Você deu 5 reais de gorjeta pro entregador mas continua sendo um merda

Você deu 5 reais de gorjeta para o entregador mas continua sendo um merda

Evaldo tinha atravessado metade da cidade de São Gonçalo pedalando, do Centro ao Vila Três, carregando aquela bolsa pesada nas costas. Aliás, projetaram uma mochila linda, colorida, brilhosa, que desperta no cliente o tesão de enfiar o dedo na superfície macia, só que a bolsa é quadrada, não corresponde ao corpo humano e não traz conforto algum pra quem a leva. E jamais haverá uma mochila mais adequada, que não prejudique a coluna, porque é impossível transformar a exploração criminosa em algo aceitável.

Sustentando o peso empurrando os ombros doloridos pra frente, desesperado, já que o sustento da família depende de cada entrega e se ela não for rápida a punição é certa, Evaldo se aproximava da sua casa. Reclamando da demora, sendo obrigado a acalmar sua esposa, que não tem paciência pra nada, você acompanhava o deslocamento do rapaz pelo capacete de motociclista se deslocando em um mapinha na tela do aplicativo. Capacete que Evaldo nunca usou porque nunca teve moto. Nem bagageiro ou salário digno, que permitisse que Evaldo passasse uma noite de sábado em casa, com a família. Que permitisse pagar a faculdade que Evaldo tanto queria fazer.

O entregador veio com medo, tinha sido assaltado quatro vezes no Vila Três, onde prometeu não pisar de novo na vida. Mas trabalho é trabalho. Além de precisar muito do dinheiro, que não é tanto assim, Evaldo era honesto demais pra rejeitar serviço por medo de ser assaltado ou morto.

No pé do morro, desistiu de pedalar. Nem atleta subia aquilo. Deixou a bicicleta na casa de uma senhora gentil que apareceu no portão bem na hora, por milagre, já era noite, e subiu a pé, Evaldo e a bolsa quadrada. No alto do morro, sem achar o endereço, o entregador te ligou. O GPS sempre indicava o local errado, agora Evaldo tinha que descer o morro sem aliviar o peso do refrigerante de dois litros e da comida. Descer não chega a ser mais fácil que subir, o que mudam são os pontos de tensão nas costas e nos joelhos.

Vendo você no portão, Evaldo desceu praticamente correndo, sorrindo, sempre na esperança de receber uma boa avaliação. Embora a noite estivesse fria, o rosto pingava e o corpo suava embaixo da camisa do Flamengo. Evaldo aparentava quase 50 anos de idade mas podia ser também um jovem cansado, maltratado pela luta diária, você nunca soube. Só agradeceu com um sorriso bem menos empolgado do que o do entregador que tinha acabado de pedalar quilômetros para trazer sua refeição. Sem máscara, você não teve sequer o cuidado de proteger Evaldo e a si mesmo. A temperatura da comida era sua maior preocupação.

Dentro de casa, abrindo o pacote, o aplicativo enviou uma notificação sugerindo incluir um adicional de 2 a 15 reais para Evaldo, integralmente. A ideia tinha passado pela sua cabeça antes de receber a notificação e você se achou especial por isso, um verdadeiro filantropo. Na verdade, se o aviso não tivesse aparecido na tela do celular, você nunca teria feito a doação. Hoje respondemos apenas ao celular e à vontade de cagar e mijar, que cumprimos com o celular na mão.

Você escolheu a opção de cinco reais, um nível acima do mínimo, pra não deixar dúvidas a respeito da sua intenção de ajudar. O equivalente a 15 pães franceses, calculou ainda antes de apertar o botão de confirmar. Se sentindo menos mal, menos culpado, segurou uma costela ao molho barbecue na mão, que tinha custado 90 reais, e começou a comer. Ainda estava quente.

A livraria Ler é Arte precisa de um respirador

A livraria Ler é Arte precisa de um respirador

Como salvar da falência, no meio de uma pandemia mortal, a única livraria em funcionamento em São Gonçalo, cidade onde vivem mais de um milhão de pessoas? Há 15 anos a Ler é Arte abre espaço para a produção literária gonçalense e oferece desde clássicos da literatura mundial a revistas em quadrinhos. Depois do mês de julho, por causa das dificuldades financeiras, a loja da Ler é Arte deixará de existir. Os escritores gonçalenses e o público leitor não terão mais um ponto de referência para vender suas obras e encontrar seus livros preferidos.

A Ler é Arte é uma livraria independente que se parece com os típicos pequenos negócios familiares acolhedores. Você entra e é tão bem cuidado que tem vontade de passar horas conversando, dando e recebendo carinho, quase sem perceber, só sentindo. Com milhares de livros a sua volta prontos para serem folheados e discutidos, o tempo passa ainda mais rápido.

