Passei a noite da segunda-feira de Carnaval enjaulado na quadra da praça de Trindade. Agradeço ao desconhecido que empilhou no canto da quadra cinco ou seis caixas de som potentes para nós, gonçalenses, dançarmos ali. Presos. Ouvindo música estrangeira. Lesados pelo governo Mulim que nos roubou o dinheiro para um Carnaval municipal melhor.

A quadra apinhada de gente assustava, demorei a me acostumar à ideia. A surpreendente concentração de pessoas esticava ao máximo a grade de ferro que cerca o espaço, centenas e centenas espremiam uns aos outros e alguns milagrosamente conseguiam levantar e abaixar os braços alegres. Ignorando meus instintos de sobrevivência, sem pensar muito, entrei às cotoveladas, dando e recebendo, olhando sempre em frente e empurrando meu corpo com força em direção ao meio da multidão.

Ouvi sons de tiros, segundo susto, pensei em me abaixar mas os foliões agiam normalmente, dançavam ou simulavam a posse de uma metralhadora disparando. Fiz o mesmo, dei falsos tiros para o alto ao som de uma banda raivosa provavelmente filiada ao Estado Islâmico. Quando um bonde passou gritando “Tá tranquilo, tá favorável”, apesar das contas domésticas atrasadas, da ameaça do desemprego e da inflação alta, gritei também – acompanhava o grupo de homens enfileirados ou seria arrastado por ele.

Atrás das grades pulando como um animal que nada sabe sobre sua própria história nem sobre a cidade onde vive, vi belíssimos pierrots circulando do lado de fora da quadra, livres, soltos. Seria melhor estar entre eles depois que outro bonde descontrolado, desta vez de macacos brancos, quase me derrubou. Em 2015 a escola de samba Alegria de Guaxindiba levou o tema “Made in África Berço da Cultura Brasileira” ao desfile no bairro Patronato. Este ano o prefeito Neilton Mulim decidiu que macacos na Trindade segurando a corda do caranguejo é tudo o que um bicho como eu precisa aprender.

Possivelmente com pretensões políticas (afinal é ano eleitoral), a boa alma da Trindade instalou as caixas de som. A noite estava quente, como deve ser, o bairro, abertamente lindo, gonçalense até o último confete. Para alcançar a divindade, faltou à trindade incentivo público digno e respeito pela cultura local. Vi o espetáculo preso, mas sacolejando, dentro da quadra lotada.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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