A coca-cola mais gostosa da minha vida foi em Alcântara

A coca-cola mais gostosa da minha vida foi em Alcântara

Foto: Júlio Diniz/O São Gonçalo

Fazia bastante calor, daquele tipo que só os frequentadores de Alcântara conhecem. No meio da multidão de pedestres espremidos por si mesmos, pelos carros, pelo barulho e pela poluição, o sol cega de tão forte, a boca perde a saliva em dois segundos e a cabeça estala por dentro, como se carregasse uma bigorna.

Nós estávamos voltando do desfile que comemora o dia em que São Gonçalo se livrou do parasitismo niteroiense ao invés de comemorar o nascimento da cidade, ocorrido três séculos antes. Suando em bicas, uma vizinha, eu e três crianças morrendo de sede e fome depois de acordar cedo e andar a Rua Feliciano Sodré pra cima e pra baixo, aplaudindo a performance dos integrantes do desfile. A menina mais cansada tinha desfilado também, como porta-bandeira da Escola Municipal Almirante Alfredo Carlos Soares Dutra. Coisa linda de se ver, impossível as crianças que participam do desfile anual não desenvolverem amor por essa cidade.

Foi quando ouvi um camelô gritando no meio da rua, naquela esquina conturbada entre a Manoel João Gonçalves e a Estrada Raul Veiga, em frente ao viaduto.

– Olha a coca é um real, coca-cola é um real!

A gente já tinha sentado no banco de uma lanchonete, improvisada dentro do estacionamento do supermercado Extra, pra comer uma coxinha. As crianças bebiam guaravita, faltava minha bebida. Aquele grito repetitivo me atraiu, não consegui pensar em mais nada. Levantei e caminhei rápido, trombando nas pessoas na estreita passagem de pedestres entre a calçada e o estacionamento.

O camelô gritando pisava na água que escorria para o asfalto do isopor de gelo, sujo e cheio de buracos. Tinha ajudante inclusive, um rapaz mais jovem e tímido, certamente menor de idade, que alisava a garrafinha pra tirar o excesso de água antes de entregar o refrigerante aos clientes. Quem recebia o pagamento e calculava o troco era o camelô mais velho, que fazia tudo segurando um maço de dinheiro entre os dedos da mão esquerda. Ambos negros, sem camisa e tatuados nos braços e no pescoço de uma forma meio rústica, primitiva, de traços tremidos. O chefe das vendas tinha a imagem de uma senhora gravada no peito.

Na frente do isopor, colocando a mão no bolso pra pegar o dinheiro, eu pensei: “Essa mercadoria é roubada”. Barata demais, uma grande quantidade sendo comercializada às pressas, no chão. O povo adorando, uma coquinha de 200 mililitros vendida a cada quinze segundos. E mandei o pensamento embora. Torcendo pra que ninguém tivesse se ferido no roubo daquela carga, eu queria aquela sensação pelo menos uma vez, da vida gonçalense sem escrúpulos, preocupada em primeiro lugar com a própria sobrevivência. Porque quando São Gonçalo começar a produzir conhecimento e emprego para tirar jovens camelôs das ruas, ela não será um município limpo, organizado e livre de crimes. Ela não terá vergonha dos seus defeitos, mas fará um esforço verdadeiro para corrigi-los.

Voltei para o meu banco na lanchonete, abri a garrafa e comecei a beber. Com São Gonçalo livre de Niterói e uma coca-cola geladíssima nas mãos em pleno calor de Alcântara.

