Existe um vazio na Presidência

Existe um vazio na Presidência do Brasil. Ele não foi causado pela viagem de Jair Bolsonaro ao exterior para participar do Fórum Econômico Mundial. O Fórum permitiu, entretanto, nova constatação de uma ausência angustiante. A falta de intimidade com a alma brasileira acompanhou Bolsonaro a Davos e seguirá o presidente para onde ele for.

No início do mês, tomou posse um sentimento de ódio contra a esquerda, ao invés de uma proposta específica para o país. Nem na tribuna do Fórum Econômico Mundial, em pleno discurso de abertura do evento, o revanchismo descansou, empobrecendo o discurso do presidente e a imagem do Brasil perante investidores.

Bolsonaro falou em defender os verdadeiros direitos humanos e os valores da família. Algo assustador para as pessoas mais equilibradas porque essas palavras serviram muitas vezes para disfarçar o preconceito, a tortura e o assassinato. Não existem direitos humanos verdadeiros e falsos, apenas o compromisso, do qual o Brasil faz parte, do respeito absoluto à dignidade humana. O americano Robert Shiller, prêmio Nobel de Economia, chegou a declarar que Bolsonaro lhe dá medo e que o Brasil merece alguém melhor.

Os jovens dizem que votaram no cabo Daciolo para presidente porque ele tinha os memes mais engraçados das redes sociais. Daciolo não foi eleito, mas Bolsonaro tem muita coisa em comum com um meme. Ele é limitado e repetitivo, só não é engraçado.

O presidente não sabia como ser melhor em Davos. Ofereceu tudo o que tinha, tudo o que é. O combate ao chamado viés ideológico não sai da sua cabeça. O mundo precisa descobrir como usar o desenvolvimento econômico, de forma sustentável, com o intuito de gerar benefícios sociais. A única ideologia que importa é que isto seja conquistado respeitando a liberdade humana. O resto é meme do Facebook. Bolsonaro citou apenas metade dessa necessidade universal e não explicou como implementaria suas ideias.

O conteúdo correto, não a duração, torna um discurso capaz de atrair investimentos. No caso do pronunciamento brasileiro, ele foi curto e pobre. O presidente tinha trinta minutos à disposição e usou menos de sete. Faltou expor as carências brasileiras, suas exigências e vantagens para o capital estrangeiro. Houve somente promessas. E talvez assumir que massacramos negros e índios há séculos em território brasileiro, afinal, o objetivo do Fórum Econômico Mundial é melhorar a situação de cada país participante.

Para o brasileiro que compreende o gigantesco esforço de presidir o país, a sensação de vazio não acabará tão cedo. Como se não houvesse motivos para angústia, são graves as notícias indicando o envolvimento do sobrenome Bolsonaro com corrupção e violência. A facilitação do acesso às armas leva a crer que o projeto bolsonarista, desde a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, é construir uma grande milícia reacionária.

Pregador da violência, Jair Bolsonaro está abaixo das qualidades necessárias para representar o povo brasileiro. E ninguém no governo foi capaz de intervir para preencher as lacunas deixadas até agora.

Sonhos dos jovens da periferia

A opinião de quem mais sofre com as mazelas sociais do país não é encontrada com frequência nos grandes jornais brasileiros. Eu tinha uma curiosidade: saber o que o jovem, pobre e credor do Estado, espera do governo Bolsonaro. Por isso conversei com dois rapazes e a maturidade da resposta deles me surpreendeu. Rafael e Paulo não acreditam em muitos avanços.

Eles são moradores do bairro gonçalense do Jardim Catarina, citado pela comunicação oficial do Governo do Estado do Rio de Janeiro como o maior loteamento da América Latina. O bairro parece um labirinto sufocante, principalmente visto do alto, e quem controla a rotina local são os traficantes de drogas.

Rafael tem 14 anos, vai começar o Ensino Médio e mora em uma casa com mais cinco pessoas. A família divide uma renda de R$ 2 mil. Apesar da pouca idade, já trabalhou atendendo ao público em padarias e restaurantes. Daqui a dez anos, ele espera ser arquiteto formado. Não parece um sonho tão difícil de conquistar, mas nada é fácil para quem mora em um bairro onde barricadas de ferro e concreto, colocadas nas ruas por criminosos, interromperam o direito de ir e vir.

Paulo tem 16 anos, também estuda, e sua renda familiar é de R$ 1,5 mil. Na casa dele moram cinco pessoas, ao todo. O jovem compõe e canta rap e alguns fãs, inclusive de cidades vizinhas, acompanham seu canal nas redes sociais. Seu sonho é ser um rapper famoso, como o Emicida, e até que isso aconteça, Paulo faz serviços de mixagem, a maioria de graça.

A Constituição Federal estabelece, como direitos sociais, segurança, saúde, educação, lazer e outras condições para uma existência digna que não são amplamente cumpridas. O favelado conhece essa dívida melhor do que ninguém.

