Nosso racismo define a cor da pele dos pobres

Nosso racismo sustenta a pobreza brasileira

“Se a miséria dos pobres é causada não pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é o nosso pecado”, afirmou Charles Darwin. Como no Brasil três em cada quatro pessoas que estão na parcela dos 10% mais pobres são negras, o pecado dos brasileiros ultrapassa o mal imaginado pelo criador da famosa teoria da evolução das espécies. Porque nosso país determina pela cor da pele quem sofre maior risco de ser jogado na miséria.

No extremo oposto, o topo da pirâmide dos mais ricos, negros são minoria: 18%, de acordo com o IBGE, embora mais da metade da população se declare negra (Agência Brasil).

Negros com curso superior ganham, em média, 29% a menos que brancos com o mesmo grau de instrução. Apenas 4,7% dos cargos executivos das 500 maiores empresas brasileiras são ocupados por negros. Pessoas de pele negra e cabelo crespo, mesmo qualificadas, são menos contratadas para posições de destaque. O estudo O Desafio da Inclusão, do instituto de pesquisa Locomotiva, também verificou que 18% dos adultos brancos têm curso superior, enquanto a porcentagem entre negros é de 8% (Época).

Os brasileiros admitem que existe preconceito de cor no país. Somos racistas. Mas não reconhecemos que somos, individualmente, preconceituosos (Estadão). Somos racistas hipócritas.

A cor da pele não impede o nascimento de um Joaquim Barbosa, por exemplo. Não há dúvidas científicas de que os negros são intelectualmente tão capazes quanto qualquer raça. Eles não emprestaram apenas sua força física à formação do Brasil, mas uma cultura avançada e alta capacidade técnica, como Gilberto Freyre detalhou em Casa-grande & senzala. Acontece que negros vivem sob condições sociais desfavoráveis que tornam menos provável a eleição de um deles como presidente do STF.

Para o negro brasileiro, a vida é ainda mais dura: 71% dos assassinados no país têm a pele negra, bem como 64% da população carcerária. É um massacre, visto que em 2016 61 mil pessoas foram assassinadas ao todo e a quantidade de presidiários atingiu 726 mil em junho do mesmo ano.

Enquanto sofremos com a chaga da pobreza, temos um país inteiro a ser construído. As semelhanças entre o Brasil de hoje e a colônia do século 19 são impressionantes. A atividade econômica abandonou a escravidão, se diversificou com a inclusão de serviços e indústrias, mas continua visando a exploração do trabalhador, com o incentivo do Governo Temer.

Pela cor da pele sabemos quem têm mais chances de ser pobre e de ser revistado pela polícia dentro dos ônibus. Como a pobreza prefere os negros, não há considerável mobilização da opinião pública – influenciada por veículos de informação pertencentes aos ricos e brancos – para combatê-la. Para sociólogos, antropólogos e especialistas em desenvolvimento social, a mudança deve envolver investimento na educação, aplicação efetiva das cotas raciais em concursos, mais rigor na punição a crimes de racismo e formulação de novas políticas públicas.

O papel do negro nos centros empresariais do Rio

O negro não chega de helicóptero aos centros empresariais do Rio de Janeiro. Não deixa seu carro de luxo aos cuidados do manobrista. Não vai trabalhar de bicicleta elétrica, que custa mais de 6 mil reais. O negro não se desloca de camisa de gola polo branca e skate longboard novinho e chega impecável ao trabalho. Não vem caminhando de short e camiseta, direto da academia, pra tomar um banho no vestiário da empresa e começar a trabalhar.

O negro chega de ônibus lotado, suado, antes das 7h, antes de todo mundo. Troca de roupa em uma sala abandonada e empoeirada nos fundos do complexo e coloca o uniforme.

O presidente da empresa não é negro, embora seja brasileiro. Os gerentes e analistas são praticamente todos brancos. O negro não usa terno. Ele apara a grama, arranca folhas secas das palmeiras, poda arbustos. O homem que coloca os sacos de lixo em um carrinho e o arrasta para longe é negro. O manobrista que abre a porta do carro dos visitantes é negro. São negros os seguranças. É negro quem varre, limpa as privadas do escritório, enche as garrafas de café.

O elevador de serviço sobe e desce cheio de negros. O social transporta o branco. O negro anda com a colher e o balde de pedreiro na mão, fazendo pequenos reparos. Cata as folhas que caíram no chafariz na noite anterior.

Depois do expediente, o negro volta pra casa no mesmo ônibus, ele mora longe. Se espreme na porta do coletivo e quase não consegue entrar. Quem mais se dedica à limpeza e cuidado do espaço são os negros. Quem menos aproveita os serviços que dão conforto aos usuários são eles também.

Nanci se rebaixa e arrasta São Gonçalo com ele

Nanci se rebaixa e arrasta São Gonçalo com ele

José Luiz Nanci publicou uma carta ao povo de São Gonçalo na qual declarou “profunda tristeza”. O sentimento não foi causado pela pobreza generalizada que o município de 1 milhão de habitantes sofre. A carta não cita a violência que ataca os gonçalenses nas ruas e os aprisiona dentro de casa. O prefeito ficou profundamente triste porque foi satirizado pelo bloco de carnaval Quem Manda É A Mulher e o vídeo da sátira se espalhou nas redes sociais.

Cartas à população são publicadas com moderação por governantes, diante de questões públicas excepcionais. Nunca com o intuito de defender a honra pessoal contra uma sátira carnavalesca, aspecto cultural brasileiro. Nanci se rebaixou moralmente por uma preocupação excessiva com a própria imagem, imagem que no início do governo se tornou mais importante do que fazer o trabalho para o qual foi eleito.

Repletas da sujeira do comércio informal, de gente que luta pra superar a pobreza, as ruas da cidade estão imundas. Parecemos uma cidade medieval que faz do escambo sua atividade principal.

Através do lixo, da pobreza, da falta de infraestrutura e da escassez de serviços públicos se compreende o tamanho da tragédia gonçalense. Ela não afeta apenas alguns bairros ou comunidades. Desorganização, feiúra e sujeira formam o cenário municipal. Vaza esgoto pra todo lado. Há ruas na escuridão completa. Nos distritos de Ipiíba e Monjolos, que reúnem quase 40 bairros, bois, cabras, pombos, cavalos, porcos, cães e diferentes espécies de animais disputam ao mesmo tempo as pilhas de lixo nas esquinas. Recentemente uma nova espécie passou a ser vista catando comida no lixo: o gonçalense.

Infestada por barricadas, o tráfico de drogas dominou São Gonçalo. Os carros só circulam com o pisca-alerta ligado fora dos centros comerciais. Quando um estalinho explode, as pessoas se jogam no chão, com medo de tiro. Os jovens lamentam a morte de traficantes no Facebook, enquanto a comunidade onde moram é extorquida pelos mesmos traficantes. Segurança pública vai além da ação da polícia estadual e também faz parte da responsabilidade do governo municipal.

Com Nanci na dianteira, São Gonçalo se arrasta no chão, sem ordem, sem progresso, sem futuro. Ela é a cidade mais quebrada dentro de um Estado quebrado e corrupto, o Rio de Janeiro.

E o simpático Zé Luiz perde tempo com blocos de carnaval. Diante do caos, o prefeito se ocupa em empregar o máximo de parentes dentro do Poder Executivo, usurpar direitos do servidor público e rebater acusações sobre sua moleza notória.