Dentro do Rodo Grill, São Gonçalo é uma cidade diferente. Incômoda. Localizado em frente da Prefeitura, frequentam o restaurante empresários, membros do governo, vereadores e poucos trabalhadores de verdade.

Bananada pode ser encontrado circulando discretamente por lá. O vereador gosta de pendurar faixas ilegais com mensagens para seus eleitores nos postes de Alcântara e do Vila Três, onde não há fiscalização séria. No trecho onde fica o restaurante, centro do poder público, ele não pendura. Felizmente as faixas improvisadas não ajudaram Bananada a se reeleger.

Nas ruas gonçalenses tem bastante camelô, pregador evangélico, lixo, poluição visual, trânsito e sol. É a São Gonçalo que conhecemos. O Rodo Grill não tem culpa pelo caos externo. Boa parte da culpa é dos frequentadores do Rodo Grill, sem dúvida alguma.

O ar-condicionado do banheiro do restaurante é melhor que o do meu quarto. Mais potente, frio, confortável. Mais eficiente até do que o ar-condicionado das empresas onde trabalhei. Não surpreende a criação de novos negócios diariamente nas mesas redondas do salão, exclusivas, principalmente no verão.

Mesmo dentro de um restaurante, os poderosos buscam distanciamento dos comuns. Nas mesas posicionadas nos cantos, homens e mulheres gesticulam de maneira efusiva, mas refinada. Estilo inalcançável para o camelô extravagante, suado, da praça do Rodo. Eles vestem Lacoste, Tommy Hilfiger. As mulheres usam Dudalina. As joias de ouro fazem os pescoços brilharem e os pulsos reluzirem. Nada comprado na Rua da Feira, nosso querido centro comercial, é coisa importada da cidade do Rio de Janeiro.

Quando passam pela porta de saída, os participantes das reuniões de negócio desaparecem num passe de mágica. Você não os vê caminhando, dentro dos ônibus empoeirados, nem em qualquer outro lugar.

O branco na pele predomina nos quatro cantos do Rodo Grill. Entre os ambulantes do Calçadão de Alcântara e embaixo do viaduto do bairro, negros são maioria.

Nas calçadas intransponíveis do lado de fora, é um tromba-tromba danado entre os pedestres, a vida corre risco caso se desequilibre e caia na rua. Dentro do Rodo Grill a gentileza impera a partir do momento em que a recepcionista abre a porta. Se um papel cai no chão, o garçom logo pega.

As pessoas que controlam São Gonçalo gostam de limpeza, conforto, bacalhau e picanha mal passada. Gostam de ganhar dinheiro também, como a maioria de nós. E que se dane a cidade lá fora.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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7 comentários

  1. Amigo Mario Lima, no seu texto tenho a impressão que o Rodogrill é um templo de luxúria e pecado. Penso, salvo melhor juízo, que o amigo esqueceu de citar aqueles que empreendem na cidade, geram emprego e renda colaborando para a riqueza da cidade. Esqueceu também dos funcionários de bancos, da Ampla, da Cedae e famílias que lá reservam para comemorar seus aniversários. Enfim esqueceu de muita gente boa e ordeira que constroem e mantém nossa querida cidade de São Gonçalo do Amarante.

    1. Concordo, caro Evanildo. O mais grave dos meus defeitos é frequentemente ignorar a bondade que existe no mundo. Obrigado pelo comentário. Longe de ser um templo de luxúria e pecado, o Rodo Grill é um oásis, exemplo da organização que deveria existir no restante da cidade. Tenho certeza de que os frequentadores honestos do restaurante não se sentiram ofendidos pelo meu esquecimento porque a própria consciência basta a cada um.

    2. Parabéns pela resposta Evanildo, concordo com td q vc escreveu, totalmente desnecessário essa colocação acima, parece ate q o Rodo Grill é uma ofensa aos moradores pobres d S. Gonçalo, parece ate q ter ar no banheiro gelando é pecado, q comentario desnecessário, agora a pessoa se preucupar em dar conforto aos clientes q frequentam a casa é ser esnobe com o resto da população, materia infeliz.

  2. Prezado Mario gostei da matéria, achei muito interessante a analogia que em relação ao mundo real e ao que os nossos políticos e principalmente os da nossa cidade vivem. A cada dia que passa vou tendo a absoluta certeza que eles são de uma outra espécie. O mais interessante é que no texto descreve o cotidiano de classe politica cada vez mais indiferente ao próximo, e ainda sim desperdiçamos nosso tempo defendendo se o local é bom, se tem conforto ou se não tem, ninguém comentou sobre os bancos empoeirados das nossas linhas de ônibus, que até hoje não tem um ar condicionado e o verão já esta a porta, a coleta de lixo, não li questionamento sobre o porque a cidade até hoje não tem uma ciclovia, rua da caminhada abandonada, esgotos a céu aberto, mas do restaurante todos nós lembramos…talvez deve ser por isso que a cidade esteja nesse padrão de qualidade horrível. E parabéns mario pelo texto.

    1. Muito obrigado, Saulo. Acredito que a discussão sensata seja o caminho para uma cidade melhor. Fico feliz que parte desta discussão tenha acontecido aqui, com o comentário de todos, e com palavras inteligentes como as suas.

  3. Mario, belo texto! Concordo plenamente com você e essa leitura me fez abrir ainda mais a cabeça. Por quê não deixar o lado de fora do Rodo Grill como é o lado de dentro? Se todos adoramos ir ao restaurante é porque o ambiente é agradável e nos faz bem, muito diferente do restante da cidade. Basta olhar o número de pessoas saindo da cidade todos os dias para ir trabalhar nos municípios vizinhos e só voltando para casa à noite, para dormir.
    Mario, belo texto! Espero que ele seja muito compartilhado e que faça os demais refletirem.
    Queremos uma São Gonçalo igual ao interior do Rodo Grill

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