Há pelo menos dois anos, na Praça Arariboia, em Niterói, passei por duas crianças cheirando loló e nada fiz para ajudá-las. Tinham no máximo dez anos de idade.

O rascunho deste artigo estava guardado desde então, não sabia como confessar. Pensei em culpar as mil e duzentas pessoas ao meu lado, trabalhadores honestos, cansados da labuta, que vieram da Praça XV, como eu, a bordo de uma barca qualquer. É conveniente e fácil responsabilizar outros por nossas falhas.

Sem largar a garrafa de plástico contendo o entorpecente, a criança menor tentava acender aquilo que restava de um cigarro amassado e sujo, pendente no canto da boca, provavelmente pego do chão. Descalças, sem camisa, imundas, elas estavam sentadas na calçada de um dos trechos mais movimentados do Estado do Rio de Janeiro, por onde circulam dezenas de milhares de pessoas nos horários de pico, diariamente.

Embora comovido, olhei para elas como se fossem seres nojentos de uma espécie diferente, repugnante, da qual deveria me afastar. Me sentia agredido por tão cruel decadência infantil, que se transformava em ofensa ignóbil ao atacar minha rotina insensível, onde quero apenas voltar para casa o mais rápido possível.

Vi a multidão desembarcada tomando a calçada e transbordando até a rua em frente a estação das barcas, um mar de gente envolvendo completamente as crianças enquanto passava. Até que o povo sumiu em três direções, terminal rodoviário, Centro e zona sul, mas elas ficaram no mesmo lugar, sentadas, solitárias como nunca, cheirando ainda mais para fugir da realidade dolorosa, produto do estúpido egoísmo nacional. É horrendo estar entre 1200 seres humanos que por hábito ignoram dois meninos se drogando. Você se sente um merda por ser parte indiferente de uma sociedade que não garante direitos básicos, universais, como educação e proteção social, a milhões de pequenos brasileiros, e quer aprisioná-los quando chegam aos 16 anos, quando não os acorrenta, despe e espanca.

A existência de crianças de rua, anomalia inadmissível, é o meu maior crime.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

Participe da discussão

1 comentário

  1. Mário, esse crime não é seu. É nosso!

    E digo mais, sinto meu coração encarcerado, apertado quando vejo uma cena dessa.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta