Ouvir as mães que choram

Ouvir as mães que choram

Quando cria sua primeira consciência social, geralmente durante a adolescência, o brasileiro se pergunta como transformar o Brasil em um país sem pobreza, que respeite seu povo e cuide do meio ambiente. As mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia ou pelo tráfico conhecem bem a resposta: defendendo a vida humana a qualquer custo.

Miria Antunes chora a morte do filho Victor desde o fim do mês de maio, durante ação da Polícia Militar no bairro Jardim Bom Retiro, em São Gonçalo (RJ). Ela precisou ir aos jornais dizer que o filho não era bandido e trabalhava em uma lanchonete de uma cidade vizinha porque, hoje em dia, primeiro se destrói a vida e depois a reputação do pobre. Defender a memória dos filhos mortos e lutar por Justiça é tudo que resta às mães.

O Brasil do fim do primeiro semestre de 2019 é um país de perdas tristes, que atingem principalmente famílias espremidas entre as armas, as drogas e o esgoto, como a família de Victor. Elas são as primeiras vítimas das homenagens frequentes à morte feitas pelo time alinhado ao Partido Social Liberal porque vivem sob mira constante.

Além dos pronunciamentos saudosistas sobre a ditadura militar, que cobrem o território nacional com a sombra da violência daquele período de exceção, o governo de Jair Bolsonaro destrói, um após o outro, os instrumentos de combate à tortura e promoção da dignidade. É oficial, está no Diário da União, e foi denunciado à Organização das Nações Unidas por ativistas da entidade Justiça Global. O Presidente da República, em pessoa, ainda defende e apoia a indústria de armamentos e a circulação de mais armas na rotina da nossa sociedade.

A combinação entre pobreza e desprezo pela vida, pregado das janelas do Palácio do Planalto, não vai permitir que o Brasil encontre seu rumo no cenário mundial. Bolsonaro é tão incapaz de viabilizar o crescimento nacional, respeitando o povo e as riquezas naturais do país, que também tem atacado e reduzido órgãos de defesa do meio ambiente e permitido o uso desenfreado de agrotóxicos pela agricultura.

Abandonando princípios básicos da Constituição cidadã, o atual presidente comparou sua popularidade a do general Médici, cuja gestão foi responsável por 50% das mortes na ditadura. O Brasil é guiado por Bolsonaro à pior das pobrezas, a pobreza de espírito. Ela corrompe a alma de um povo que já traz as finanças corrompidas pelo desemprego e pela má formação educacional. Mais ninguém acredita em um considerável avanço econômico ainda nesse governo, seja porque percebe a ausência de uma agenda positiva ou porque culpa a imprensa e a oposição pelas mazelas do país e os desenhos da Disney pela homossexualidade humana.

O mais significativo indicador social do Brasil é a quantidade de mães que choram após cada decisão ignorante e preconceituosa do governo Bolsonaro. A tendência é o país se transformar em um gigante armado, que cospe tiros contra a juventude negra – segmento que mais sofre com a violência – e compartilha pornografia carnavalesca nas redes sociais. Não se discute mais o direito à uma existência digna, voltamos a pedir permissão para viver.

Há inocentes na favela

Há inocentes na favela

A comunidade ouviu tiros disparados por armas pesadas. Muitos tiros, parecia guerra. Depois, gritos de desespero. Mulheres imploravam por socorro, homens mandavam agir rápido, uma voz isolada pedia calma. Na esquina da entrada principal da favela, Paulinho, 11 anos de idade, caído sobre uma poça de sangue no chão, com a bicicleta ainda no meio das pernas. Alguns metros a frente, do outro lado da rua, Rômulo, mototaxista, morto com um tiro na cabeça. Tinha 25 anos e era pai de um bebê de 6 meses.

Os moradores se revoltaram: juntaram pneus, móveis, um sofá e colocaram fogo para bloquear a rua. Uma adolescente pegou duas folhas de papel em casa, colou as folhas, escreveu “PAZ” e se juntou à multidão. Policiais se aproximaram, mas não interferiram. A imprensa chegou. A primeira foto do protesto compartilhada nas redes sociais tinha uma legenda onde se lia “Bandido defendendo bandido!”. Quem compartilhou não leu a matéria (a violência em curso é o auge de um projeto político e social criminoso que contamina). O corpo de Rômulo ainda estava no chão, coberto por um plástico preto. Paulinho tinha sido levado ao hospital em estado grave, com um projétil na coluna.