Estimulados pela retórica dura do Presidente da República contra criminosos, Paulo e Rafael acreditam que a crise na segurança pública pode ser superada nos próximos quatro anos. Essa é a única esperança dos jovens. Assaltantes e traficantes veem Jair Bolsonaro, que defende que as polícias militares matem mais bandidos, como inimigo direto. Eleitores de Bolsonaro, moradores de regiões dominadas por bandidos, chegaram a sofrer represálias.

Os jovens não acham que Bolsonaro pode contribuir para a redução da pobreza ou valorização da cultura, de maneira integrada com os governos estadual e municipal. A opinião deles faz sentido. Metade da praça de São Gonçalo onde conversamos estava destruída e ocupada por viciados em drogas que vivem nas ruas. As paredes das escolas públicas da cidade estão pichadas por facções criminosas e não por Karl Marx, como pensa o presidente e direciona seus esforços.

Conversar com dois rapazes não substitui uma pesquisa pública formal. É fundamental, entretanto, não subestimar a opinião política do jovem brasileiro. Concentrado na liberação da posse de armas, na concessão de terras a ruralistas e no combate às principais pautas progressistas do mundo, o governo Bolsonaro já mostrou o quanto despreza a juventude pobre e esquecida.

Sinais da pobreza no cotidiano

De acordo com o Censo 2010 feito pelo IBGE, a renda per capita média do morador de São Gonçalo era de R$ 669,30. Aproximadamente 31% maior do que o salário mínimo da época, que valia R$ 510. Ano que vem, com o novo Censo, descobriremos se a situação mudou. De qualquer forma, sabemos que o salário mínimo continua não dando pra nada e os sinais da pobreza no cotidiano da população são claros. A falta de renda, moradia, saúde, educação e lazer obriga o gonçalense a se virar para ganhar a vida.

No mesmo ano do último censo, 26,5% dos habitantes de São Gonçalo, com 18 anos ou mais, não tinham o Ensino Fundamental completo e trabalhavam de maneira informal, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Mais de 150 mil pessoas ganhando pouco, sem estabilidade profissional, desamparadas pelo sistema previdenciário e sem perspectiva de melhores condições por causa da baixa escolaridade.

O excesso de camelôs talvez seja a manifestação mais comum da pobreza gonçalense. No verão eles passam o dia de pé, espalhados pelos centros comerciais, suando sob o sol, vendendo água, cerveja e guaravita dentro de um isopor com gelo. Tem vendedor de pipoca, churrasquinho, sacolé. Embaixo do viaduto de Alcântara, vi camelô usando geladeiras com portas de vidro para exibir seus laticínios, como nos supermercados. É a evolução da pobreza.

A gente não se surpreende mais com a falta de emprego e a informalidade. Semana passada eu fiquei chocado por outro motivo. Três crianças sozinhas, descalças, de menos de 6 anos de idade, bateram no meu portão pedindo água. Peguei uma garrafa cheia e os três, um menino e duas meninas, beberam a água toda. Parecia que não bebiam água e não tomavam banho há dias. Como crianças fugindo de países em guerra, na verdade sem conseguir fugir de São Gonçalo. Depois de beberem, sentados na calçada, se levantaram e continuaram sua caminhada pela rua. Para onde? Não sei. Meus vizinhos disseram que são crianças da favela, como se isso explicasse alguma coisa.

No Raul Veiga, bairro vizinho do Vila Três, os jovens passam o dia se drogando à sombra do pé de jamelão do campo Central. Quando querem arrumar uma grana, alguns se levantam e ajudam os motoristas a estacionar seus veículos no estacionamento ali perto, ao lado de um lixão.

São Gonçalo inteira é suja. Podem alegar que isso é culpa do descaso público, mas inclusive o governo Nanci é um sinal de pobreza, pobreza de espírito e de discernimento. Em bairros como Santa Isabel e Sacramento, porcos, cavalos, bois, urubus, pombos e ratos disputam ao mesmo tempo o lixo largado nas esquinas, em plena luz do dia. As pessoas andam pela rua porque não há espaço nas calçadas.

Assim é a segunda maior cidade do Estado do Rio de Janeiro. Os adultos esperando ansiosamente pelo futebol e pelo churrasco do próximo fim de semana, é o mais longe que conseguem sonhar. Uma multidão magra, suada e sem camisa, a maioria negra, gritando no sol “Água é um real!, Guaravita é um e cinquenta!”. As prostitutas e travestis urinando e defecando ao ar livre, no início da noite de Alcântara. As crianças largadas sozinhas pela rua. Os adolescentes se drogando. Os animais brigando por comida no meio do lixo. E os indigentes dormindo em barracas improvisadas, embaixo dos viadutos, afundados na dependência química e no alcoolismo, correndo o risco de serem incendiados a qualquer momento por aqueles que cultivam o ódio.