Há inocentes na favela

Há inocentes na favela

A comunidade ouviu tiros disparados por armas pesadas. Muitos tiros, parecia guerra. Depois, gritos de desespero. Mulheres imploravam por socorro, homens mandavam agir rápido, uma voz isolada pedia calma. Na esquina da entrada principal da favela, Paulinho, 11 anos de idade, caído sobre uma poça de sangue no chão, com a bicicleta ainda no meio das pernas. Alguns metros a frente, do outro lado da rua, Rômulo, mototaxista, morto com um tiro na cabeça. Tinha 25 anos e era pai de um bebê de 6 meses.

Os moradores se revoltaram: juntaram pneus, móveis, um sofá e colocaram fogo para bloquear a rua. Uma adolescente pegou duas folhas de papel em casa, colou as folhas, escreveu “PAZ” e se juntou à multidão. Policiais se aproximaram, mas não interferiram. A imprensa chegou. A primeira foto do protesto compartilhada nas redes sociais tinha uma legenda onde se lia “Bandido defendendo bandido!”. Quem compartilhou não leu a matéria (a violência em curso é o auge de um projeto político e social criminoso que contamina). O corpo de Rômulo ainda estava no chão, coberto por um plástico preto. Paulinho tinha sido levado ao hospital em estado grave, com um projétil na coluna.

Questionada pela imprensa, a Polícia Militar do Estado Rio de Janeiro declarou que agentes faziam patrulhamento na localidade quando foram atacados por criminosos e houve confronto. Os suspeitos conseguiram fugir, mas foram apreendidos três pistolas nove milímetros e seiscentos e quarenta papelotes de maconha. Os bandidos fugiram abandonando as próprias armas, comportamento que frequentemente aparece na versão oficial da polícia. Apenas Paulinho e Rômulo foram atingidos.

A mãe do menino está em estado de choque, não fala, as lágrimas secaram. Por causa da tristeza, ela não consegue voltar para casa, todas as noites dormia abraçada ao filho. Eram quatro horas da tarde quando ele pediu para andar de bicicleta, a comunidade parecia tranquila. Embora o controle do Rio de Janeiro esteja nas mãos de bandidos ou psicopatas, do Palácio Guanabara às mais capengas bocas de fumo, e o pobre não tenha para onde ir, ele guarda a fé de que o pior não vai lhe atingir. Apesar de Rômulo e Paulinho terem muito em comum – a cor da pele, a renda familiar, o bairro de origem – com as vítimas dos frequentes assassinatos no Rio de Janeiro. É humano ter esperança.

A tia de Paulinho também deu entrevista e disse ao repórter que não houve confronto. Na opinião da senhora, policiais desconfiaram do mototaxista que passava em alta velocidade e começaram a atirar. “É assim que eles agem aqui, sem respeito pelo morador”, acusou. Os gritos de socorro que a comunidade ouviu eram delas, da mãe e da tia.

Menos de 24 horas depois, a morte cerebral de Paulinho foi confirmada. Os órgãos dele serão doados porque, mais uma vez, é humano ter esperança. Só não é humano admitir que o Estado siga matando, sem parar, criança e trabalhador. Ou pensar que a morte de negros e pobres faz parte da solução que o Rio de Janeiro pode implementar contra a violência.

Inimigo da Educação

Cada centavo bem investido em educação é uma conquista de 210 milhões de brasileiros. Cada centavo cortado arbitrariamente é um ataque contra o futuro do país, que depende de educação ampla e de qualidade para promover desenvolvimento econômico e social.

Atingindo desde a educação infantil à pós-graduação, o governo Bolsonaro iniciou o bloqueio de R$ 7,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, alegando necessidade de se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal e sobreviver à interminável crise econômica. Embora a lei e a crise existam, a justificativa não é legítima. O governo não planejou os cortes, para melhor adaptação das instituições, nem dialogou com as mesmas. Tampouco o bloqueio seria inevitável, de acordo com 257 deputados federais que assinaram projeto de lei complementar que proíbe o corte de verbas em universidades. A redução orçamentária forçada prova que, do Palácio do Planalto à Esplanada dos Ministérios, a maior pretensão educacional é tão pequena quanto ensinar “para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta”, palavras de Jair Bolsonaro no Twitter a respeito da função do governo.

O valor do conhecimento humano não é bem compreendido pelo time bolsonarista, composto principalmente por militares e radicais ideológicos, classes avessas ao pensamento e à contradição. Portanto, as diversas faces da Educação responsáveis por transmitir conhecimento, entre elas a área de Humanas, não recebem o incentivo merecido do Governo Federal. Desvalorizando de propósito, ele se posiciona como inimigo.