Questionada pela imprensa, a Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro declarou que agentes faziam patrulhamento na localidade quando foram atacados por criminosos e houve confronto. Os suspeitos conseguiram fugir, mas foram apreendidos três pistolas nove milímetros e seiscentos e quarenta papelotes de maconha. Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

A mãe do menino está em estado de choque, não fala, as lágrimas secaram. Por causa da tristeza, ela não consegue voltar para casa, todas as noites dormia abraçada ao filho. Eram quatro horas da tarde quando ele pediu para andar de bicicleta, a comunidade parecia tranquila. Embora o controle do Rio de Janeiro esteja nas mãos de bandidos ou psicopatas, do Palácio Guanabara às mais capengas bocas de fumo, e o pobre não tenha para onde ir, ele guarda a fé de que o pior não vai lhe atingir. Apesar de Rômulo e Paulinho terem muito em comum – a cor da pele, a renda familiar, o bairro de origem – com as vítimas dos frequentes assassinatos no Rio de Janeiro. É humano ter esperança.

A tia de Paulinho também deu entrevista e disse ao repórter que não houve confronto. Na opinião da senhora, policiais desconfiaram do mototaxista que passava em alta velocidade e começaram a atirar. “É assim que eles agem aqui, sem respeito pelo morador”, acusou. Os gritos de socorro que a comunidade ouviu eram delas, da mãe e da tia.

Menos de 24 horas depois, a morte cerebral de Paulinho foi confirmada. Os órgãos dele serão doados porque, mais uma vez, é humano ter esperança. Só não é humano admitir que o Estado siga matando, sem parar, criança e trabalhador. Ou pensar que a morte de negros e pobres faz parte da solução que o Rio de Janeiro pode implementar contra a violência.

Inimigo da Educação

Cada centavo bem investido em educação é uma conquista de 210 milhões de brasileiros. Cada centavo cortado arbitrariamente é um ataque contra o futuro do país, que depende de educação ampla e de qualidade para promover desenvolvimento econômico e social.

Atingindo desde a educação infantil à pós-graduação, o governo Bolsonaro iniciou o bloqueio de R$ 7,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, alegando necessidade de se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal e sobreviver à interminável crise econômica. Embora a lei e a crise existam, a justificativa não é legítima. O governo não planejou os cortes, para melhor adaptação das instituições, nem dialogou com as mesmas. Tampouco o bloqueio seria inevitável, de acordo com 257 deputados federais que assinaram projeto de lei complementar que proíbe o corte de verbas em universidades. A redução orçamentária forçada prova que, do Palácio do Planalto à Esplanada dos Ministérios, a maior pretensão educacional é tão pequena quanto ensinar “para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta”, palavras de Jair Bolsonaro no Twitter a respeito da função do governo.

O valor do conhecimento humano não é bem compreendido pelo time bolsonarista, composto principalmente por militares e radicais ideológicos, classes avessas ao pensamento e à contradição. Portanto, as diversas faces da Educação responsáveis por transmitir conhecimento, entre elas a área de Humanas, não recebem o incentivo merecido do Governo Federal. Desvalorizando de propósito, ele se posiciona como inimigo.

O distanciamento entre o governo Bolsonaro e o projeto de educação que o Brasil aguarda ansioso vem do desprezo pelas raízes e valores nacionais mais íntimos. Bloqueando recursos, sofre em primeiro lugar o pobre, que mais precisa deles. Tantas vezes vilipendiados pelo presidente ao longo de sua carreira política, são atingidos também negros e índios, de uma só vez, com a redução da educação de um povo basicamente formado por essas raças e ainda bastante carente em relação ao estudo da sua origem e capacidade.

Não se retira mais da metade do orçamento livre de um polo de ensino, de um dia para o outro, sem um projeto maligno por trás dessa atitude. Não em um país que arrasta crimes sociais ao longo dos séculos e investe tão pouco por aluno em comparação com países desenvolvidos. A Universidade Federal do Sul da Bahia, por exemplo, perdeu 54% dos seus recursos discricionários. A do Mato Grosso do Sul perdeu 52%.

Professores e alunos estão chocados, preocupados, tristes. Não porque ficaram sem as orgias semanais, isso é estupidez e preconceito. Graças ao bloqueio, muitos já perderam o sonho de contribuir para um Brasil melhor através da pesquisa. Os movimentos negro e indígena também estão mobilizados contra o posicionamento governamental em relação às suas causas porque conhecem na pele os antigos sofrimentos de cada grupo.

O que o governo Bolsonaro pratica não é política educacional, não é evolução. Desconstruindo desde o legado do Patrono da Educação ao sacrifício dos estudantes universitários de maneira descontrolada, ideológica e irracional, vemos a completa “desumanização, o não reconhecimento do outro”. Conceito mais preciso de fascismo na opinião de Leonardo Boff, que o atribui a Jessé Souza.