“Tomei um tiro, tomei um tiro”, gemeu Marcos Vinícius do Santos, de apenas 11 anos, antes de morrer, na Cidade de Deus. Que lugar brutal é este, onde crianças pobres, negras ou mestiças, são tratadas como seres insignificantes e assassinadas a esmo? É o Estado do Rio de Janeiro, é o velho Brasil violento, desigual e opressor das classes desfavorecidas.

A dor que atingiu o corpo de Marcos Vinícius, baleado enquanto ajudava o pai a vender peixes e frutas, qualquer adulto fluminense teme imensamente. Saímos de casa ao nascer do dia para trabalhar, apavorados. Torcendo para não acharmos uma bala perdida, pedindo a entidades e santos que desviem assaltantes do caminho, implorando a Deus por proteção contra a dor do tiro que Marcos, tão jovem, foi obrigado a suportar no braço e no peito ontem, faltando dois dias para o Natal. Além dele mais três pessoas foram baleadas: um adolescente de 17 anos, que também morreu, uma criança de 9 anos e uma mulher, ambos internados no hospital. Vítimas dos disparos realizados por ocupantes de um carro preto – da morte – que passou pela comunidade, dizem testemunhas.

O depoimento do pai de Marcos Vinícius é de um homem metade morto, de acordo com ele. Alguém profundamente infeliz, abandonado pela vontade de viver. Mas não há desespero em sua voz, apesar de ter perdido o filho instantes antes. O morador da favela sabe que a qualquer momento pode ter destino parecido, sofrer uma agressão física policial, execução sumária, ou receber um dos projéteis que têm incrível precisão de encontrar trabalhadores humildes ou seus filhos e poupar a elite branca brasileira.

Não é por acaso. Na zona sul carioca, principalmente no horário noturno deste período comercial intenso, se encontra uma viatura policial quase a cada esquina. Parece que o presidente de uma importante nação está fazendo compras nas redondezas. No horário de entrada e saída dos colégios da região, onde Marcos não tinha dinheiro para estudar, outras viaturas circulam o tempo inteiro fazendo a ronda. No resto do Rio de Janeiro a Polícia Militar caminha a passos curtos e suspeitos.

Incendiar pneus e pedaços de madeira é o desabafo do morador da comunidade, atingido pela guerra do Estado contra suas antigas lacunas sociais. Por fogo no lixo que não é recolhido regularmente pelo poder público, lixo que mais tarde entope valões e provoca alagamentos que maltratam o pobre novamente, sempre o pobre. Fecha o trânsito para despertar a atenção das autoridades e dos insensíveis – esclarecidos, mas omissos – que se sentem lesados pelos protestos. Para encerrar as manifestações, aí surge o Estado, através da força policial.

Os favelados devem enterrar seus filhos, muitas vezes mortos pelo próprio Estado, e retornar para casa em silêncio.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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