Humilhações que entraram no cotidiano gonçalense

Humilhações que entraram no cotidiano gonçalense

Em tempos de alterações drásticas na nossa rotina por causa da pandemia de coronavírus, mudanças anteriores, causadas pelo domínio do tráfico de drogas sobre diversas regiões de São Gonçalo, foram absorvidas há tempos pelo cotidiano popular e são tratadas pelas autoridades como algo consumado e irreversível.

Apesar das recomendações de isolamento domiciliar, milhares de gonçalenses precisam sair todas as manhãs para trabalhar. Muitos usam o próprio veículo como meio de transporte ou como ferramenta, no caso dos motoristas por aplicativo. No retorno para casa à noite, cansado da jornada de trabalho, o motorista é obrigado a apertar o botão do alerta, baixar o farol e ligar a luz interna do veículo quando se aproxima da região onde mora, às vezes há décadas. Caso se esqueça desse procedimento, corre o risco de um bandido surgir de repente na escuridão e apontar uma arma pra sua cabeça e quem mais estiver dentro do carro, família, mulheres e crianças.

Nas localidades em que existem barricadas móveis, feitas com uma geladeira velha, um sofá ou barras de ferro, a humilhação continua. Na rua de casa, o motorista para o veículo (mantendo o alerta ligado), desce do carro, caminha até a barricada, remove a barra de ferro do meio e a coloca gentilmente de lado, no chão. Caminha de volta para o veículo, avança com ele alguns metros, para, desce do carro de novo, caminha até a barra de ferro no chão, pega a barra, coloca no lugar, volta para o veículo e só então pode dirigir até o portão de casa. Se demorar muito para cumprir esses passos, deixando o trânsito livre, recebe reclamação do dono do morro. Tem sempre alguém vigiando.

O homem ou mulher que arrasta a geladeira para um lado e para o outro todos os dias, na ida e na volta do trabalho, sabe que não merece essa humilhação. O gari, que remove e recoloca a barra de ferro para que o caminhão de lixo entre e saia da rua, também sabe que já sofre humilhações demais. Muitos nem luvas usam para trabalhar. O cidadão que remove e recoloca a barra de ferro para receber mesas e cadeiras que alugou para o aniversário do filho também sabe que tem o direito constitucional de ser protegido.

Os adolescentes flanelinhas que trabalham no estacionamento ao lado da Favela da Central, vigiando os carros da Oi, empresa que funciona em frente ao estacionamento, sabem que não merecem a humilhação de passar o dia no sol, sem estudar e sem perspectivas de futuro, catando no chão as moedas jogadas pelos técnicos de instalação da Oi. Não há ação para salvá-los.

Cada chacina é uma humilhação generalizada porque prova que ninguém, principalmente o Estado, respeita o gonçalense. As crianças não merecem o nível de violência que a cidade atingiu e que policiais e bandidos de arma em punho cruzem o seu caminho enquanto brincam, atirando em tudo o que se move.

O pequeno comerciante, endividado, não merece a humilhação de ter que pagar propina para o tráfico e para a fiscalização a fim de manter seu negócio funcionando. A mulher não merece ter que colocar dinheiro no sutiã pra não ser assaltada no caminho até o mercado. Ou ser assediada no ônibus por homens que pensam que têm algum direito sobre seu corpos. São Gonçalo está entre as cidades com mais casos de violência contra a mulher no Rio de Janeiro.

Helicópteros voando baixo no início da manhã, assustando, ao invés de interromper o fluxo de armas e drogas, ao invés de promover desenvolvimento social, é humilhação do povo. Pisoteamento. Resultado de discurso genocida e de ausência de estratégia para a segurança pública.

Coronavírus desmoraliza ainda mais o Governo Nanci

Uma pandemia ataca o mundo e São Gonçalo não está livre dela. O povo da cidade está amedrontado, nervoso e doente, da mente e do corpo, ansioso por ações de defesa do governo municipal contra o novo coronavírus. E embora exista algum esforço do Poder Executivo em agir com os recursos disponíveis, diante das pessoas o que se destaca é a gagueira do prefeito, incapaz de esconder a incompetência do governo.

O “canal direto de esclarecimentos e informações” através do WhatsApp (21) 96597-5309, criado pela Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde, leva dias para responder aos pedidos de informação e quando responde usa palavras evasivas, jogando a responsabilidade do problema para a própria Secretaria Municipal de Saúde.

O comércio em Alcântara, maior polo comercial da cidade, continua funcionando quase a todo vapor, embora o governo municipal tenha determinado a suspensão das operações. Não há punição real a quem desobedece a um governo desmoralizado.

O Governo Nanci atingiu um nível de desorganização e loucura inacreditável por causa do coronavírus. Moradores cobrando explicações nas redes sociais do governo são sumariamente bloqueados. Ninguém acredita na capacidade do governo municipal, prefeito e secretários, de auxiliar a população a superar os meses de desenvolvimento do COVID-19 e de isolamento social.

