Nos últimos 16 anos São Gonçalo foi governada por seres sobrenaturais: um palhaço fantasiado de médico, um demônio enlouquecido, de cabelo vermelho, destruidor de praças públicas, e uma mula metida a besta. Desde 01/01/2017, quando a mula Neli cruzou as fronteiras da cidade e desapareceu de vez, três animais superinteligentes, capazes de falar e pensar, reclamam o poder sobre o povo.

Os três bichos possuem características bastante distintas. O gavião-real, uma das maiores aves das Américas, surpreende as presas distraídas. Rápido e forte, ele pretende alçar voos mais altos que os ceús gonçalenses e da sua capacidade ninguém duvida. A onça-pintada é caseira e apegada ao território. A mais robusta dos três, usa seus músculos para defender sua família no ninho. Numa coisa a onça e a águia concordam: o terceiro animal político gonçalense, a paca, é apática demais para ser respeitada e ficar com as chaves da cidade sob seu domínio. Simpática, fofinha, a paka (na língua tupi), não é tão frágil quanto parece. Noturna, ela tem fama de ser ágil e atenta e só atravessa caminhos que ela mesma construiu.

Alegando ser a herdeira legítima da mula Neli – e provando sua inteligência – a paca começou o ano juntando aliados, visitou igrejas católicas e tornou pública sua imagem gentil. Consideravelmente mais impaciente, a águia decidiu mostrar seu valor subindo em tratores e removendo as intermináveis pilhas de lixo das esquinas de São Gonçalo. Sentindo suas posses e sua importância ameaçadas, a onça encarou a águia com raiva e rugiu alto, obrigando sua adversária a conter o ímpeto predador. Numa atitude inédita, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) se viu obrigado a emitir uma nota reprovando os três bichos por esquecerem a dignidade animal e se sujeitarem à vergonha humana na disputa pelo governo.

A onça e a paca, inimigos naturais, estranhamente possuem uma relação de amizade em que a onça quer o domínio mas não come a paca, prefere mantê-la viva ao seu lado, como um amuleto de luxo. Curiosidades da fauna política.

No final de janeiro, sem a presença dos adversários, a paca esteve na Área de Proteção Ambiental do Engenho Pequeno, levantou a voz, pediu o apoio de outras espécies e saiu de lá fortalecida. A onça adorou, pois sabe tirar proveito do crescimento da amiga.

Incapaz de decidir sobre atacar a onça ou a paca, a águia preferiu ficar quieta no seu canto. Hoje os três fingem uma trégua, se afastaram, mas não enganam os veículos da imprensa que acompanham sua rotina. Cedo ou tarde a paca será comida, disso não há dúvida. O gavião e a onça são predadores talentosos e a paca, coitada, já viveu por tempo demais nesse território inóspito.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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