São Gonçalo vende paçoca no sinal da Chico Mendes

São Gonçalo chega de manhã, perto de 8 horas, encosta um carrinho de bebê desbotado embaixo da marquise de um bar abandonado na Praça Chico Mendes e pendura os saquinhos de plástico fino, enrolados com duas paçocas no dia anterior, sobre os retrovisores dos veículos que param no sinal de trânsito da praça.

No carrinho o dia começa com impaciência. São Gonçalo balança braços e pernas com velocidade, chupa o polegar da mão direita, chora, olha prum lado e pro outro com olhar de espanto, de quem quer ir embora dali imediatamente, coça a cabeça e assiste uma cena terrível sem poder fazer nada. Ainda imatura e precisando de cuidados, São Gonçalo vê sua mãe e seu pai andando sem parar, sempre o mesmo trecho de aproximadamente cinquenta metros, colocando um saquinho de paçoca em cada carro parado, estendendo a mão para entregá-lo quando o vidro da janela se abre, recebendo algo de volta, e milhares de vezes a mesma sequência que de tão chata logo desperta a fome.

De pé, São Gonçalo não pensa muito na tristeza da vida. Se pensar, sua filha no carrinho pode perceber a fraqueza e exigir sua presença com um choro mais forte. São Gonçalo tenta agir mecanicamente, o mais rápido possível. Quanto mais carros alcançar, maiores são as chances de vender uma paçoca. Já sabe quanto tempo leva para o semáforo abrir, São Gonçalo só não se preocupa com expressar esse conhecimento em números. O importante é que sua mulher, aguardando lá no início da fila de veículos, recolha os saquinhos com precisão quando os carros avançarem para que o produto não caia no chão e amasse. Com a ajuda dela, São Gonçalo reconhece que trabalha melhor porque não precisa voltar correndo. Por isso admite as cantadas dos motoristas safados para sua esposa, tão jovem que parece adolescente. Alguns aceleram pra fazer o saquinho de paçocas cair e a mulher abaixar pra pegar. Outros acariciam ou seguram na mão dela quando entregam o dinheiro da paçoca, que custa só 1 real.

Quando decidiu ajudar o marido, São Gonçalo se sentia suja depois que um homem oferecia mais dinheiro por sexo. Com o tempo, aprendeu que a maldade dos motoristas não faz parte dela. Existem também aqueles que entregam uma moeda sempre que param no semáforo, por gentileza, sem levar a paçoca e sem toque algum no corpo dela. São Gonçalo já foi chamada de vagabunda, roubada por motoristas que não pagaram e desprezada por vidros fechados, mas nunca se sentiu humilhada. A filha está lá, presa no carrinho, e precisa desse esforço.

Se conseguir o suficiente para comer, São Gonçalo se reúne embaixo da marquise e divide aquilo que for possível comprar. É o único momento do dia em que São Gonçalo está no mesmo espaço e troca algumas palavras curtas, secas, a atenção no movimento do trânsito nunca é perdida. De repente a cidade se levanta do tijolo onde estava sentada e recomeça a pendurar os saquinhos de paçoca.

Proibido roubo na Câmara e na Prefeitura de São Gonçalo

Atenção! Nós mandamos em São Gonçalo inteira agora. Quem roubar na Prefeitura ou na Câmara Municipal será cobrado. Passou da hora de dar um fim na safadeza a céu aberto, o povo ter dignidade e a cidade crescer.

Acabou essa história de vereador montar empresa pra prestar serviço pra Prefeitura. Vereador tem que fiscalizar o trabalho do Executivo e legislar pra melhorar a vida da população. Vai roubar no inferno. Não tá satisfeito com 15 mil por mês, estude nanotecnologia no MIT e monte uma startup no Vale do Silício. O espertalhão não terminou nem o Ensino Fundamental e quer enriquecer arrancando o último centavo do cidadão gonçalense.

Prefeito que desviar dinheiro vai ter que varrer a sujeira do Calçadão de Alcântara com a língua depois das compras de Natal. Pode até esconder a grana na churrasqueira da mamãe em Maricá, a gente te acha. Vai voltar caminhando pra São Gonçalo, carregando tudo o que roubou nas costas e segurando uma placa no alto da cabeça escrito “Prejudiquei o povo gonçalense”. Andando ao seu lado estarão os puxa-sacos do secretariado que sabiam do esquema de corrupção e não denunciaram, cantando e sacudindo bandeiras com seu nome e sua foto, como se fosse campanha eleitoral.

