Disputa entre abutres

Domingo (17/04) a Câmara dos Deputados admitiu a continuidade do processo que julga a presidente Dilma Rousseff por crimes de responsabilidade fiscal. A excitação exagerada dos parlamentares que votaram “Sim” na tribuna denuncia, entretanto, que se esqueceram de avaliar com prudência se houve dolo ou não nos atos da Presidente. Os abutres da Câmara, que se alimentam da desigualdade e do caos social, farejaram principalmente a carne moribunda do Brasil, vítima de um governo politicamente deteriorado e de uma economia quebrada.

Era a vontade de muitos brasileiros nas ruas a continuidade do processo, tantos quanto aqueles que são contra o impedimento de Dilma. Retrato de um país democrático, embora o mesmo equilíbrio não exista na Câmara Federal. Lá determinaram os votos as alianças políticas viciadas cheias de promessas de cargos e boquinhas orçamentárias. Parasitismo, em vez de democracia.

Dilma sofreu derrota pela grave incapacidade de oferecer prestígio e poderes a seus opositores, inclusive ex-aliados. Há relatos de cargos públicos oferecidos a mais de um deputado, segundo o jornal O Globo. A disputa pelo poder é clara, até a aparentemente frágil Marina Silva carrega ambições e cada ator político sabe o que move seu coração: ganância ou dedicação.

As finanças públicas foram tratadas irresponsavelmente pela presidente Dilma, assim os abutres ansiosos encontraram o que comer, se fartaram e jogaram a carniça aos do Senado. Espera-se mais fundamento nos votos de senadores, mas não há garantias de avanço moral na política brasileira no curto prazo. O interesse pela propina, a preocupação com a própria reputação pesarão no voto de cada um mais do que a consciência.

Se houver impeachment, pisaremos na lama, encarando Temer e Cunha (por algum tempo) até sairmos completamente do atoleiro. Mais desemprego, inflação e desespero. Teimosa, Dilma ignorou os alertas da comunidade econômica de que seguia pelo caminho errado, e hoje o Brasil é principalmente o resultado da corrupção institucionalizada e de sua incompetência. Se existiram conquistas sociais, não resistiram ao próprio governo. Dilma Rousseff diz que é vítima dos inimigos do país, talvez almeje posição entre grandes políticos perseguidos da História, mas não é digna de compaixão.

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