O lado especial de Alcântara

São Gonçalo não cabe na pequena política municipal

São Gonçalo tem noventa e um bairros oficiais. Noventa e um. Apenas um deles tem placa de indicação na Ponte Rio-Niterói: Alcântara. O bairro é campeão de arrecadação de impostos comerciais para o município. Apesar do lixo e da desordem, ele tem seu lado especial.

Através dos corpos que se esbarram no espaço estreito da Rua da Feira e do Calçadão, o bairro sua quase o ano inteiro. E vibra por meio da garganta incansável do camelô e dos alto-falantes insistentes anunciando promoções. Alcântara é quente, gosmento, sujo e sensual.

Gente de todo o Estado do Rio de Janeiro vê o nome do bairro impresso na placa, no alto, depois de pagar o pedágio. Trabalhadores voltando para casa, no Leste Fluminense, cariocas viajando para a Região dos Lagos e turistas rumo a outros estados brasileiros. Além de Alcântara, o Fonseca conta com o mesmo privilégio, as placas restantes apontam para cidades.

Assisti Titanic com minha família e Power Rangers com amigos de infância no Cine Teatro Alcântara, na rua João Caetano, quando não havia shopping em São Gonçalo. Na década de 90 estudei Inglês no bairro e as franquias de cursos que existem lá estão cada vez maiores e mais diversificadas. Tem curso de Inglês, Informática, computação gráfica, desenvolvimento de jogos…

No Colégio Estadual Pandiá Calógeras, poucos metros a frente do antigo cinema, fiz parte do Ensino Fundamental. Ano passado o Pandiá teve papel de destaque na luta pela manutenção dos direitos dos estudantes gonçalenses e na sua formação política. O entorno do Pandiá, de acordo com relatos dos atuais estudantes, continua ponto de encontro favorito dos jovens amantes da região.

Em 1999 terminei o Ensino Médio no Grupo Perspectiva Integral, que ficava em frente ao viaduto, ao lado da extinta casa de saúde. Nessa escola estudaram geógrafos, biólogos, sociólogos e outros profissionais que contribuem bastante para o entendimento da história e das características populacionais de São Gonçalo. Como eu matava aula para ouvir heavy metal na casa de um amigo no Jockey, minha contribuição são esses artigos semanais cheios de erros de informação. Alcântara ainda forma parte da elite intelectual do município em suas diversas unidades escolares públicas e privadas.

Na adolescência aprendi o valor do trabalho – dignidade e dinheiro no bolso – vendendo salgados e sucos aos lojistas e pedestres na Rua da Feira. Aos 17 anos, menos responsável, precisei vender minha bicicleta e meu videogame na feira de domingo para pagar dívidas do meu vício em Internet.

Pipoqueiros conquistam no bairro o sustento da família. Mulheres da cidade inteira se reúnem lá para fazer negócios e trocar produtos para festas. Tudo se vende, tudo se compra. A facilidade de negociar é tão grande que a ex-prefeita Aparecida Panisset conseguiu vender a praça Carlos Gianelli para um grupo de empresários construir um prédio comercial. Os jovens marcam encontros e lotam o local quando querem. Fiz Primeira Comunhão, me casei e batizei meu filho na Igreja São Pedro de Alcântara, que também lucrou ao ceder espaço para o prédio.

Alcântara tem universidade. Particular, mas o acesso às salas de estudo é livre (aproveite, caso não consiga estudar em casa por causa do vizinho barulhento). Tem hotel, coisa rara em São Gonçalo, onde as figuras políticas municipais poderiam discutir seus graves problemas de relacionamento. Tem vereadores e secretários de governo como moradores. Alcântara é cosmopolita, abriga gente da cidade toda, as bancas vendem inclusive jornais paulistas. A vida de alguém, como a minha, pode ser completa sem ao menos sair de Alcântara.

2 comentários em “O lado especial de Alcântara

    1. Maravilhosa essa lembrança do meu lado anarquista, Wilson. Você tem boa memória, eu não! Eu tinha que participar da cidade de alguma forma pra ser feliz nela. Obrigado pela inspiração.

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