Nanci desistiu de São Gonçalo e foi fazer compras

Nanci desistiu de São Gonçalo e foi fazer compras

José Luiz Nanci tem o direito de aproveitar seu fim de semana da forma como preferir. Abrindo os botões da camisa até o umbigo e tomando uma cerveja gelada na Praia das Pedrinhas, em um sábado à tarde, sentindo a brisa do mar batendo levemente na barriga. Comprando legumes com a esposa num mercadinho enquanto responde pelo WhatsApp, quase quebrando a tela do celular, às mensagens dos vereadores famintos por cargos no governo. O que o prefeito de São Gonçalo não pode fazer é se ausentar do debate em torno da construção de uma cidade melhor. Não liderar nem propor qualquer iniciativa de transformação social no último ano do seu governo, provando que, desde o princípio, desperdiçou o voto do gonçalense. Ainda por cima, mais omisso do que nunca e distante do sonho de um município sem tanta pobreza nas ruas, parar para fazer compras com toda calma do mundo, como se nada estivesse acontecendo.

Aí, Nanci, você envergonha São Gonçalo. A pobreza e a violência estão crescendo, sem falar na falta de mobilidade urbana e na sujeira do município. As marchinhas de Carnaval que fizeram em sua homenagem, acusando você de não participar ativamente do governo, se mostram verdadeiras. Tanto que a oposição o ignora completamente. Os pré-candidatos à Prefeitura não citam o prefeito atual porque ninguém em sã consciência bate em cachorro morto, embora Nanci tenha dado entrevista aos jornais da cidade alegando querer a reeleição.

Nanci já desistiu de São Gonçalo faz tempo e entregou o controle da sua vida política ao administrador da sua conta oficial no Facebook, que há anos publica fotos do prefeito em poses constrangedoras. Por exemplo, sorrindo sem graça e se apoiando de lado em uma placa com a foto de um metrô, metrô que os mais de 1 milhão de habitantes de São Gonçalo tanto precisam.

A única coisa clara nesse governo iniciado em 2017 foi o favorecimento da família do prefeito com altos salários e cargos em posições estratégicas. Da Comissão Especial de Desenvolvimento, Relações Institucionais, Prospecção e Controle de Receita e Despesa, controlada pela primeira-dama, à Secretaria de Planejamento e Projetos Especiais, comandada pelo genro do prefeito. Não pense que são os únicos parentes empregados. Foram acolhidos com o dinheiro público sobrinhos, primos e seus cônjuges, tanto de Nanci quanto da primeira-dama.

O escândalo do nepotismo promovido às claras por Nanci seria motivo suficiente para derrubar o governo inteiro. Ainda assim, todos, ó Deus, inclusive a mãe do genro de Nanci, ganhando R$ 12 mil por mês no controle da Fundação de Assistência à Saúde dos Servidores de São Gonçalo, desperdiçaram a chance de contribuir minimamente pelo bem do município. Sugaram e sugaram tudo o que podiam sem parar e o que vemos em São Gonçalo novamente é escuridão. A mesma do final do governo Mulim.

Não adianta dizer que os problemas da cidade são grandes demais. Cada político assume o cargo para o qual foi eleito conhecendo os desafios que vai enfrentar. Se não conhece, não merece o cargo. Se não montou estratégias para superar os problemas, também não merece. Nanci não fracassou e desistiu por causa dos problemas de São Gonçalo. Além das suas limitações pessoas, de propósito o prefeito ignora técnicas, tecnologias e soluções da atualidade que ajudam a combater problemas administrativos e de gestão.

A crise em São Gonçalo é tão profunda que até Eduardo Gordo desistiu da política. Saiu em todos os jornais. Cansou de ver tanta safadeza e acusações injustas contra ele. Força, Eduardo. O vice-prefeito desistiu, ou nunca tentou, ocupar um espaço vazio dentro do pensamento a respeito dos rumos que São Gonçalo pode adotar enquanto território. O camelô também desistiu, menos da própria sobrevivência, ao jogar dentro do rio Alcântara as caixas de papelão dos iogurtes roubados que vende. O gonçalense comum desistiu e usa o Facebook para desabafar sua ausência em torno de um engajamento social positivo.

Já Nanci abriu mão do governo para o qual se elegeu. Temos pela frente mais 10 meses com um prefeito tão útil quanto um daqueles bonecos que desfilaram no Carnaval de Olinda. E não podemos culpar o eleitor e aguardar as próximas eleições. O povo que mora nas localidades sem saneamento básico, asfalto e iluminação pública não merece tanto sofrimento.

