Carta aberta ao vereador Jairo Bananada

Carta aberta ao vereador Jairo Bananada

Jairo, pelo menos cinco bairros de São Gonçalo são poluídos em seu nome há anos. Qualquer pessoa que já circulou pelo Vila Três, Alcântara, Raul Veiga, Coelho e Almerinda já sentiu nojo, se era um visitante, ou vergonha, sendo morador de São Gonçalo, da sujeira que você patrocina. A prática de pendurar o próprio nome em um poste de luz não será silenciosamente admitida para sempre nesse município. Como vereador da cidade, representante das necessidades populares, é uma ofensa pública agir como se o povo precisasse de cartazes ilegais espalhados pelo território a cada data comemorativa. Você deveria entender que o gonçalense espera mais do que você pode oferecer: limpeza, em vez de sujeira. Beleza, ao invés de feiúra. Ações, no lugar de propaganda barata.

Diz o Artigo 205 da Lei 017/2003, que instituiu o novo Código de Posturas de São Gonçalo:

– Escrever, pendurar faixas ou colar cartazes de qualquer espécie sobre coluna, fachada ou parede cega de prédio, muro, poste ou árvore de logradouro público, monumento, viaduto, elevado, ponte ou qualquer outro local exposto ao público, inclusive calçada e pistas de rolamento. Multa: 5 a 10 UFISG por área ou local.

É proibido, criminoso, vergonhoso e estúpido o que você manda fazer, ou permite que façam em benefício próprio. Considerando os bairros citados acima e apenas as faixas penduradas para o Natal e Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Dia das Mães e Dia dos Pais, você fica devendo de 125 a 250 UFISG por ano. Com o valor da unidade fiscal do município de São Gonçalo (UFISG) a R$ 37,06, sua dívida com o povo gonçalense, somente em 2020, pode alcançar R$ 9.265. Não é pouco não. Esse dinheiro seria bastante útil durante vários meses nas mãos de um pai ou mãe de família vivendo nas comunidades pobres que você polui.

O centro urbano gonçalense é sujo por causa da ação de vândalos que circulam ao seu lado nas ruas e na Câmara Municipal. A fiação elétrica dessa cidade não te pertence. O dano que você causa dura meses e só é substituído por outra faixa, outro dano. No dia dois de agosto, sua faixa desejando “Feliz Páscoa” e que o “Senhor nos livre do mal” ainda estava pendurada no bairro Almerinda. A Páscoa foi no dia doze de abril. O mal que Deus precisa nos salvar são os vereadores praticantes da política que anda de mãos dadas com o crime.

Da sua ação parlamentar podemos destacar as 50 moções de aplausos concedidas, número maior do que a quantidade de indicações legislativas e projetos de lei, provando que você está mais preocupado em dar e receber aplausos do que trabalhar para o benefício do povo.

Milhares de gonçalenses que nunca votarão em você estão nesse instante procurando postagens inteligentes nas redes sociais. O gonçalense carente, ainda preso a promessas vazias, em breve será impactado por mandatos que realmente respeitem São Gonçalo e um dia seu nome não será mais visto como opção para a urna eletrônica, ainda que esteja pendurado no prédio mais alto da cidade.

O gonçalense instruído não sabe o papel de um vereador

Meu vereador favorito

O gonçalense que frequentou a escola, tem emprego formal, casa própria e ocupa o topo da pirâmide social da cidade comete um erro grave que ajuda a manter São Gonçalo no atraso. Entre o candidato com certa visão de integração das vocações do município e o barbeiro famoso no bairro, aquele que tirou foto ao lado dos funcionários da Prefeitura roçando um terreno baldio, ele vota no barbeiro. Daqui a quatro anos o matagal estará nas alturas de novo e ele vai votar no radialista que trocou uma lâmpada queimada no poste há meses. A lâmpada, os funcionários e as enxadas usadas pra capinar o terreno são pagos com dinheiro público, a manutenção da cidade é obrigação do Executivo. Votar em quem “pelo menos fez alguma coisa” quase sempre é votar em quem cometeu um crime.

Depois de eleito, o vereador e seu contato dentro da Prefeitura, que permitiu que a máquina pública fosse explorada com fins eleitoreiros, são beneficiados pela conquista do cargo, que entre outras vantagens inclui um salário 7,5 vezes maior do que o vencimento médio do trabalhador municipal. A Câmara de São Gonçalo é formada por vinte e sete homens que construíram a fama de terem feito alguma coisa por seu bairro de origem, mentira às vezes disseminada com a ajuda das igrejas. Dois ou três, no máximo, compreenderam a importância da sua função. Ninguém foi eleito por sua inteligência ou capacidade de contribuir para uma transformação profunda do município. Pelo contrário, há quem tenha sido eleito vereador por sua grosseria e capacidade de torturar e matar outros seres humanos.