Investigaremos todos os cargos comissionados. Quem não estiver trabalhando de verdade terá uma chance só pra devolver o que roubou. Nossa intenção aqui não é espalhar o terror. Mas se não devolver, bum! Mergulhará no Rio Alcântara para limpá-lo com as próprias mãos, calçando chinelos. Aquele gigantesco pneu de trator embaixo da tubulação em pórtico da CEDAE está incomodando faz tempo. O pessoal inútil se vestirá de azul e branco, as cores da bandeira municipal. O povo assistirá do alto do Pátio Alcântara, cujo endereço oficial ainda é Praça Carlos Gianelli, praça prostituída por uma criminosa maníaca que consegue ser simpática e esperta. O Rio Alcântara vai ficar lindo, a cada minuto mais limpo com o avanço do mutirão de parasitas, e tão colorido quanto a Rua Feliciano Sodré durante a comemoração do aniversário de emancipação política da cidade.

Chega de contrato sem licitação quando não há emergência nenhuma. Sua falta de vergonha na cara é o que faz uma cidade tão grande, dentro de uma região metropolitana, ter tantas oportunidades quanto o município mais isolado do sertão brasileiro. São vocês que nos obrigam a agir com firmeza. Está proibido o roubo, entendeu? E ninguém mais vai gastar dinheiro público como se estivesse escolhendo biscoito recheado no supermercado. Vai ser a nossa justiça mesmo, não estamos com paciência pra esperar a divina. Que a paz reine em São Gonçalo.

Ass. MLJ.

Futebol e churrasco mantêm São Gonçalo de pé

Imagine morar em uma rua sem asfalto, onde o esgoto vaza há anos. Ouvir tiros toda hora. Mover duas barricadas pra entrar e sair de casa de carro. Enfrentar engarrafamentos diariamente no 484 ou no 532 pra chegar ao local de trabalho quase duas horas depois. Sem trem, metrô, barca, nem ciclovia, na volta pra casa o mesmo sofrimento. O que você faria nos domingos de folga? A maioria dos homens gonçalenses encontra os amigos pra jogar bola, bater papo, comer churrasco e tomar cerveja. Hábito que ocupa posição tão especial que influencia também a vida de mulheres e homens que não participam dele.

Os problemas de São Gonçalo afetam o território inteiro de maneira uniforme. Formas de diversão populares em outros municípios, a praia e o samba entram na rotina apenas de gonçalenses de raras localidades. Resta o futebol, quase sempre combinado com o bar. Geralmente o evento é mensal ou quinzenal, nos grupos maiores, mais ativos e animados. Os integrantes marcam a data, o local e a forma de contribuição pelo WhatsApp. É na ferramenta que a personalidade e a própria existência do grupo se manifesta primeiro. Grupo sem WhatsApp não existe.

Na data do jogo, os participantes se encontram antes das 9h. Enquanto aguardam os atrasados, partilham um café da manhã improvisado na padaria mais próxima. Nesse primeiro ponto de encontro, que pode não ser o local do jogo, as brincadeiras começam devagar. A cara de sono, a roupa amarrotada ou o erro de gramática cometido no WhatsApp no dia anterior são motivos de zoação. Logo o volume aumenta e é gente falando pra todo lado, mas o clima é de amizade antiga e profunda. Grupo de futebol gonçalense não é bagunça nem desorganização, a admissão leva em consideração se o cara “é gente boa ou não é”.

A divisão dos times é um dos momentos mais engraçados do evento, a essa altura o riso está rolando solto. Ninguém quer jogar no mesmo time que os pernas de pau. Nem assumir que não tem habilidade nenhuma com a bola. Então os jogadores sem talento são distribuídos igualmente entre os times, depois de muita discussão. A carne do churrasco aguarda o fim da partida. A cerveja e o refrigerante das crianças ficam no gelo ou no freezer. Estão espalhados por São Gonçalo campos de grama sintética alugados por hora com boa infraestrutura: banheiro, chuveiro, churrasqueira e sinuca.

Durante o jogo, alguém de fora do grupo pode se assustar com os desentendimentos com o juiz. Às vezes parece que a violência vai começar, os dois times se encaram gritando e gesticulando como doidos. Até que surge um sorriso no canto da boca do jogador que demonstrava ser o mais raivoso. O desentendimento era real, o rancor era totalmente falso, teatral.

No futebol e no churrasco o gonçalense simula a felicidade. E se preocupa com o bem-estar do restante da cidade. Organiza rifas comunitárias, arrecada cestas básicas para famílias com dificuldades financeiras e provê aconselhamento gratuito aos membros do grupo com problemas pessoais. Não por acaso, candidatos a cargos políticos tentam se aproximar e patrocinar os eventos. Através do futebol e do churrasco São Gonçalo é discutida por si mesma, por quem realmente padece com tanto descaso, e a esperança é construída pela confraternização.