A classe média não compreende o desespero do pobre

A classe média não deseja a ascensão do pobre

Na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, crianças pobres que fazem malabarismo e vendem doces nos sinais de trânsito pintaram o rosto e estão usando o gorro do Papai Noel na cabeça. Tudo pra chamar a atenção de quem tem grana. Os motoristas se irritam com a presença delas. Reclamam que prejudicam o trânsito. Fecham os vidros do carro. Dizem que não passam de pivetes. Não compreendem a humilhação que elas sofrem pra ter o que comer.

Há algumas semanas, no mesmo bairro, alguns limpadores de para-brisas, moleques descalços, sem camisa e magros de fome, impediram o roubo de um veículo. Os moradores da Barra comemoraram. “O Brasil está melhorando”, publicaram nas redes sociais. “Ainda existe honestidade”. O amor pelo dinheiro cega as pessoas.

O Brasil estaria melhorando, amigos, se não houvesse adolescentes limpando para-brisas nem crianças vendendo doces nos sinais de trânsito. Meu filho de seis anos percebe, mas as classes mais favorecidas da sociedade brasileira, aquelas que tomam decisões que influenciam a vida de todos, não compreendem o desespero do pobre.

Acreditava que a pobreza que vemos nas ruas fosse resultado de um passado colonial perverso. Não. As escolhas políticas do presente mantêm as desigualdades. Escolhas feitas no dia a dia de cada indivíduo, não só em Brasília. Com tristeza reconheço que muitos brasileiros não se importam com nada além de si mesmos e adoram ser servidos pelo pobre.

Motorista, garçom, porteiro ou faxineiro. Alguém pra ser recebido com desprezo, que abra a porta do carro, estacione, traga a refeição e limpe o banheiro (sem o direito de usá-lo). A classe média ainda impõe que funcionários do departamento de serviços gerais de um prédio utilizem o elevador de serviço. Ela odeia o Bolsa Família, programa assistencial de reconhecimento internacional. E chama de organizações criminosas movimentos de extrema importância para a justiça social do País, como o MST.

A existência de pobres é uma anomalia inaceitável em qualquer país do mundo. De acordo com um estudo do IBGE divulgado dia 15/12 (Veja), o Brasil tem 52 milhões deles. Quantidade deplorável e vergonhosa, uma multidão de gente sem acesso aos direitos humanos mais básicos. Pessoas que sobrevivem com R$ 387 por mês. Elas pegam do chão e levam para os filhos em casa os restos das feiras livres. Deixam de comprar remédio pra comprar arroz ou feijão. Praticamente não ingerem carne, eventualmente uma salsicha. Suportam goteiras do teto quando chove. A solução proposta pelos hipócritas é fazer crescer o bolo da riqueza para reparti-lo depois. Bolo que vem sendo comido por poucos há séculos em um país violento que pratica uma concentração de renda imoral.

As condições para uma vida igualitária e digna nunca existiram no Brasil. Os barracos de madeira se alastram e se aproximam dos condomínios de luxo. As casas sem reboco dominam os morros. Os viadutos viraram abrigo. A opressão contra o negro permanece.

Não há sinais de revolta social além daquelas registradas na História, embora as provas de segregação tenham aumentado. Na Linha Amarela, via que dá acesso à Barra da Tijuca, painéis laterais estampam meninos e meninas se divertindo jogando bola, morros cariocas coloridos, a própria favela pintada em traços finos pra esconder de quem passa de carro a favela real do outro lado, de traços grossos, incompreendida.

Apesar dos seus crimes, Temer não é odiado como Dilma e Lula

Apesar dos seus crimes, Temer não é odiado como Dilma e Lula

O atual presidente do Brasil é um político corrupto que despreza e ataca as maiores riquezas nacionais, da Amazônia ao índio, passando pelo trabalhador assalariado. Contra Temer os conservadores, liberais e descompromissados com o fim da pobreza devem se unir, mas Dilma e Lula ocupam espaço demais na cabeça deles.

Em duas peças que somam centenas de páginas, Michel Temer foi acusado pela Procuradoria Geral da República pelos crimes de obstrução de Justiça, corrupção passiva e organização criminosa. Especialistas jurídicos incluem na conta os crimes de prevaricação e corrupção ativa. Temer representando a Nação é uma ofensa a respeito da qual não podemos nos calar.

Gravado rifando o País, o presidente saiu vitorioso de três processos de impeachment – pois conspirou e lucrou com o afastamento de Dilma – e consegue a proeza de não ser odiado. O silêncio vem da compra do Congresso, do empresariado e de quem prefere enriquecer em vez de distribuir riqueza, usando na barganha a reforma trabalhista, isenções de impostos, extinção de reservas naturais, incentivo à escravidão e emendas parlamentares.

