Mousonaro e Bolrão não se entendem sobre o Brasil

Mousonaro e Bolrão nunca se entendem

Sentados frente a frente à mesa da Sala dos Oficiais no Quartel-General do Exército, Mousonaro e Bolrão ficaram em silêncio por alguns instantes, remexendo papéis, antes de iniciar a conversa. Estavam em questão as propostas para mostrar ao Brasil o caminho do desenvolvimento social.

– Bolrão, não aguento mais viver com medo da violência. É tiroteio todo dia, assalto, assassinato, estupro. Não sei aonde vamos parar.

– É o que sempre digo, amigo. O cidadão de bem precisa ter garantido o direito de atirar e matar pra se defender. Que morra o marginal, antes de mim e da minha família.

– Talvez fosse melhor, mais civilizado, se ninguém morresse.

– O povo não acredita mais nisso não. Antes se falava em justiça social, saúde e educação. Nosso eleitor está ansioso pela limpa, ele quer o massacre, a chacina, tem que correr sangue. Vamos prometer qualquer coisa, inclusive o que não podemos cumprir. O porte de armas, a pena de morte, a tortura física e psicológica nas cadeias.

– Não consigo entender por que armar a população ao invés de apreender as armas nas mãos dos bandidos. Além do mais, o Estado tem obrigações. Pela segurança da sociedade, ele deve submeter o criminoso à ressocialização. Ladrão que sofre tortura na cadeia vai achar que está num país sem Lei, sem Justiça, que vive num reality show onde tudo é permitido.

– Mousonaro, seu problema é pensar demais. Política no momento é diferente. A gente tá surfando nessa onda que a imprensa, que gosta de classificar tudo, chama de ascensão da extrema-direita. Pode chamar do que quiser, a realidade exige medidas extremas. Quem gera violência merece violência, ainda que isso resulte em mais violência.

– Uma candidatura como essa agride a natureza brasileira. Herdamos a amabilidade tradicional indígena, aspecto reconhecido por qualquer estrangeiro. A doçura da cultura africana transformou entre nós a dureza da Língua Portuguesa e nosso jeito de gesticular. Podemos propor um Brasil diferente valorizando essa herança.

– Andou conversando com a Janaína? Que absurdo é esse? O que você chama de amabilidade indígena é pura indolência. Onde você vê doçura, não passa de malandragem. O brasileiro é escorregadio, gosta de faltar ao trabalho.

– Pega mal dizer isso.

– Só se eu dissesse em evento público ou entrevista, aqui estamos só nós dois. Eu sou indígena, eu sei. Índio quer ser integrado à sociedade.

– O Darcy Ribeiro dizia que o índio é irredutível na sua identificação étnica.

– Meu Deus, Mousonaro, quem foi Darcy Ribeiro? Devemos seguir o exemplo do Costa e Silva, abandonar os livros e ficar apenas com as palavras cruzadas. Disciplinas humanas, livros, estatística, tudo coisa da Esquerda. Eu desconfio de qualquer estudo científico. Quer entender o Brasil? Vamos às palavras cruzadas do Presidente Costa e Silva.

– Melhor não falarmos sobre a Ditadura, a gente precisa se entender, as Eleições estão aí.

– Ditadura nada, foi o auge da Democracia.

O Rio estava mais seguro antes da intervenção

O Rio estava mais seguro antes da intervenção

Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, defende que a intervenção no Rio de Janeiro “se impôs como necessidade” diante da expansão do crime organizado na política, na polícia e nas esferas de poder do Estado. Cinco meses após o início da operação, o Rio se encontra ainda mais violento, vulnerável, e a razão impõe outra necessidade: substituir a estupidez da intervenção militar por estratégias de inteligência, desenvolvimento social e cidadania.

Uma análise dos cinco meses de exceção na segurança pública do Rio, realizada pela Comissão Popular da Verdade, pelo Observatório da Intervenção e outras organizações, aponta que foram registradas 28 chacinas entre fevereiro e junho. Aumento de 80% no índice de matança de três pessoas ou mais em comparação ao registrado no mesmo período do ano passado. Os tiroteios aumentaram 60%, segundo dados do aplicativo Fogo Cruzado, e os casos de morte violenta tiveram crescimento de 5% na comparação com 2017 (Jornal do Brasil).

Não é novidade que o emprego das Forças Armadas contra a violência urbana não estabelece paz alguma. Por um pouco de alívio na consciência das autoridades federais e pelo fetiche que o povo fluminense sente por tanques de guerra nas ruas, a intervenção continua da forma como foi concebida e a criminalidade cresce diante dos olhos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

A própria intervenção militar é uma violência contra crianças que têm a mochila escolar revistada por homens armados e contra o morador da favela que precisa provar sua inocência na rua sempre que cruza com um soldado. Não se pode admitir jamais que inocentes sofram em nome de um bem geral maior.

