Conversa entre asmáticos

– Se eu fosse curado da asma agora, meu amigo Amaro, aos 35 anos de idade, não me reconheceria mais. Ela me acompanha a vida inteira. Faz de mim alguém especial, mais forte do que a população não asmática, mais próximo da morte e consequentemente do valor da vida. Morrendo de outra coisa qualquer, de preferência na terceira idade, bem velhinho – pois a asma mata sete brasileiros por dia, matou inclusive um jovem tio meu – posso sustentá-la como amante perigosa prejudicial à minha saúde física e mental. Minha esposa está na cama, roncando pra caramba, e eu aqui no sofá conversado com você por telefone com a asma deitada no meu peito, tirando meu fôlego, me dando um cansaço pesado e me obrigando a gemer. A danada adora vir de madrugada. No meio do nosso encontro dá uma fraqueza estranha, misturada com uma fome profunda, as pernas amolecem, provavelmente por causa do esforço de puxar, puxar e puxar e não entrar ar nenhum pelo nariz nem pela boca. Cedo ou tarde ataco a geladeira. Quando fico mais de um mês sem entrar em crise, perco o contato com minha própria essência, que também é a origem do Universo. O Big Bang foi provocado por uma gigantesca crise de asma do Cosmos que não suportou a falta de ar nos seus pulmões cheios do muco grudento da vida e explodiu como um espirro para todos os lados. As maiores revoluções tiveram asmáticos entre seus líderes, como Che Guevara na Cubana. Um estudo indicaria que os seis milhões de asmáticos brasileiros, como nós, são as pessoas mais interessantes do país para bater um papo. Sobreviver a uma doença incurável que impede a entrada de oxigênio no organismo não é pra qualquer um, a falta de ar desenvolve ideais humanistas altíssimos e rende bastante assunto. Penso até em montar um pequeno negócio onde o cliente poderá simular uma crise enfiando na cabeça um capuz de plástico com apenas um pequeno furo de agulha na frente pra respirar. Se houvesse mais asmáticos, talvez o Brasil fosse mais desenvolvido. O asmático acha que pode fazer o que quiser, afinal, nada mais desafiador do que ter a capacidade respiratória reduzida e ouvir dentro do peito o som do chiado mortal, que até parece um palhaço sombrio, debochado, fazendo “ssshhhh” com o dedo indicador na ponta dos lábios e mandando o doente calar a boca e se entregar. Mil demônios, na verdade o chiado da asma tem o som de mil demônios agonizando no Inferno. Graças a ela consigo ficar por um minuto e quarenta segundos embaixo d’dágua sem nenhum treinamento de apneia. Alguns buscam emoção escalando o Everest, mergulham ao lado de tubarões ou saltam de paraquedas, mas sentir dor ao respirar e achar que a próxima inspiração será definitivamente insuficiente é o esporte mais emocionante que existe.

– Também tenho asma desde a infância, caro Job, já fui internado várias vezes para nebulização com aquele medicamento tão viciante quanto a adrenalina, o tal do Berotec. Meu apelido na escola era Vick Vaporub. Eu passava o dedo na latinha e enfiava um quilo daquele troço fedorento em cada narina e ainda assim o ar não passava. Ter asma é horrível. Não posso concordar com esse amor desvairado pela doença. Você é louco.

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