Para cada crime, uma tragédia

Os Bombeiros do Rio de Janeiro continuam encontrando corpos nos escombros dos prédios ilegais que caíram na comunidade da Muzema, zona oeste da capital. O número de mortos chegou a 20. Antes de morrer, cada uma das vítimas foi extorquida por bandidos, bem como as famílias sobreviventes do condomínio Figueiras do Itanhangá. O valor da vida do cidadão fluminense pode ser encontrado no bolso dos milicianos ou na quantidade de fuzis que eles escondem em casa. Os crimes que atingem o Rio são muitos e as tragédias resultantes não param de se multiplicar.

Na segunda metade do século passado, a primeira propina por segurança foi cobrada e a primeira criança pobre e negra foi morta por bala perdida na sangrenta e ineficiente guerra contra o tráfico de drogas. Deve ter havido comoção. O fato é que tragédias semelhantes se tornaram rotina. Hoje a milícia destrói o meio ambiente para construir prédios e vender apartamentos, exercendo controle absoluto sobre mecanismos do sistema econômico. Balas atingem crianças dentro de casa e da escola. E a faixa que Wilson Witzel mandou fazer para receber o cargo de governador tem menor influência sobre a vida dos moradores do Estado do que o poder das armas das facções e milícias.

Manda no Rio quem tem armamento pesado escondido em condomínio de luxo, quem tem fuzil guardado em barracos na favela. Junto com o poder público, inerte, o povo assistiu o pedreiro Amarildo ser levado por policiais e nunca mais voltar. Viu Marielle Franco e Anderson Gomes sendo executados, e com eles a democracia e o que existe de mais nobre na representação política atual. Inclusive associações de moradores são tomadas à força e transformadas em bases de apoio para a ação criminosa.

Cada vez mais atingido, o morador do Rio de Janeiro sabe que não pode contar com ninguém. O próprio Estado é agressor. O Exército, que deveria defender, fuzilou Evaldo com 80 tiros, ao lado da família, em plena luz do dia. Luciano Macedo, o catador de lixo baleado ao tentar ajudar Evaldo, também morreu. Racista, a polícia militar mata adolescentes uniformizados, como Marcos Vinicius, de 14 anos, na Maré. Não há condições para que estudantes construam um futuro melhor. Frequentemente eles param de estudar no meio das aulas e se jogam no chão para não serem baleados.

A eleição de Wilson Witzel não foi nada além de uma tentativa desesperada de matar primeiro aquilo nos mata diariamente, atirando para qualquer lado. Não foi um ato racional, que tenha considerado a identidade do miliciano e do traficante, mas um espasmo que vai continuar matando inocentes no meio do caos.

Os ricos esperam que os últimos resquícios de ordem sejam reservados a eles, as estatísticas estão a seu favor. Por garantia, preferem não caminhar ao ar livre, usam transporte próprio ou por aplicativo até em pequenos deslocamentos.

O Rio é um grande ato de violência e corrupção, crimes que geram tragédias que se repetem com uma frequência assustadora. Com pelo menos trezentos currais eleitorais explorados pelo crime organizado, aqui o poder soberano do voto e sua romântica capacidade de mudança perdem rapidamente seu significado.

O Estado mata, debocha e mente

Poucos lugares do mundo experimentam tanto desprezo pela vida humana como o Estado do Rio de Janeiro. Pessoas e instituições que deveriam proteger a população e garantir seus direitos fuzilam inocentes à luz do dia e abandonam cidadãos à própria sorte, vivendo sem condições mínimas de segurança e dignidade.

No dia 5 de abril, sexta-feira, homens do Exército atiraram contra dois jovens em uma moto que teria furado uma blitz na Vila Militar, zona oeste da capital. Christian, de apenas 19 anos, não resistiu e morreu. O piloto da moto, menor de idade, ficou ferido. Ambos estavam desarmados. Dois dias depois, um domingo, soldados atiraram oitenta vezes contra um carro com uma família a bordo, inclusive uma criança de 7 anos, matando o pai dela e ferindo duas pessoas. No dia seguinte, cidadãos fluminenses morreram afogados e soterrados por causa de um fenômeno conhecido como descaso público, evidenciado quando chove. Não precisa chover tão forte para assisti-lo. Bem, não precisa nem chover.

Diante dos pedidos de socorro dos ocupantes do veículo atacado pelas forças oficiais de segurança, cuja função constitucional é a defesa da pátria, os militares nada fizeram para socorrer as vítimas, “ficaram de deboche”, de acordo com Luciana Nogueira. Luciana estava no veículo e era esposa de Evaldo Rosa dos Santos, morto com as armas compradas com os impostos pagos pelo brasileiro.