Na cidade de São Gonçalo o mal causado pelas Forças Armadas foi além. Militares atiraram mais de 30 vezes contra o carro do pescador Juan Pedro Ribeiro de Souza e três disparos o acertaram. Sua mulher e seu filho, de apenas 2 anos, foram feridos por estilhaços. O Comando Militar do Leste alegou legítima defesa diante da movimentação de Juan, que havia parado o veículo para esvaziar um bebedouro de passarinho. Os tiros só pararam quando o choro da criança foi ouvido.

A instituição que atira é a mesma que deveria investigar, apurar e esclarecer casos como o de Juan, segundo as diretrizes determinadas pelo Interventor Federal, general Walter Braga Netto. Não é essa cegueira que a Constituição prevê. A intervenção poderia te sido restrita à administração pública, corrupta e incompetente, e o interventor poderia ser um civil especializado em segurança, ao invés de um militar cujo maior treinamento é matar.

A bandidagem corre solta e refaz as barricadas logo depois que a favela é desocupada pelo tal do Comando Conjunto das forças policiais e a população pobre sofre sozinha. A opressão militar contra o favelado é o holocausto fluminense, o sacrifício dos moradores do Rio de Janeiro em troca da ilusão de que estão em busca de paz.

Devemos mais aos índios do que pensamos

Por que devemos respeitar os índios

Há cinco dias centenas de brasileiros ridicularizam as imagens do único sobrevivente da tribo Tanaru publicadas pela Fundação Nacional do Índio no YouTube. Sua tribo inteira foi assassinada por fazendeiros e ele vive isolado. Os comentários questionam a autenticidade do vídeo ou defendem que o espaço onde o índio habita é muito grande para ele. O último Tanaru teve a tribo dizimada e também deveria ser confinado em um espaço menor. Esses brasileiros não compreenderam que devemos nossa maternidade aos índios e deles herdamos hábitos que carregamos até hoje.

Havia muitos povos tribais, mas apenas uma raça no início da colonização do território pelos poucos homens portugueses que aqui chegaram. A partir do escasso sangue europeu e da fartura do ventre indígena nossa rica miscigenação nasceu.

Os indígenas tinham o costume de incorporar estranhos à sua comunidade, prática chamada de cunhadismo. O povoador europeu, náufrago ou degredado de qualquer nacionalidade, podia assumir moças índias como esposas. Alguns tinham dezenas. O moreno claro na pele dos brasileiros e a maior parte dos “brancos” do país, brancos apenas aos nossos olhos, são resultado dessa mistura.

O brasileiro, que não existia no início do século 16, se consolidou com o passar do tempo. O filho de pais indígenas, criado junto da tribo, continuou sendo índio, tão irredutível na sua identificação étnica quanto o cigano e o judeu. Como atualmente existem duas raças, tanto o brasileiro como o índio, é comum o engano de esquecer a origem brasileira e o crime de não valorizar os povos originários como merecem.

Dormir na rede, acordar, tomar banho, pentear os cabelos e comer mandioca no café da manhã. Com exceção da necessidade biológica de dormir, todos os outros hábitos foram transmitidos pelos índios. No passado os europeus tomavam no máximo dois banhos por ano, quando havia recomendação médica.

Para vergonha do Brasil, os índios sofrem uma realidade ainda mais cruel do que o restante da população. Eles testemunham e enfrentam ataques constantes do Estado, de agricultores e gananciosos em geral contra sua cultura e seu habitat. Situação que leva a doenças como depressão, esquizofrenia e à uma taxa de suicídio três vezes maior do que a média nacional, atingindo principalmente jovens de 10 a 19 anos.

A questão pode se tornar ainda mais desesperadora visto que está em ascensão no Brasil um movimento político de extrema direita que nega abertamente aos índios seu direito natural mais básico, a terra. Isso depois de sofrerem uma tentativa de extermínio que durou séculos e reduziu a população indígena de 5 milhões de indivíduos para menos de 1 milhão (Darcy Ribeiro, O povo brasileiro).

Geralmente avesso à formalidade, criativo e próximo da indisciplina, enquanto o povo brasileiro não reconhecer sua origem primária indígena e não perceber a influência dela sobre aspectos do seu comportamento, seremos um povo incompleto, preconceituoso e racista. Nas Américas já existe uma sociedade economicamente desenvolvida, mas doente, porque não respeita a diversidade. Temos a chance de ser um exemplo de humanidade no continente para o mundo, começando pelos comentários que publicamos na Internet.