Gostaria de ter publicado, nesta coluna, a opinião de uma gonçalense sobre o projeto de lei 5069/13, que criminaliza ainda mais o aborto, ou sobre a luta das mulheres por maior participação política e igualdade de direitos. Diversos colunistas brasileiros aderiram à esta campanha. Não consegui. Deixo o espaço aberto para semana que vem. Mas não abro mão de destacar, hoje, um grande exemplo feminino de sobrevivência na cidade de São Gonçalo.

Vendi salgados e sucos na Rua da Feira, e em todo Alcântara, ainda adolescente, na década de 1990. Era ambulante, carregava o garrafão de suco a pé, e ao meu lado Maria carregava o cesto com rissoles, pastéis e coxinhas, muito mais pesado. Viúva de meia-idade e mãe de três filhos, buscando o sustento da família, o convite para iniciarmos esta humilde atividade comercial foi dela, e eu aceitei prontamente. Todo adolescente queria uns trocados para jogar fliperama naquela época.

Surpreendentemente, quem se esforçava para segui-la era eu. Apesar da diferença de altura gigantesca, Maria era ágil e eu praticamente tinha que correr para acompanhá-la de loja em loja, onde oferecíamos o lanche às vendedoras e seus clientes. Após algumas semanas de operação, éramos ansiosamente aguardados no fim da tarde, interrompíamos as vendas de roupas onde chegávamos, ficamos famosos.

Eu enchia os copos com suco e entregava aos nossos clientes. A chefe servia o salgado e recebia a grana. Na volta para casa, na subida do Morro da Caixa D’água, no Vila Três, eu recebia minha participação, verdadeira fortuna para um garoto sem contas a pagar.

Maria era uma vizinha, amiga dos meus pais, e me ensinou uma lição fundamental: sair da mesmice, trabalhar de cabeça erguida, não ter vergonha de buscar soluções para crises financeiras domésticas, ainda que tenha recursos tão escassos quanto uma garrafa e um cesto.

Dona de uma escoliose gravíssima, que provocava dores terríveis, Maria jamais deixou eu carregar o cesto pesado com os salgados, por mais que eu insistisse em trocar pela garrafa de suco. Parávamos diversas vezes no caminho para ela tirar o cesto do braço, apoiá-lo em algum lugar, e descansar.

Nosso projeto durou poucos meses, mas desde então Maria já vendeu sacolé, caldos, petiscos, bolos e bebidas. O corpo torto continua o mesmo, ela não para de lutar.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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2 comentários

  1. Arrasou Mário! É isso aí, quantas Marias coma existem por aí, enquanto outros preferem reclamar da vida.

    Estou trabalhando para desenvolver algumas dessas características que Maria tem e aplica de forma tão natural.

    🙂

    1. Muito obrigado, Raphael. É incrível como boas lições são úteis para toda vida. Fique tranquilo, você já tem essas características.

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