Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo

Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo

O Rio de Janeiro caiu. É como dizem no jargão militar diante da perda de um território para o inimigo. O controle da lei e da ordem está nas mãos de bandidos. Governantes do Estado roubaram milhões de reais e gastaram em artigos de luxo, viagens internacionais e joias para as esposas e não cuidaram da segurança estadual. A sociedade fluminense, com suas ilhas de riqueza, não se preocupa em expandir o desenvolvimento social, nem com os fuzis saindo das favelas e batendo à sua porta.

Quatro crianças foram baleadas entre os dias 6 e 9 desse mês. Cento e trinta e quatro policiais foram assassinados ano passado (em 2018 esse número tende a ser maior). Seguindo sua própria vontade, criminosos interrompem o tráfego em via expressas importantes, assaltam motoristas e passageiros e aterrorizam a população.

Perto da Cidade de Deus, favela histórica, gigantesca, de onde saíram os homens armados que dominaram a Linha Amarela nas últimas semanas, estão construindo prédios de apartamentos para a classe média. A favela continua na lama, sem saneamento básico ou espaços culturais.

Não funciona a desculpa de que um empreendimento privado não tem relação com a Cidade de Deus. A violência atinge os moradores dos dois lados e infraestrutura, lazer e educação, em conjunto com medidas de segurança, afastam a violência.

O Rio não foi invadido, o inimigo nasce dentro dele, nasce como qualquer pessoa. A chance de um adolescente suíço virar estagiário de vigia de boca de fumo é menor não por diferenças de caráter, mas de desenvolvimento humano. Esperar que jovens vivam acuados pela violência e não sejam violentos é bastante contraditório. E a maioria deles resiste ao aliciamento imposto por traficantes até dentro das escolas públicas. Nomes de facções criminosas estão pichados nas paredes das salas de aula. Tiroteios prejudicaram 146 mil estudantes no ano letivo de 2017 até o mês de agosto, somente na cidade do Rio de Janeiro.

Cada favela é um fracasso do povo e do Governo do Estado. Mais de 2 milhões de pessoas vivem nelas (G1). Traficantes, assaltantes e milicianos decidem quem vive e quem morre, cobram impostos. Em breve suas armas atingirão os filhos dos ricos dentro do carro, de casa ou na barriga da mãe, como acontece há tempos com os filhos dos pobres.

As Forças Armadas apenas temporariamente expulsam a violência para outro lugar. A polícia não consegue servir e proteger a si mesma. O salário é insuficiente, o treinamento também. A profissão ainda fascina crianças e atrai jovens idealistas e àqueles que pretendem extorquir cobrando propina. Heróis e inescrupulosos querem ser policiais.

Quanto mais pobres ficamos, pobres de preocupação pelo outro, mais violento o Estado se torna. Em países decentes, a paz é conquistada através da saúde da sociedade e os casos de transgressão, estes sim, são tratados pela polícia. Justiça social e segurança pública primeiro, depois a força.

Onde dormem os homens que aterrorizam as vias expressas, que saqueiam caminhões de carga e assaltam pedestres? No isolamento dos lugares em que eles crescem, o Rio de Janeiro começou a morrer.

Um comentário em “Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo

  1. Excelente texto. O problema da violência não se resolverá apenas com a a força. A força (Polícia, exército, etc) é um choque de curto prazo, mas a solução definitiva é a educação. E educação de verdade ofertada pelo Estado. Todas as escolas públicas deveriam ser padrão PEDRO II no que diz respeito a estrutura e ensino as crianças e jovens. Abs.

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