O fechamento do comércio e a necessidade de isolamento social foram duríssimos com a Ler é Arte e com o mundo inteiro. O movimento de leitores reduziu a zero e não houve outra opção além de planejar o fechamento da loja, que por enquanto ainda se encontra na Galeria da Matriz, no bairro Zé Garoto, em frente à nossa igreja mais famosa. A franquia da livraria Nobel, no segundo piso do shopping Partage, continua fechada e não atende ligações. Resta saber se o fechamento é definitivo.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) recomenda a existência de uma livraria para cada 10 mil habitantes de uma região. Considerando a Ler é Arte, que fechará, e a Nobel, que não retomou as atividades junto com as outras lojas do shopping, ainda faltam 98 livrarias em São Gonçalo. Isso significa que os moradores da cidade têm menos chances de aprender sobre ela e de se desenvolverem como cidadãos através da leitura. Consequentemente contribui para a pobreza humana e social do município.

A sensação de entrar na livraria Ler é Arte é a mesma de encontrar um tesouro escondido. A voz, o pensamento e os sonhos dos gonçalenses estão reunidos lá, nas obras dos artistas locais, gritando por espaço e atenção. Em nenhum outro lugar isso se repete com a mesma abundância e diversidade. Nem na seção de autores gonçalenses da biblioteca municipal, criada há alguns meses, ou na erudita biblioteca do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (ICBEU), localizada no mesmo bairro da livraria. A Ler é Arte é o primeiro destino de poetas, quadrinistas, cronistas, romancistas, contistas, ensaístas, historiadores e toda espécie de escritores de São Gonçalo que há uma década e meia saem de casa com seu trabalho embaixo do braço tentando ganhar o mundo. Perder a Ler é Arte significa jogar fora um hábito cultural, um ritual artístico, e desperdiçar parte das poucas oportunidades disponíveis para ler e ser lido.

Temo ainda pelas crianças e adolescentes gonçalenses que gostam de livros e jamais saberão o que é conversar com a proprietária de uma livraria capaz de fazer uma pequena introdução sobre qualquer obra do acervo. Que conta histórias de luta e amor que saem das páginas e fazem o seu dia ser melhor depois que você deixa a livraria. Nenhuma franquia ou tecnologia substitui essa experiência, mas o momento ainda não é de lágrimas. A hora é de esforço conjunto e salvação da Ler é Arte.

Pombos musculosos não salvarão São Gonçalo

Os pombinhos querem resolver São Gonçalo na porrada

Famílias inteiras, com bebês de colo, passam o dia nos sinais de trânsito vendendo balas e panos de chão. Andam quilômetros no sol, espremidas entre os veículos e aspirando a poluição dos canos de descarga. Há mais pessoas em situações de miséria e fome montando barracas e vivendo nas praças do que crianças no balanço ou usando o escorrego. Jovens desempregados deixam a casa dos pais, abandonando sonhos, assim que são recrutados por traficantes de drogas. Esses são alguns dos inúmeros problemas que afetam a cidade de São Gonçalo. Nenhum deles será resolvido exibindo bíceps bem modelados ou lançando um olhar de raiva sobre adversários políticos. No esgoto a céu aberto, na rua sem asfalto e nos muros vandalizados, estupidez São Gonçalo tem de sobra, o que falta é inteligência.

Um grupo de pombinhos musculosos e cheios de raiva ocupa um espaço importante na política do Estado do Rio de Janeiro, seja em cargos eletivos ou no gosto do eleitor, pronto para elegê-los. Em São Gonçalo, dois deles querem exibir o peito estufado sentando na cadeira de prefeito e ocupando um gabinete na Câmara de Vereadores. Se consideram pombos bem intencionados e de bom coração, mas um já foi preso por pertencer a quadrilha de agiotas (O Globo) e o outro foi formalmente acusado de agredir mulheres (O Dia).

Não há dúvidas de que o mundo pode ser injusto com pessoas boas, pelo visto também com as aves. Os honestos, independentemente da espécie, não podem desistir de continuar sendo honestos, o que exclui a prática de emprestar dinheiro cobrando juros abusivos e de agredir fisicamente outros seres.

Os pombos sobrevoando São Gonçalo declararam ainda nas suas redes sociais a pronta intenção de pegar em armas para derrubar o Supremo Tribunal Federal (STF), caso a instituição tome decisões que os desagradem e provoquem a ira dos seus músculos e bicos. Sem o STF, guardião da Constituição, o povo brasileiro estaria indefeso contra aves autoritárias. Cada vez parece menos que esses animais sejam bonzinhos.

Se fossem inteligentes, teriam propostas públicas que iriam além de exigir a extinção dos partidos políticos da esquerda. Teriam projetos de governo e de lei baseados em estudos científicos e estatísticas. Se respeitassem o município de São Gonçalo, os pombos não teriam invadido, ameaçando agir com violência e portando armas, as obras atrasadas do Hospital de Campanha, construído dentro do Clube Mauá. Fazer Justiça não significa usar a força. E quando a força é necessária, em nome do Estado, existem instituições criadas e controladas para isso. Pombo só faz sujeira quando passa por onde não deveria estar, cagando, espalhando penas e disseminando doeças.

Esperteza, não podemos negar, não falta a eles. Depois que aprendem onde encontrar comida, não se esquecem jamais. Visitam o lugar onde comeram pelo menos uma vez durante meses, até anos, mesmo que a comida já tenha acabado. Os pombos do Estado do Rio têm boa memória e vão continuar se alimentando da política fluminense por um bom tempo. São Gonçalo não é nada além do seu território de exploração, da sua área de domínio a ser expandida.