O distanciamento entre o governo Bolsonaro e o projeto de educação que o Brasil aguarda ansioso vem do desprezo pelas raízes e valores nacionais mais íntimos. Bloqueando recursos, sofre em primeiro lugar o pobre, que mais precisa deles. Tantas vezes vilipendiados pelo presidente ao longo de sua carreira política, são atingidos também negros e índios, de uma só vez, com a redução da educação de um povo basicamente formado por essas raças e ainda bastante carente em relação ao estudo da sua origem e capacidade.

Não se retira mais da metade do orçamento livre de um polo de ensino, de um dia para o outro, sem um projeto maligno por trás dessa atitude. Não em um país que arrasta crimes sociais ao longo dos séculos e investe tão pouco por aluno em comparação com países desenvolvidos. A Universidade Federal do Sul da Bahia, por exemplo, perdeu 54% dos seus recursos discricionários. A do Mato Grosso do Sul perdeu 52%.

Professores e alunos estão chocados, preocupados, tristes. Não porque ficaram sem as orgias semanais, isso é estupidez e preconceito. Graças ao bloqueio, muitos já perderam o sonho de contribuir para um Brasil melhor através da pesquisa. Os movimentos negro e indígena também estão mobilizados contra o posicionamento governamental em relação às suas causas porque conhecem na pele os antigos sofrimentos de cada grupo.

O que o governo Bolsonaro pratica não é política educacional, não é evolução. Desconstruindo desde o legado do Patrono da Educação ao sacrifício dos estudantes universitários de maneira descontrolada, ideológica e irracional, vemos a completa “desumanização, o não reconhecimento do outro”. Conceito mais preciso de fascismo na opinião de Leonardo Boff, que o atribui a Jessé Souza.

O Brasil não dorme tranquilo

O Brasil não dorme tranquilo

Acordei no meio da noite, sonhando com Darcy Ribeiro. No sonho, eu perguntava como despertar no brasileiro o orgulho de carregar sangue indígena nas veias. Para que cada indivíduo, orgulhoso, contribua com a preservação da vida dos primeiros povos e do meio ambiente, fundamental em tempos de aquecimento global. Darcy apenas sorria para mim, quase com deboche, insinuando que adoraria conhecer a resposta para a questão. Depois do sonho, tremi e senti calafrios por duas horas, não consegui mais dormir. Então percebi que não estava acordado sozinho. O Brasil também não dorme direito.

As crianças do Norte do país, de claros traços indígenas na aparência física, são diariamente vendidas como escravas sexuais em troca de um pacote de biscoito, a bordo das embarcações que cortam os rios da região. Nenhum país é capaz de deitar a cabeça sobre o travesseiro e dormir tranquilamente diante desse mal.

Os jovens negros vivem amontoados nas favelas, sem educação de qualidade, sem opções de lazer e cultura, apanhando de bandidos, servindo ao comércio de drogas e morrendo nas mãos de traficantes, milicianos e policiais. O mesmo sangue, indígena e negro, massacrado pela escravidão iniciada há cinco séculos atrás. Para provarmos que não saímos impunes dessa vergonha e ela nos acompanha até a cama, na maior parte do Brasil basta sair de casa e iniciar uma caminhada curta. Entre as consequências dos crimes do passado e da atualidade, indigentes morando nas ruas, moleques vendendo balas nos sinais de trânsito e assassinatos à luz do dia, inclusive cometidos pelas forças de segurança do Estado. O país sente o incômodo, mas viramos o corpo e tentamos dormir do outro lado.

O Brasil não dome tranquilo porque sabe que há um trabalho enorme a ser feito, aguardando nossa coragem. A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República foi menos uma resposta à corrupção e à insatisfação política do que um ato de covardia. De puro medo. Não de que o Brasil virasse uma Venezuela. Medo do Brasil ser o grande país que o mundo já antecipa e admira, porque esse destino exige sacrifícios.

Se o eleitor tivesse esclarecimento e força, jamais cometeria suicídio nas urnas. Para honrar a combinação especial de sangue europeu, indígena e africano, encontrada em nenhuma outra parte do mundo, o brasileiro só pode exigir a paz. Só ela está à nossa altura. Não estamos destinados a ser um povo que ensina gestos de violência a crianças. Que acha que violência contra violência é o único caminho. É conversa para beneficiar fabricantes de armas, que lucram através do ódio. É papo de terrorista covarde, que passa a noite acordado planejando seu próximo ataque contra inocentes.

Tão audacioso quanto a criatividade brasileira é acabar com a violência através do desenvolvimento social, tirando as armas das mãos dos criminosos antes que cheguem a eles. Mas as ferramentas de promoção da dignidade humana, entre elas as pastas da Educação e dos Direitos Humanos, estão sob o controle de seres bestiais, cada um com a sua cadeira alta nos ministérios, onde discutem se as crianças violentadas sobre os rios e dormindo ao relento na rua devem usar rosa ou azul.