Renatinho tem 8 anos e mora no Fumacê, em Realengo, zona oeste do Rio. Ele brinca fazendo com as mãos montinhos de areia do chão atrás do Bloco 32, entre a quadra de futebol e uma boca de fumo. Às vezes se levanta, pega um pedaço de isopor na lixeira do prédio, passa na parede chapiscada e consegue um efeito bonito parecido com a neve. Os brinquedos da praça estão quebrados. A presença da polícia militar na favela é constante, viaturas circulam de lá pra cá com os vidros abertos, bem devagar. Traficantes, armas, relógios e cordões de ouro também são comuns. As crianças e adolescentes do Fumacê andam descalças, sem camisa, mal vestidas mas de boné na cabeça. Quando tem tiroteio, Renatinho corre pra casa. Se já estiver em casa, se esconde embaixo da mesa da cozinha até o barulho passar. Ele já viu gente morta no chão, assassinada a tiros. Músicas que incentivam a violência e o sexo tocam o dia inteiro em pontos diferentes da favela. Sua prima engravidou e fugiu com um bandido, a família continua procurando. Seu tio está preso. A mãe de Renatinho é dona de casa e o pai dele, porteiro. O nome da facção criminosa que domina o local está espalhado nas paredes da escola onde estuda. Ele está no 2º ano, atrasado, quando deveria cursar o 3º. Frequentemente sai cedo por falta de professor e quando as aulas são suspensas por falta de segurança. E volta à brincadeira dos montes de areia suja.

Renatinho é o único negro da turma do 3º ano do Colégio Qi, em Botafogo. Depois da aula a empregada o leva ao judô, duas vezes na semana, e ao curso de Inglês nos dias restantes. Sábado passado teve festinha no playground do prédio de um dos colegas de turma. O pai de Renatinho, empresário, deixou o filho no local de manhã, antes da partida de tênis, e o buscou no fim da tarde. Usando o celular, a mãe de Renatinho acompanhou o filho o tempo inteiro através das imagens transmitidas ao vivo pelas câmeras do play. Ela é consultora de marketing e estudou na mesma escola do filho. Renatinho conquistou medalha na competição de judô e pelo feito recebeu um quebra-cabeças de animais da floresta. Viajou para França, Bélgica e Holanda nas férias. Os pais pensam em mudá-lo de escola ano que vem, para uma de inspiração finlandesa onde os alunos passam mais tempo ao ar livre. Renatinho é precocemente incentivado a liderar pela programação extraclasse do Colégio Qi, na opinião dos pais. Eles ensinam filantropia ao filho desde que viram um garoto descalço e sem camisa da idade dele na rua, com o nariz enfiado dentro de um copo de plástico.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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