O Exército não atirou nos jovens e na família porque confundiu inocentes com criminosos. Quando vidas são perdidas, a questão não pode ser esgotada de maneira tão simples. O Exército atira porque age de acordo com o pouco valor e respeito que o Estado Brasileiro atribui ao povo. Ódio que começa contra criminosos, inclui negros e pobres e pode atingir qualquer pessoa.

Quando abriram fogo para matar, antes de qualquer abordagem inteligente, mesmo sem terem sido ameaçados, os soldados assumiram o risco de atingir crianças, o futuro do país, mas tentaram esconder o crime do conhecimento público. A primeira versão oficial disse que os militares responderam a uma agressão de bandidos. Em muitos casos, mentiras como essa prevalecem. No caso da família fuzilada, a injustiça é óbvia demais e os envolvidos foram presos. Presos pela Justiça Militar, a investigação será realizada pelo próprio Exército. Outro deboche contra a família da vítima.

Durante entrevista no bairro Jardim Maravilha, completamente alagado pela chuva, o prefeito do Rio de Janeiro também debochou. Crivella não quis explicar por que não decretou estado de emergência nas primeiras horas de crise. Disse que a explicação não ajudaria a resolver “bulufas”. Tragédias são recorrentes no Rio. Se a gestão pública não der explicações sobre suas ações, novas tragédias não serão evitadas. Aliás, trechos da ciclovia Tim Maia, que Crivella afirmou que jamais cairia novamente, caíram pela quarta vez. Também deboche do bispo.

Embora o Ministro da Justiça tenha declarado que episódios em que o Exército mata jovens e pais de família podem acontecer, o Rio de Janeiro tem saída: respeitar a vida humana desde o nascimento, sem exceção. Investir em educação e cidadania. E recusar que um Estado falido e despreparado atire para matar quando quiser.

Witzel vestiu a faixa da morte

Teve início a temporada oficial de caça aos bandidos no Rio de Janeiro. Ilegal, mas inaugurada pelo governador. Wilson Witzel revelou que atiradores de elite já agem no Estado, de forma secreta, prontos para estourar os miolos de quem estiver portando fuzil. Inclusive se não houver ameaça iminente à vida de alguém. A ordem é matar, a origem e o destino das armas são temas secundários, não rendem votos.

Incentivar o extermínio não deveria ser o papel do governador de um Estado sob calamidade financeira, onde o desemprego é maior do que a média nacional e 83% dos jovens infratores da capital abandonaram a escola. Witzel vestiu a faixa da morte quando tomou posse, ao invés da faixa da Educação e do desenvolvimento econômico e social. Cabe ao governador exibi-la de peito aberto, com a transparência que sentenciar um ser humano à morte exige.

Que o corpo de cada pessoa, marginal ou cidadão segurando guarda-chuva, seja resgatado pelo policial mais corajoso do BOPE, com quem Witzel foi até o chão fazendo flexões de braço. Que as roupas ensanguentadas do morto sejam rasgadas, amarradas e colocadas sobre os ombros largos do governador.

Como quem puxa o gatilho é o atirador de elite, Witzel deve participar da barbárie mais de perto. Ele carregaria o sangue do morador de São Gonçalo e de Duque de Caxias, da Vila Kennedy e da Cidade de Deus aos compromissos oficiais dentro e fora do Palácio Guanabara. Sangue dos jovens que apanharam da polícia, que nunca acredita na honestidade do negro favelado. Sangue dos jovens aliciados pelo tráfico, que se apresenta como único caminho para conseguir dinheiro e respeito.

Depois de um dia cansativo, sem tirar as faixas que conquistou, rígidas pelo sangue coagulado, o governador se sentaria à mesa para jantar com a família. Quem mata não sente nojo, não faz cara feia. Afinal, Witzel já provou o tamanho da sua frieza durante a campanha eleitoral, ao defender as execuções em entrevistas para canais de televisão, em horário nobre, e jornais do país inteiro.

Além das vítimas do tráfico de drogas, dois milhões de pessoas vivem em áreas sob influência de milicianos no Rio de Janeiro. Bandidos que guardam centenas de fuzis em condomínios de luxo, dignos de um Presidente da República, e aterrorizam a Baixada Fluminese, a Região Metropolitana e comunidades da capital. No governo Witzel existe estratégia para matar e desrespeitar a lei, mas nenhum planejamento eficiente contra a tristeza de ser expulso de casa, de ser obrigado a pagar pela própria segurança – responsabilidade do Estado – e contratar serviços de internet e tv por assinatura controlados pela milícia.

A promessa de matar mirando na “cabecinha” elegeu Witzel e ela jamais o perturbou. O governador continua capaz de exibir para as câmeras um sorriso puro e infantil, quase angelical, mesmo derramando sangue. Transformando o número de execuções e faixas no principal indicador de qualidade do governo, ao final do mandato veremos que tipo de pessoa Witzel se tornou e se alguém suportará o incômodo de ficar ao seu lado.