O coração de Job batia com tanta força que doía dentro do peito. A ansiedade fechava a garganta do homem, quase não respirava. Uma semana antes, o resultado da promoção do jornal A Esfera tinha saído. Job cadastrou um cupom só pela Internet e ganhou o prêmio “Conheça Sergio Moro, herói nacional”. Realizava um sonho.

Nervoso, suando por baixo do terno apesar do ar-condicionado do hotel curitibano, Job apertou a mão de Moro com força, olhando nos olhos do juiz. Sentiu logo um perfume delicioso. “Além de todas as coisas que fez, ele ainda usa perfume”, pensou diante do ídolo brasileiro. Moro retribuiu com um sorriso altivo, ereto e seguro, como uma simpática estátua de mármore apolínea.

Job não conteve mais a excitação e desembestou a falar, de pé ali mesmo no hall do hotel.

– Que loucura você fez com o país, rapaz. Ficou famoso, hein? Deve ser português esse perigoso culto à personalidade que praticamos. Seu rosto estava lá, estampado nos trens de Lisboa para Cascais. Seu nome não deveria ser lembrado, mas o da Justiça. Você é uma criança que se diverte como Magistrado. Fez piada durante os depoimentos de Lula, distribuiu comentários desnecessários de falsa e mesquinha afabilidade, fez piada durante o depoimento de Sergio Cabral, e a família brasileira aplaudiu durante o horário nobre da TV, sentada imóvel no sofá.

– Parecia que tinha começado bem, enchendo o povo de esperança. Ele começou a se perguntar se finalmente o Brasil combatia a corrupção política e empresarial com seriedade. Depois enlouqueceu, passou a condenar por ideologia, citando nos despachos frases filosóficas de efeito mais do que capítulos da Legislação.

– Tem bandido preso sim. Mas também tem gente condenada pelos vazamentos à imprensa antes de qualquer defesa formal. Tem gente presa sem provas porque fizeram da falta de provas um crime. Agrada a quem sempre explorou o Brasil e pensa no próprio pirão sem ligar pra farinha dos outros.

– Nós evoluímos? Nos tornamos mais humanos? Pelo contrário! Recebo todos os dias pelo WhatsApp uma foto sua com um olhar ameaçador, chega a ser demoníaco, e uma mensagem de “Bom dia”. Não faz sentido essa combinação. Parte da sociedade brasileira desenvolveu certa psicopatia tendo Sergio Moro como elemento catalisador.

– A Operação Lava Jato se tornou uma caça seletiva. Não somos corruptos como querem nos convencer. O Brasil apresenta altos índices de corrupção menos por causa do gosto popular pelo ilícito do que por um hábito sistêmico dos donos do poder que se perpetuam nele.

– Autografa esse livro aqui sobre a Lava Jato, por favor, que minha mãe implorou pra eu trazer.

Moro nem ao menos tirou o meio sorriso dos lábios. Uma repórter do jornal A Esfera acompanhava o encontro e queria levar para a redação a cena de um Brasil melhor. Ficou horrorizada.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.