Quem mora no Estado do Rio de Janeiro sabe que o topo da pirâmide social habita os apartamentos de luxo na zonal sul da Capital e os condomínios da Barra da Tijuca, bairro nobre. Ricos que não se importam com as causas da crise na segurança pública, querem proteção ainda que os direitos de pobres inocentes sejam violados.

Noventa por cento da população brasileira ganham menos de R$ 2,6 mil por mês (Oxfam). Quando parte desse universo fecha rodovias pra protestar contra o assassinato de uma criança vítima de bala perdida, algo frequente no Rio de Janeiro, o rico esbraveja: “Cambada de vagabundo que não tem o que fazer”. Outros apelidos são usados: povão, gente fedorenta, favelados, negada do cacete. Nem crianças escapam. “Esses moleques”, dito com uma ironia macabra, é o apelido secular dado a elas. Ricos (e ignorantes) apoiaram a revista de crianças, vestindo uniforme escolar, feita pelo Exército na favela Kelson. “Esses pequenos bandidos”, é o pensamento que a ironia oculta.

Os sinais de trânsito dos bairros nobres são um tradicional ponto de encontro entre os extremos. O rico xinga até os antepassados do pobre se ele vier à janela do seu carro pedir esmola. Diz que o pedinte atrapalha o trânsito, que está ali pra roubar, que deveria procurar trabalho. Afinal, o rico depende do pobre a ser explorado. Faz questão de pagar uma ninharia à empregada, ao engraxate, ao barbeiro.

Nem todos os ricos odeiam os pobres, claro. Alguns são indiferentes. A grande maioria, entretanto, não desenvolveu a menor consciência social e vê a pobreza como fardo alheio, não como chaga da sociedade em que vive.

Quieto num canto, o pobre não desperta o ódio do rico. O rico quer paz e o rendimento dos seus investimentos. Pobreza é caos. Se pudesse, o rico cruzaria com o pobre só na portaria do prédio. Ele não odeia tanto o pobre que o serve. Faz até caridade dando uma cesta básica no Natal, uma gorjeta, uma caixinha. O rico se acha, pelo brilho dos olhos, a melhor pessoa do mundo, alguém com a passagem para o céu comprada.

O pobre que serve com dedicação é visto como um animal de estimação. Alguém que precisa de perdão. Mas se esboçar alguma opinião, é logo cortado pela falta de educação do rico, impondo seu modo de ver a realidade.

Quando recebe o “Bom-dia” do manobrista e é chamado de “senhor”, o rico sorri orgulhoso, com ar de aprovação, quase nunca olhando nos olhos de quem o cumprimenta. Ele não deseja que o manobrista suba na vida, algo raro e admirado pelo rico. No Brasil colonial acontecia situação semelhante. Alguns escravos viviam dentro da intimidade da família patriarcal sem que fosse permitido, jamais, esquecer sua condição de escravos.

Ao amaldiçoar programas assistenciais do Governo Federal, é ao pobre que o rico ataca. O rico espera que alguém de baixo nível educacional se qualifique profissionalmente, o sirva até o fim do mês, receba salário e depois compre comida. No discurso de ódio, quem tem fome deve permanecer de barriga vazia até que consiga um emprego nesse país de quase 12 milhões de desempregados. Discurso carente de reflexão racional e humana.

Estatisticamente, a cor da pele difere entre ricos e pobres. O rico não se identifica com a origem social, o gosto pelo funk, com a forma de se vestir do pobre. Por falta de empatia, não vê problema no seu ódio. Assassinos em série sofrem da mesma deficiência.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta