Inimigo da Educação

Cada centavo bem investido em educação é uma conquista de 210 milhões de brasileiros. Cada centavo cortado arbitrariamente é um ataque contra o futuro do país, que depende de educação ampla e de qualidade para promover desenvolvimento econômico e social.

Atingindo desde a educação infantil à pós-graduação, o governo Bolsonaro iniciou o bloqueio de R$ 7,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, alegando necessidade de se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal e sobreviver à interminável crise econômica. Embora a lei e a crise existam, a justificativa não é legítima. O governo não planejou os cortes, para melhor adaptação das instituições, nem dialogou com as mesmas. Tampouco o bloqueio seria inevitável, de acordo com 257 deputados federais que assinaram projeto de lei complementar que proíbe o corte de verbas em universidades. A redução orçamentária forçada prova que, do Palácio do Planalto à Esplanada dos Ministérios, a maior pretensão educacional é tão pequena quanto ensinar “para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta”, palavras de Jair Bolsonaro no Twitter a respeito da função do governo.

O valor do conhecimento humano não é bem compreendido pelo time bolsonarista, composto principalmente por militares e radicais ideológicos, classes avessas ao pensamento e à contradição. Portanto, as diversas faces da Educação responsáveis por transmitir conhecimento, entre elas a área de Humanas, não recebem o incentivo merecido do Governo Federal. Desvalorizando de propósito, ele se posiciona como inimigo.

O distanciamento entre o governo Bolsonaro e o projeto de educação que o Brasil aguarda ansioso vem do desprezo pelas raízes e valores nacionais mais íntimos. Bloqueando recursos, sofre em primeiro lugar o pobre, que mais precisa deles. Tantas vezes vilipendiados pelo presidente ao longo de sua carreira política, são atingidos também negros e índios, de uma só vez, com a redução da educação de um povo basicamente formado por essas raças e ainda bastante carente em relação ao estudo da sua origem e capacidade.

Não se retira mais da metade do orçamento livre de um polo de ensino, de um dia para o outro, sem um projeto maligno por trás dessa atitude. Não em um país que arrasta crimes sociais ao longo dos séculos e investe tão pouco por aluno em comparação com países desenvolvidos. A Universidade Federal do Sul da Bahia, por exemplo, perdeu 54% dos seus recursos discricionários. A do Mato Grosso do Sul perdeu 52%.

Professores e alunos estão chocados, preocupados, tristes. Não porque ficaram sem as orgias semanais, isso é estupidez e preconceito. Graças ao bloqueio, muitos já perderam o sonho de contribuir para um Brasil melhor através da pesquisa. Os movimentos negro e indígena também estão mobilizados contra o posicionamento governamental em relação às suas causas porque conhecem na pele os antigos sofrimentos de cada grupo.

O que o governo Bolsonaro pratica não é política educacional, não é evolução. Desconstruindo desde o legado do Patrono da Educação ao sacrifício dos estudantes universitários de maneira descontrolada, ideológica e irracional, vemos a completa “desumanização, o não reconhecimento do outro”. Conceito mais preciso de fascismo na opinião de Leonardo Boff, que o atribui a Jessé Souza.

Qualquer esperança serve

São Gonçalo vive uma longa época de terror. Uma vizinha, que não aguenta mais ser assaltada, resolveu correr dos bandidos. Não adiantou. Ela quebrou o pé tentando fugir e ainda foi assaltada. Talvez precise fazer uma cirurgia. Além dos assaltos, há muitos casos de assassinato e violência sexual, tantos que a sociedade resolver discutir o último tema na Câmara Municipal. A questão, difícil de ser resolvida, é como proteger a mulher gonçalense. Apesar da violência, do desemprego e da falta de serviços simples, como saneamento básico, continuamos mais de um milhão de habitantes e somos obrigados a nos prender a alguma esperança, ainda que singela.

A manhã de hoje começou chuvosa e com a temperatura baixa. Acordei e fui comprar pão. No bolso, para evitar grande prejuízo, só a carteira de identidade e dois reais. Em caso de assalto, minha desculpa já estava pronta.

– Amigo, estou indo comprar pão, nada mais, não trouxe celular.

A mais de cem metros de distância da padaria, eu senti o cheiro agradável do pão no forno. Superando o medo e cada tragédia diária, o padeiro acordou com sua família para preparar e vender o alimento do bairro. Resolvi que o cheiro do pão será minha nova esperança. Enquanto o padeiro tiver coragem de seguir adiante diante do caos, também terei.

É quase inevitável. Há algo inexplicável em São Gonçalo que continua existindo, “apesar de São Gonçalo”, como diria o escritor Rodrigo Santos, gigante das letras. Não é amor, muito menos milagre. É a união dos medos, das poucas alegrias e das inúmeras carências de uma população enorme.

Por exemplo, o medo experimentado pelos moradores do Complexo do Salgueiro e do Jardim Catarina se espalhou através dos áudios compartilhados por mensagens. Cada gonçalense se sentiu prisioneiro. Somos capazes dessa empatia, graças às características demográficas municipais e à tecnologia. Na capital do Estado, o rico não se solidariza com o favelado. Aqui, somos uma favela só.

O ideal seria que o gonçalense ocupasse o Executivo e o Legislativo até Brasília e exigisse um projeto sério para a segurança pública e economia, com prazos e metas. Enquanto não acontece, temos a padaria. As árvores que insistem em florescer no outono. As crianças que de vez em quando se juntam e brincam como nunca. Com medo, mas alegres. As rodas culturais que se espalham de Santa Isabel ao Patronato. O carro do botijão de gás e do ovo, que circulam e gritam pelas ruas.

A vida continua, com ou sem a gente, por isso qualquer esperança serve. Sem esperança, não há luta.

Os copos de guaravita tomaram a cidade

Não há nada mais abundante na cidade de São Gonçalo do que copos de plástico espalhados no chão, copos de guaraná industrializado. Isso antes me incomodava, hoje me surpreende. Pobre, desorganizado e sujo, o cenário urbano do município foi dominado pelo lixo de uma bebida barata, popular e cativante.

É como se, fora de casa, o gonçalense não quisesse nenhuma outra bebida além do doce guaraná artificial. As marcas jogadas nas ruas, nos canteiros, na sarjeta e nas lixeiras que transbordam são várias e algumas têm fábrica na cidade. Embora a Guaracrac seja bastante popular e ainda exista a Guaramor, o nome da marca Guaravita caiu no gosto do povo, por ser pioneira. Assim, geralmente as pessoas chamam qualquer marca de “guaravita”.

Na barraca do churrasquinho, do açaí, acompanhando um salgado na rua, as crianças amam, os adultos não ficam de fora. O guaravita virou uma instituição municipal, visível pelo rastro de sujeira. Se os copos fossem varridos, a cidade pareceria um deserto.

O guaravita está para o gonçalense assim como o chá para o inglês e o saquê para o japonês. Só que a cerimônia do gonçalense é menos sofisticada. Tudo feito com uma mão só, com uma velocidade incrível, ele pede o guaravita ao camelô (que tira a bebida do isopor cheio de gelo), paga, segura o copo, enfia o dedo na tampa de papel laminado, fura, vira o líquido na goela e joga o copo de plástico no chão, no cantinho do meio-fio. Há copos em frente à Prefeitura, à Câmara Municipal, na porta das igrejas, embaixo dos bancos das praças… Adoçando a pobre e violenta rotina de um milhão de pessoas.

Através desse hábito, a criançada descobriu aplicações inusitadas para o copo vazio. Os mais pobres usam o copo para amarrar linha de pipa e para guardar bolas de gude, brinquedo cada vez mais raro. Quem tem bicicleta, prende o copo no pneu da frente, embaixo do quadro, pra fazer um barulho interessante, um pouco dramático, que aumenta de acordo com as pedaladas.

Pelo menos brincar é melhor do que jogar o copo no chão. Problema que não considero mais como um simples sinal de falta de educação do povo. Responsável pelo caos urbano, vejo uma cidade grande, populosa, que não apresenta condições mínimas para lidar com o simples hábito popular de tomar um guaraná na rua. Ainda que a solução fosse a Guarda Municipal multar os porcalhões, como acontece com aqueles que sujam o Centro do Rio de Janeiro até com uma guimba de cigarro.

Através de um copo de refresco, largado tristemente no chão, a grande São Gonçalo subdesenvolvida e subutilizada busca matar a sede e um pouco de dignidade.