Fora do chão de fábrica das grandes empresas, longe dos profissionais de nível operacional, ninguém odeia Michel. A perda de direitos trabalhistas agrada patrões, gerentes e puxa-sacos ambiciosos. Em uma conversa qualquer, quando alguém cita o presidente, o assunto logo se esgota.

– O presidente Temer foi acusado de corrupção pela Procuradoria Geral da República, algo inédito na nossa História, com provas cabais, e ficou no poder.

– Mas Dilma quebrou a economia do País, ela é a culpada por todos os nossos problemas. Dilma e o Nove Dedos, ladrão safado.

Parece conversa de bêbado. Faltam preocupação e cuidado com o Brasil de hoje. A resposta vem carregada de ódio e manipulação contra um partido político a fim de tirá-lo do jogo. O interesse até de quem nunca votou em Lula e Dilma segue preso a eles.

Dilma manteve sua conta no Twitter com a descrição “Presidenta eleita do Brasil”. Será que isso incomoda seus adversários, ou o Partido dos Trabalhadores ter governado democraticamente durante 13 anos?

81% dos brasileiros desejavam que Temer fosse investigado e julgado (Datafolha), mas não houve mobilização popular suficiente nessa direção. O ódio de parte do povo permaneceu contra os petistas. O mito que pinta a Esquerda com cores macabras, inclusive de que ela comia crianças, guarda seus efeitos. Influenciadores da opinião pública, os jornais dão a devida atenção a Temer, embora a maioria das grandes revistas, conservadoras, mire as eleições de 2018.

Para prejudicar o Brasil através de decretos e medidas provisórias e continuar se safando, Temer aplica na política a mesma experiência subversiva que um chefão do tráfico de drogas usa no relacionamento sujo com a Polícia e com a Justiça.

O momento político reúne um presidente corrupto, um Congresso de poucas iniciativas em defesa do bem-estar dos eleitores e muitos brasileiros distribuindo ódio contra quem não exerce nenhum cargo no Executivo ou no Legislativo. Assim disputamos o Poder.

Chacina no Salgueiro humilhou os gonçalenses

Chacina no Salgueiro humilhou os gonçalenses

Sete pessoas foram mortas na favela do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), durante uma operação clandestina do Exército e da Polícia Civil dia 11 de novembro. Mortes que nenhuma das instituições reconheceu até hoje, algo inédito no Rio de Janeiro, como afirmou o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj (UOL). Mortes que formam, portanto, uma chacina cruel e vergonhosa contra a segunda maior população do Estado.

Como se a vida dos gonçalenses não valesse nada, soldados do Exército e agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil se esconderam à noite na mata, encapuzados, para cometer os assassinatos no horário de um baile funk na comunidade. Bandido ou não, nenhum gonçalense ou cidadão brasileiro pode ser ferido ou morto e empilhado no Instituto Médico Legal sem explicações, por isso o Ministério Público abriu uma investigação criminal.

Um jovem de 19 anos, padeiro, é um dos quatro sobreviventes. Em entrevista exclusiva ao Jornal Extra, ele contou que depois de ser baleado nas duas mãos, os atiradores saíram do matagal tiraram uma foto sua e roubaram o seu celular. Nenhum agente socorreu o jovem nem seu amigo, que viajava na garupa da moto e foi atingido na boca, e eles sangraram no local por 3 horas. Esse é o valor que o Exército e a Core atribuem aos gonçalenses.

Ainda mais grave é a chacina contar com a aprovação de muitos moradores da cidade, gente que pode estar entre os mortos e feridos na próxima operação ilegal e defende que bandido bom é bandido morto. Sinal de pouca fé em si mesmo, quando mais do que nunca, diante da violência generalizada, precisamos ser exigentes.

Mesmo se todos os mortos e feridos fossem bandidos, uma sociedade sadia, onde os índices de criminalidade são reduzidos, não é aquela em que o crime se desenvolve e depois extermina os criminosos. Em uma sociedade digna as condições para a prática criminosa são reduzidas pelo esforço comum da Justiça, do desenvolvimento social e da eficiência policial, que compõem a segurança pública.

A vida humana merece respeito profundo e veneração absoluta, seja no Salgueiro ou na Suécia. São Gonçalo não ficou mais segura depois da chacina do dia 11, ficou mais violenta. Informações enviadas pelos leitores do jornal O São Gonçalo indicam que 33% dos bairros do município têm ruas interditadas por barricadas feitas por traficantes de drogas. Barricadas que aprisionam cerca de 400 mil gonçalenses, humilhados por criminosos dentro e fora das forças do Estado.