Morar em São Gonçalo significa ser parte de um povo que não esconde seus sentimentos. O gonçalense fala alto, xinga e beija em público, aprecia uma conversa de repente na rua, é ingênuo no trato político e irreverente nas manifestações populares.

Ser gonçalense é abrigar uma parte do Brasil dentro de si, resguardadas as particularidades locais, afinal, a história de São Gonçalo ocorre em paralelo com a formação do país. A sesmaria que posteriormente deu origem ao município foi doada no dia 6 de abril de 1579 (O município de São Gonçalo e sua história – Maria Nelma Carvalho Braga).

Alguns pontos especiais rendem vantagens à vida gonçalense: o contato direto, cara a cara, ao ar livre, permanece forte entre nós, seja com o vendedor ambulante, que vende de porta em porta, ou com a criança escalando uma árvore frutífera, depois subindo no muro do vizinho para pegar uma pipa voada.

Soltar pipa, aliás, ocupa espaço considerável na formação da criança e do adolescente, até a idade adulta. Milhares de pessoas vão anualmente ao Clube Esportivo Mauá, no Centro, para o festival anual dos brinquedos coloridos feitos de bambu, fibra e papel. Famílias inteiras se sentam à sombra das árvores para apreciar atividade tão infantil e alegre. Bairros como o Laranjal também promovem festivais.

O sentido de ser gonçalense é aproveitar o melhor da inocência humana. Toda criança se diverte na infância, todo adulto celebra com amigos. O capital, escasso ou mal distribuído, não substituiu o contato físico nem valores fundamentais. É fácil encontrar relacionamentos de longa data entre vizinhos conversando na calçada.

Por outro lado, o desenvolvimento democrático é igualmente imaturo. A Câmara Municipal é pobre em representatividade (faltam negros, mulheres e LGBTs entre os vereadores) e as letras não contam com o mesmo espaço das raias, cortadeiras e piões na formação do cidadão.

Um milhão de pessoas vivem em São Gonçalo, a 16ª maior população entre todos os municípios brasileiros. O primeiro teatro municipal, entretanto, ainda não foi inaugurado. A inserção da imprensa na sociedade, usada como sinal de qualidade de uma região, deixa a desejar.

Um povo não cabe em uma frase, artigo ou livro. Que os acertos dessa tentativa de compreensão superem seus erros. Porque o comportamento do Calçadão de Alcântara lotado para as compras de Natal não é transmitido através de simples indicadores socioeconômicos. Eles apontam que o gonçalense médio ganha mal, estuda pouco e é jovem (Atlas Brasil 2013), mas ele é mais que isso. O gonçalense é comunhão humana, efervescência pura.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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