Cenas da juventude negra perdida na Barra da Tijuca

Cenas da juventude negra perdida na Barra da Tijuca

A Barra da Tijuca, bairro da cidade do Rio de Janeiro, conta com um dos maiores índices de desenvolvimento humano do Estado. Privilégio dos ricos, sem dúvida. A juventude negra vende balas e doces dentro dos ônibus, faz malabarismos nos sinais de trânsito em troca de esmola e organiza arrastões nas calçadas.

Ontem, sexta-feira, peguei o BRT na estação Via Parque com destino à estação Jardim Oceânico. Antes do ônibus partir, eu e os demais passageiros assistimos da janela, chocados, cinco jovens espancando um rapaz e uma garota na calçada do outro lado da Avenida Ayrton Senna. Cinco jovens negros e pardos (negros, de acordo com o IBGE) de chinelo, sem camisa, contra dois jovens brancos bem vestidos. Para ajudar os assaltantes – é isso mesmo que você leu – mais dois moleques desembarcaram do BRT e atravessaram a rua correndo.

O rapaz e a moça, recém saídos da adolescência, se defenderam com bravura dando socos, chutes e se movimentando como lutadores profissionais. O bolso da calça do rapaz foi rasgado até o joelho. Depois de bater no casal, o grupo de assaltantes fugiu a pé.

Nas estações seguintes entraram no BRT três jovens negros vendendo amendoim. O peso das sacolas que carregavam inclinava o corpo deles. Cada um improvisou um discurso educado, usando pronomes de tratamento respeitoso, e elogiou o próprio produto falando uma espécie estranha e engraçada de português culto não acadêmico, nascido nas ruas. Nenhum passageiro comprou.

Nos sinais de trânsito da Barra da Tijuca cenas piores podem ser vistas. Jovens negros, suados sob o sol forte, correm descalços no asfalto quente, no meio dos carros, e penduram sacos de balas nos retrovisores. Contei mais de dez fazendo isso até o fim da minha viagem. Antes que o sinal abra e os carros partam, eles voltam recolhendo os saquinhos. Não vi nenhum motorista descer o vidro da janela para comprar.

Tragédia maior acontece no mesmo lugar: crianças negras pintam o rosto, como fazem os palhaços, e passam o dia fazendo malabarismos para alegrar a elite e ganhar uns trocados, tentar sobreviver. Sempre sem camisa, pintam uns desenhos na barriga também. São nossos filhos humilhados e massacrados pela pobreza, não os filhos dos outros. São as crianças do Brasil.

É importante dizer a cor da pele porque querem esconder a injustiça sofrida por negros e índios ao longo da história desse país racista e hipócrita. Não é vitimismo lembrar dos ataques sofridos e brigar por um futuro melhor. É puro heroísmo.

Os assaltantes devem ser presos, mas o assalto foi um crime menor do que o abandono social de uma raça. O desafio das classes média e alta é defender os direitos de jovens que roubam e espancam nas ruas. Por enquanto a violência e os discursos de ódio alimentam um ao outro, cresce a vontade de reduzir a maioridade penal, de amarrar nos postes e linchar. Desse círculo vicioso culminou a intervenção militar.

Jovens que abandonam a escola têm semelhante origem social, renda familiar e condições de habitação. As estatísticas afirmam. Se houvesse desenvolvimento igualitário, mais tempo a juventude passaria estudando, em vez de perder a vida nas ruas.

Um Rio de sangue cada vez mais profundo

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Davidson estava na varanda de casa, segurando o filho de 10 meses no colo, quando foi baleado ontem, na Rocinha. O impacto do projétil derrubou o bebê no chão e ele bateu a cabeça. Pai e filho receberam socorro na mesma Unidade de Pronto Atendimento. Davidson morreu. Ainda não há informações sobre o estado de saúde da criança. Continue lendo “Um Rio de sangue cada vez mais profundo”

Intervenção militar reforça o ódio do rico contra o pobre

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Quem mora no Estado do Rio de Janeiro sabe que o topo da pirâmide social habita os apartamentos de luxo na zonal sul da Capital e os condomínios da Barra da Tijuca, bairro nobre. Ricos que não se importam com as causas da crise na segurança pública, querem proteção ainda que os direitos de pobres inocentes sejam violados. Continue lendo “Intervenção militar reforça o ódio do rico contra o pobre”