Foto: Daniel Arroyo/Ponte

A notícia mais triste que o Brasil recebeu esse ano foi que o assassinato de negros aumentou 23,1% entre 2006 e 2016, segundo o último Atlas da Violência. O aumento não está associado apenas ao crescimento geral da criminalidade – o número de brancos assassinados caiu 6,8% (El País). O massacre contra negros cresceu porque o racismo secular continua forte nas nossas principais instituições, entre elas o próprio povo brasileiro, impedindo o desenvolvimento do país.

Não é o tamanho do Produto Interno Bruto que caracteriza uma nação digna, mas o respeito à individualidade humana independentemente da cor da pele e da classe social. No Brasil os assassinatos têm alvo certo: a cada 100 pessoas vítimas de mortes violentas, mais de 71 são negras. Apenas em 2016, 44,7 mil negros foram executados.

Além de negra, a maioria morta é jovem, do sexo masculino e de baixa escolaridade. “Isso tem um custo imensurável do ponto de vista humano – há um buraco imenso nas famílias que perdem seus meninos”, nas palavras de Daniel Cerqueira, coordenador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que realizou o estudo em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Algumas pessoas têm dificuldade para entender percentuais, matemática também me assusta. Imagine duas pessoas lado a lado encostadas em um muro, sendo uma negra e a outra branca. Se alguém der um tiro de longe contra essas pessoas, provavelmente ele vai atingir e matar a pessoa negra. Você pode apostar sua vida nessa probabilidade (se você não for negro). Voltando à estatística, a chance de um negro ser executado no Brasil é 2,5 vezes maior do que um branco.

O racismo está na desigualdade estrutural da sociedade e se estende até o dedo de quem puxa o gatilho. Algumas manifestações racistas são claras e públicas, como a dos estudantes de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio durante os Jogos Jurídicos Estaduais, em Petrópolis, no último fim de semana. Eles jogaram uma casca de banana em um aluno e chamaram uma estudante de “macaca”. Não temos culpa pelos mais de 300 anos de escravidão praticada no passado, mas somos obrigados a combater o racismo do presente para a construção de uma nação justa.

O louvor de grandes sociólogos do século 20 à miscigenação de raças no território nacional pode causar confusão. É verdade que de forma única no mundo carregamos na pele as cores dos povos indígenas, da Europa e da África e que oficialmente o negro livre jamais foi impedido de entrar em um restaurante, por exemplo. No entanto entre os mais pobres três em cada quatro são negros (Agência Brasil). A desigualdade e a perseguição violenta rebaixam moralmente o futuro brasileiro e são motivos de vergonha dentro e fora do país.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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