Antes de morrer, Guilherme Alves ensinou aos moradores do Rio de Janeiro uma forma de recuperar o orgulho do Estado. No quarto assalto sofrido este ano, o jovem carioca se recusou a entregar o celular aos bandidos, lutou com um deles e foi executado com dois tiros na cabeça, dia 12 de julho. Arriscando a vida Guilherme decidiu seguir aquilo que julgava ser correto.

O filósofo americano Henry David Thoreau defendia uma sociedade guiada principalmente pela consciência dos seus cidadãos, não por governos e leis. As polícias, o Governo e as leis do Rio de Janeiro provaram sua incapacidade de combater a violência no Estado, onde um homicídio acontece a cada duas horas. Resta apelar à consciência humana.

Não era a primeira vez que Guilherme desobedecia a bandidos no mesmo ponto de ônibus onde foi assassinado, mas a segunda, de acordo com um colega. Uniformizado, o jovem aguardava o ônibus para a escola. Uma sociedade que mata garotos de 15 anos indo para a escola chegou ao fundo da podridão.

Guilherme tinha o sonho de ser motociclista. Ele não fará novos amigos em cada ano do Ensino Médio. Não vai se apaixonar por alguém da classe. Não ouvirá os lançamentos dos seus grupos musicais preferidos. Sendo menor de 16 anos, não pôde votar pela primeira vez, nem sentirá o nervosismo do alistamento militar, aos 18. A chance de viver uma juventude sadia foi destruída, desgraça que se repete todo dia.

Uma sociedade guiada pela consciência de cada indivíduo não clamaria pela redução da maioridade penal nem pelo direito de portar uma arma na cintura. São reações causadas pelo ódio. Crianças são assassinadas dentro de casa, adolescentes são mortos dentro da escola, algo mais profundo que bandidos precoces nos atinge. Uma sociedade corajosa o suficiente para escolher o certo, ao invés do mais conveniente, se dedicaria a resolver suas falhas econômicas e sociais, origens da violência. Buscaria entender por que as favelas são o destino das armas e das drogas, enquanto os condomínios de luxo no máximo tentam se proteger com esquemas avançados de segurança e vigilância.

Tantas notícias de mortes, roubos e perdas nos confundem, tragédias deixaram de ser devidamente compreendidas sem repetição: um jovem de 15 anos foi assassinado porque bandidos queriam seu telefone celular.

Guilherme sentiu medo, coragem, impotência, revolta. E preferiu encarar seus algozes, que apertaram o gatilho, com dignidade. Sua lição não é reagir a assaltos. Guilherme nos ensinou que temos o poder de construir o Rio de Janeiro que queremos, até sob a mira de uma arma.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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