Maldita mula Neli

Povo da cidade, Neli voltou pro sítio! Disseram que eu tinha matado ou vendido a mula preguiçosa, nada disso, eu a procurava em cada canto de São Gonçalo. Noite passada ela passou porteira adentro pisando forte, com o nariz empinado – parecia sorrir – como se fosse a dona do lugar após meses desaparecida. Montado nela voltou junto meu ódio.

O pequeno sítio da família fracassou. Gastamos totalmente nossas reservas, devemos dinheiro a Deus e ao mundo. Para piorar, a chuva braba da semana destruiu os pequenos pés de banana, nossa última esperança de um futuro com menos problemas financeiros. Hoje a fruta está tão barata que não vale a pena o esforço de colher e transportar pra feira, principalmente sem a ajuda desta mula safada, sempre sumida ou imóvel. Nos grandes pés os cachos apodrecem, nenhum homem aguenta descer a ribanceira sozinho e carregá-los nas costas.

Sei que a raiva é um sentimento ruim, reprovado por Deus, mas como odeio Neli. Quando ela some, lembro do prejuízo que tive ao comprá-la enganado, diziam que era obediente e trabalhava rápido. Tudo mentira. Quando aparece e só come e empaca, come até a ração dos outros bichos, fico ainda mais revoltado. Pancada pra ela não é nada, parece que a mula dos infernos não sente dor, apanha desde que chegou há três anos e carregou no máximo um pouco de capim no lombo.

O ano de 2016 começou mal, que chance de recuperação nós temos? Perco o sono ao pensar que venderemos o sítio se não tiver jeito. Falei com o pessoal daqui, minha mulher e meus filhos, temos que inventar outra fruta pra vender, prender Neli para que não fuja mais e deixar a mula passando fome, se não colaborar. Pelo menos este ano ela precisa honrar meu investimento. Em outubro já decidimos fazer o último empréstimo de nossas vidas para comprar outro animal. Depois sumir com Neli de vez.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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