Explodiu o número de jovens que vendem balas nas ruas de Alcântara

Observações sobre os jovens que vendem balas no sinal

Foto: Filipe Aguiar/O São Gonçalo

A quantidade de jovens, muitos menores de idade, vendendo balas nas ruas e nos sinais de trânsito da região de Alcântara atingiu níveis de vergonha, desespero e revolta. Pelo menos na percepção de um morador de São Gonçalo que circula em Alcântara quase todos os dias desde 1989. Visto que não existem estatísticas oficiais a respeito da questão. O governo de José Luiz Nanci não produz estudos sobre a realidade local, nem incentiva projetos capazes de atacar os problemas do município com inteligência.

O olhar desses jovens, o quanto eles estão focados, é algo bastante peculiar. Parecem dominados pela necessidade de abordar as pessoas, motoristas e pedestres, e vender uma mariola, bala ou amendoim. Quando questionados sobre as vendas, se vão bem ou mal, a maioria tem uma resposta padrão para voltar sua atenção ao próximo cliente o mais rápido possível. Habilidade desenvolvida pela vontade de sobreviver, professora mais eficiente do que qualquer coaching da moda.

Não raro o dinheiro que conquistam nas ruas ajuda no sustento de famílias inteiras, como mostrou a série Os Invisíveis, do jornal O São Gonçalo, publicada em novembro do ano passado. Geralmente vendedor ambulante não foi a primeira opção profissional e os jovens não estão satisfeitos com a própria condição, forçada pelo desemprego e pela crise financeira.

Em Alcântara, conversei com dois primos, João e Pedro, de 15 e 16 anos de idade, enquanto eles vendiam jujuba no estacionamento do supermercado Extra. O bairro onde moram é Trindade, mas o comércio forte e a grande circulação de pessoas em Alcântara atrai os adolescentes em busca de vendas melhores. Vendas que nem sempre acontecem. Na noite em que conversamos, um sábado, eles não tinham vendido o suficiente para comprar um pacote de fraldas descartáveis para o sobrinho de João, que estava a algumas dezenas de metros de nós. A irmã de João vendia mariola em outro ponto do bairro, segurando o filho bebê no colo.

Inclusive no comércio de rua de Alcântara, percebemos algumas diferenças assustadoras que acompanham a cor da pele dos vendedores ambulantes. Quanto mais negro for o jovem, é mais provável que a sua aparência indique cansaço, alienação, sofrimento e desconexão com a realidade, causada sobre possível uso de drogas. Antes de falar com João e Pedro, tentei contato com alguns jovens negros e eles se mostraram inacessíveis, monossilábicos. O Brasil é tão racista e preconceituoso que tenho dúvidas se é preciso lembrar que esse comportamento não tem nenhuma causa racial ou biológica. Alcântara prova algo triste. Até nas atividades menos valorizadas, entre brancos e negros são os negros que suportam o maior peso das decisões que atrasam o desenvolvimento e a igualdade social no país desde o ano de 1500.

Os jovens que vendem balas em Alcântara dizem que frequentam a escola e acredito que estão dizendo a verdade. No período de férias escolares, que terminou no início do mês, a quantidade de vendedores nas ruas nos dias úteis era bem maior. Nos fins de semana, o número de vendedores aumenta e um dos adolescentes que vendem mariola no sinal de trânsito ao lado do valão do Vila Três, bairro vizinho de Alcântara, é sempre o mesmo, carregando de lado a sua pochete com o escudo do Flamengo.

Esse é um caminho de esperança, a escola pode implementar projetos de profissionalização que tirem os jovens gonçalenses das ruas. O setor de tecnologia, por exemplo, é o maior motor de desenvolvimento econômico no mundo inteiro. E São Gonçalo é um gigantesco polo exportador de mão de obra de tecnologia no Estado do Rio de Janeiro.