. Está escrito na Primeira Carta de João, capítulo 4, versículo 8. O nome desse mesmo Deus foi usado em slogans que ajudaram a eleger o presidente Jair Bolsonaro em 2018. Frases até hoje repetidas nos corredores dos palácios em Brasília e no dia a dia do Governo Federal. Acontece que não há amor nesse governo. Ele se empenhou para que o número de licenças para uso de armas crescesse 325% em três anos, ação diretamente ligada ao aumento da violência no país, segundo especialistas (G1). Ele também incentivou o crescimento de 150% na destruição de terras indígenas, política que mata a população originária do Brasil, de crianças a idosos. Isso não é amor. E se não há amor, não há Deus.

Um homem que ensina uma criança a usar os dedos para fazer um gesto ameaçador, de uma arma na mão, está mais perto da morte do que da graça. A lição foi tão bem instruída que outras crianças repetem o gesto espontaneamente diante da presença de Jair Bolsonaro na rua, em convenções, em qualquer lugar do Brasil. Como matar é a única função das armas, armas que ocupam lugar de destaque nas decisões presidenciais, não matar é outro mandamento bíblico desprezado com prazer por Bolsonaro e seus apoiadores.

Se Deus estivesse acima de todos, inclusive pastores que abrem faculdades e empresas com propina para facilitar a liberação de recursos do Ministério da Educação, por amor práticas de defesa da vida seriam implementadas desde o princípio da pandemia. Não apenas incentivo a medidas científicas de combate à doença, mas o devido respeito à ciência e à saúde pública desde a comunicação presidencial. Pelo contrário, institutos de desenvolvimento de vacinas foram perseguidos pelo Governo Federal e seus funcionários foram ameaçados. A vida do brasileiro foi tratada como objeto descartável, ao ponto de ocuparmos a 13ª posição do ranking mundial de mortes proporcionais, por milhão de habitantes. Sem compaixão, não houve união nacional estratégica em benefício da população.

Se Deus fosse colocado antes da pátria e da família, o número de mortes por conflitos no campo não teria explodido ano passado (Correio Braziliense). Nunca grileiros, madeireiros e garimpeiros se sentiram tão à vontade para matar famílias de camponeses, quilombolas e indígenas. Não há segredo, prova a lista de prioridades de Jair Bolsonaro no Congresso, de que o presidente e seus fiéis preferem a exploração indiscriminada mediante destruição rápida da natureza, morra quem morrer. O nome de Deus deveria ser removido dos slogans presidenciais e separado de tanto mal.

Perdão, povo Yanomami

Há momentos de desespero extremo em que nada importa nem pode amenizar a dor, muito menos um simples pedido de perdão, como agora. Mas quando não há possibilidade nenhuma de ser ouvido, porque as vítimas estão cobertas de sofrimento, ele se faz mais urgente e necessário ao pecador. Perdão, povo Yanomami!

Dragar duas crianças da comunidade Macuxi Yano brincando na margem do Rio Parima, cuspi-las para o meio do rio e deixar que fossem levadas pela correnteza indica que a crueldade que cometemos há séculos, sabidamente sem limites, renova suas tecnologias e ferramentas. Tinham apenas 5 e 7 anos de idade. E antes de serem sugadas pela draga do garimpo ilegal no dia 12 de outubro, tiveram malária, doença que também usamos como maneira de extermínio.

Pelo ouro e pelo dinheiro, tradicionalmente contaminamos rios e pessoas com mercúrio, derrubamos a floresta, matamos os animais e destruímos o sustento do povo. Armas de fogo e facões são amplamente utilizados contra os corpos indígenas. Só que nenhum dos mais de quatro milhões de indivíduos exterminados desde o início da invasão do Brasil, como Darcy Ribeiro estimou em “O povo brasileiro”, havia sido morto por uma draga. Coube às crianças do povo Yanomami servir de cobaia desta nova forma de execução.

É impossível que criminosos tão sádicos, que sentem tanto prazer no mal, sejam desobrigados da culpa. O sofrimento que causamos são absolutamente propositais. Pedir perdão pode ser visto como uma audácia, até mesmo ofensa, pela cultura dos brancos. Que é a cultura da violência extrema. Para um povo que enxerga a natureza como “uma entidade viva, inserida numa complexa dinâmica cosmológica de intercâmbios entre humanos e não-humanos” (ISA), espero que possa existir uma interpretação diferente para o pedido de perdão não merecido. A própria indiferença seria compreensível e suficiente.

Muitos de nós gostariam de viver em um país em que não colaboram com o preconceito racial, com a opressão e assassinato dos povos originários. No entanto, todos os dias trocamos a esperança pela covardia. Nossa falta de caráter permite que a exploração ilegal e prejudicial das milenares terras indígenas assuma os postos mais altos do poder político pregando a mentira de que há apenas um Brasil. Na verdade, só no Brasil indígena temos 305 etnias falando ao menos 274 línguas (BBC Brasil). Majoritária no país é a sede de sangue, que só poderá ser combatida se aprendermos noções de dignidade e amor com os antepassados que já ocupavam esta terra antes da chegada de outros povos.