Antes do voto vem a pesquisa por quem realmente representa os interesses públicos. Um vereador deve criar projetos de lei para melhorar a vida da população e fiscalizar a administração do prefeito. Solicitar a atenção da Prefeitura para problemas estruturais de uma localidade faz parte do trabalho de fiscalização, mas escolher um vereador por sua habilidade de fazer pedidos, ao invés de pensar em soluções definitivas, é deixar que as deficiências existam pra sempre. Em 2020 não é preciso, nem recomendável, ir até uma associação de moradores para debater propostas políticas e encontrar candidatos com conteúdo de verdade. Eles estão online nas redes sociais, tanto quanto os candidatos vazios, que só exibem buracos de rua nas suas postagens.

Há bairros isolados em São Gonçalo, afundados na violência e na pobreza, que sequer lembramos que existem porque raramente são citados na mídia local. No Sacramento ou no pequeno Jardim Amendoeira perdemos gerações de gonçalenses para a informalidade, para a violência e má formação educacional. Com a permissão do nosso voto, a Câmara Municipal fecha os olhos para essas questões quando dela poderia nascer um projeto de ensino profissionalizante voltado a jovens carentes ou um programa de formalização e apoio ao vendedor ambulante, tão importante para os centros comerciais. Fonte de sustento ilícito dos políticos e de seus parentes, a prisão que São Gonçalo vive pode começar a ser destruída em qualquer ano eleitoral.

Teatro gonçalense é aberto com a peça “O cara de pau”

Teatro gonçalense é aberto com a peça O cara de pau

Estava escrito “Dezembro de 2016” na primeira placa de metal de inauguração do Teatro Municipal George Savalla Gomes, único teatro público de São Gonçalo. Naquele ano a cidade ainda vivia sob os desvios de recursos dos cofres do povo diretamente para a churrasqueira do prefeito Neilton Mulim, em Maricá. Desde então o que havia no teatro era silêncio e desperdício de R$ 14 milhões aplicados na construção. Finalmente hoje, 14 de agosto de 2020, a população gonçalense representada por menos de quarenta pessoas, a nata da bajulação, pôde assistir a um espetáculo no teatro municipal. A peça estrelada por José Luiz Nanci se chama “O cara de pau” e será montada por um bom tempo em outros aparelhos culturais da cidade, de Santa Isabel a Itaúna, mesmo após o fim do mandato do prefeito.

Como o teatro fica a poucos passos da Prefeitura, Nanci não precisou de transporte oficial. Fechou a porta do gabinete, abriu os dois botões de cima da camisa por causa do calor da tarde e caminhou acompanhado pelo secretário de cultura e pela primeira-dama. O ator principal já estava um pouco atrasado, um desrespeito com os puxa-sacos que o aguardavam para pelo menos um contato com o olhar, mas em São Gonçalo inclusive as coisas boas são assim, nunca saem com perfeição. Na porta do teatro Nanci ainda posou para fotos, mas sem fazer o sinal de “valeu” levantando o polegar da mão direita, como de costume. Parecia que o prefeito estava concentrado no personagem que ia apresentar, na verdade uma evolução de si mesmo e a superação de todas as mentiras contadas até agora.

O estudo das falas e a dedicação ao papel exigiram grande esforço. Afinal, não é nada trivial contar para uma cidade de um milhão de habitantes que seu teatro municipal está sendo inaugurado pela segunda vez sem nunca ter funcionado, sem a presença de artistas e de público, no meio de uma pandemia mortal que não permite aglomerações em ambientes fechados. Só que o prefeito de São Gonçalo não é um ator qualquer. Ele se entregou completamente às representações mais difíceis da sua carreira, foi cinco vezes vereador, duas vezes deputado estadual, quando até recebia salário duplo, de médico e de deputado, tudo pago com dinheiro público. Até que conquistou o topo. O dia 14 de agosto de 2020 premiou Nanci com uma experiência que poucos atores, ou políticos, conseguem viver: abrir um teatro superfaturado fechado há anos deixando ele de portas trancadas.

Antes de iniciar o show, Nanci trocou a placa de metal por outra nova, com o nome dele ao invés do nome de Neilton Mulim. Junto com a primeira-dama, se deixou fotografar inspecionando o palco e as cadeiras vazias. Então no hall de entrada, com o microfone na mão, a mesa de canapés do lado esquerdo, o prefeito não gaguejou. Não passou a mão na testa. Não olhou pro teto. A voz mansa era a mesma, mas foi direito ao ponto.

– Bem, eu quero entregar a chave do teatro ao Carlos Ney, nosso secretário de Turismo e Cultura. A população gonçalense vem merecendo esse teatro há muito tempo, ele leva o nome de um dos maiores artistas brasileiros, o saudoso palhaço Carequinha. Por enquanto ele não vai ser aberto, por causa do coronavírus, mas vai funcionar assim que a situação normalizar. Nossa cidade é cheia de talentos e agora vai ter um lugar com estrutura profissional para apresentar suas “obra”.

Os donos de cargos comissionados aplaudiram, os pré-candidatos a vereador, querendo se aproveitar da obra pública, deram vivas. Tão sorridente nos palcos, Carequinha chorou no céu.