O morador de São Gonçalo sente que a cidade não lhe pertence mais. O crescimento gradual da violência, com súbitos golpes de crueldade, atingiu seu ápice: facções criminosas decidem a rotina de bairros inteiros. Rebatizadas pela ação de bandidos, as regiões afetadas se transformaram em imensos complexos de tráfico de drogas e medo.

Anaia, Amendoeira, Miriambi e Vila Três, apenas alguns exemplos, deixaram de existir. São agora aglutinações de assaltos, tiroteios e barricadas chamadas de Complexo do Anaia, Complexo da Alma e Complexo de Miriambi. Juntaram-se ao famoso Complexo do Salgueiro em um movimento onde o terror ganha terreno e o cidadão perde o chão onde pisa.

Os dados do Instituto de Segurança Pública sobre São Gonçalo são alarmantes. No primeiro trimestre deste ano o número de roubos a pedestres aumentou 43% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre dez tipos de crime analisados, oito ocorreram mais vezes,  entre eles homicídio doloso e furto de veículos.

A força do fuzil na porta de casa impede o trabalho e o lazer. Ruas onde os jovens tradicionalmente jogavam vôlei e futebol estão desertas. O morador, homem ou mulher, sai de casa cedo para sustentar a família e não sabe se chegará à primeira esquina sem o trauma de um assalto ou violência pior. No retorno à noite, cansado, a mesma incerteza desesperadora. Se estiver de carro cumpre a ordem de ligar o pisca-alerta, ainda que viva no mesmo lugar há anos.

O que diz a maior autoridade pública municipal sobre a crise na segurança? Nem uma palavra. A opinião do prefeito Neilton Mulim sobre a escalada da violência é desconhecida, como se ele morasse em outra cidade ou não compartilhasse dos sofrimentos do povo.

O projeto Rua Nova, menina dos olhos do prefeito, foi interrompido por semanas aguardando autorização do tráfico para continuar. Hoje há ruas asfaltadas recentemente bloqueadas com manilhas, sofás e pedaços de concreto. Trágica ironia. O gonçalense se livra da lama, do esgoto e do buraco e em seguida é aprisionado dentro de casa por bandidos. São eles os novos donos do território.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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