Aproveitando a descrença popular, a quantidade de notícias falsas circulando na Internet é assustadora. Tem foto de Nanci bebendo cerveja em um bar vazio, enquanto administra à distância, por telefone, o gabinete de crise. De homens construindo covas nos cemitérios porque o número de mortos está prestes a explodir. E um decreto do prefeito ameaçando aposentados que forem pegos na rua com o corte de suas aposentadorias.

O desgaste da imagem do prefeito cresceu tanto com a ascensão do novo coronavírus, a níveis nunca vistos em mais de três anos de gestão, que foi criada uma página dentro do site da Prefeitura para divulgar as informações oficiais sobre a crise através de um boletim. Por iniciativa própria, o governo se comprometeu a atualizar a página todos os dias, às 9h. Eis que no terceiro dia de boletim a página só foi atualizada à tarde. No quarto dia atrasou também. Hoje é o quinto dia após a promessa do governo, são 14h, e o boletim sobre o impacto do coronavírus na cidade ainda não foi atualizado. Quebrando suas promessas, o próprio Nanci se torna um facilitador da proliferação de mensagens falsas que destroem sua imagem política.

Um dos principais questionamentos da população é que São Gonçalo, cidade de mais de um milhão de habitantes, não apresentou nenhum caso confirmado da COVID-19. Há 219 casos suspeitos e esse número vem aumentando desde o dia 17/03, quando havia 75 casos. Tudo indica, inclusive o posicionamento oficial, que São Gonçalo não tem condições de realizar sequer um teste da COVID-19. Os casos suspeitos são descartados através de testes para outras doenças. Aquilo que deveria ser uma boa notícia, a ausência de casos confirmados, por falta de confiança no governo na boca do povo se torna uma piada.

Morador de uma cidade suja e violenta, sem transporte eficiente e com poucas opções de lazer, é no mínimo cruel que o gonçalense seja desrespeitado e maltratado até diante de uma pandemia.

Hábitos gonçalenses que sobreviverão ao coronavírus

Hábitos gonçalenses que sobreviverão ao coronavírus

Na quarta-feira, 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que a rápida expansão do novo coronavírus pelo mundo se caracteriza como uma pandemia. No mesmo dia do anúncio da OMS, encontrei um vizinho na rua, apertamos as mãos, trocamos tapinhas nas costas (percebi um caroço do tamanho de uma bola de pingue-pongue por baixo da camisa dele) e começamos a conversar a uma distância de, no máximo, dois palmos. Erramos, eu e ele, talvez tentando poupar um ao outro de constrangimentos.

Tem gente que gosta de conversar bem perto e você precisa dar um passo para trás para conseguir se movimentar. É hora de agirmos de forma diferente de como estamos acostumados. Trocar qualquer contato físico ao cumprimentar por um aceno, respeitando um espaço de segurança, é uma das medidas básicas para evitar o contágio e a disseminação da doença. Quando o coronavírus enfraquecer no Brasil (e isso pode levar alguns meses), a gente retoma os antigos hábitos.

Ricardo, meu vizinho, vinha da padaria enquanto eu ia comprar pão. Sentidos opostos, portanto. Já no meio do caminho, ele deu meia-volta e foi comigo à padaria para continuarmos o papo. O pão demorou a sair. A padaria era pequena e mais pessoas foram chegando e se espremendo. No meio do estabelecimento, eu e Ricardo conversando, com o povo ao redor, respirando fundo, com raiva da demora do pão. Ninguém parecia preocupado com a troca de saliva em público e com o perigo de alguém ali estar contaminado.

A conversa com Ricardo foi de manhã. No início da tarde, deixei meu filho na escola e voltei caminhando pra casa. No Raul Veiga, um carro parou ao meu lado e o motorista começou a gritar. Meu coração deu um pulo e disparou, pensei que seria assaltado. Era um amigo, com o corpo esticado dentro do carro, por cima do banco do carona, estendendo a mão para eu apertar. Achei aquilo exagerado, ele tinha parado o carro no meio da rua, um acidente podia acontecer a qualquer momento. Fingi que não tinha visto a mão dele, dei o meu melhor sorriso e continuei andando, sem parar para cumprimentá-lo.

Para ser honesto, não foi por causa do coronavírus que evitei o aperto de mão, foi para não interromper o trânsito. Mas é o momento de o gonçalense suspender o hábito de parar o carro na rua para cumprimentar os amigos. Se não for em respeito às leis de trânsito, que seja para não ficar doente. Melhor agora, com a situação sob controle, do que por desespero, como nas cidades italianas, onde o número de mortos é de quase dois mil.

Seguindo ordens superiores, em São Gonçalo as instituições adaptaram seu comportamento à ameaça da Covid-19, doença respiratória causada pelo vírus, mais rápido do que as pessoas comuns. Grandes eventos religiosos foram suspensos, bem como as aulas presenciais, inclusive em projetos sociais independentes. Já o povo continua aguardando em grupo o pão sair do forno, os homens conversam nas esquinas e bebem nos bares, as crianças ainda brincam na rua e dividem o mesmo copo para beber água nesses dias de calor.