Perseguido por uma vendedora de chips

Foto: Vagner Rosa/Território Gonçalense
Foto: Vagner Rosa/Território Gonçalense

– Chip da Claro, da Vivo, da Tim e da Oi. Claro, Vivo, Tim e Oi! Quer um chip, amado?

Em Alcântara sou perseguido, e amado, por uma vendedora ambulante de chips para celular. Respondo com um “Não, obrigado” pouco amigável, mas não consigo reduzir sua vontade, ou necessidade, de vender. Com voz mais rouca, arrastada e levemente sexy, amanhã ela vai me oferecer chip de novo, naquele mesmo local.

– Chip da Claro; da Vivo; da Tim; e da Oiii…

O local onde nos encontramos é a encruzilhada mais gonçalense da cidade, palco de personalidades políticas como Marina Silva e Lula e disputado por cada candidato nas últimas eleições: à esquerda fica o “prédio do Relógio” (conhecido por poucos como edifício Trade Center), à direita começa o Calçadão de Alcântara e no meio dos dois se instalam os primeiros camelôs da Rua da Feira. Um lugar fabuloso, que não obedece às Leis da Física, onde duas barracas ilegais ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo e a circulação de pessoas é monstruosa.

– Claro, Vivo, Tim e Oi!

– Não, obrigado.

Nosso diálogo é pobre. O vocabulário dela não se estende além dos nomes das operadoras de telefonia móvel. Quando não a ouço berrando ali, e não me oferece um chip, olhos nos olhos, passo sentindo falta.

Baixinha e gordinha, com o cabelo acobreado sempre amarrado pra trás, a vendedora é extremamente ágil. Quando penso que a enganei, sigo por outro caminho, ela surge do nada e grita com força ao pé do meu ouvido: chip da Claro, Vivo, Tim e Oi!

Suada, ela nunca está limpa sob o sol. Seus chinelos carregam a lama de Alcântara, lama que o esgoto à céu aberto não deixa secar. Veste um colete poído na barra, desbotado, bastante encardido. Era vermelho, ficou meio rosa. Parece que ela tem 4 braços, manipula chips e trocos na velocidade do som dos seus berros.

Chip não é um produto de consumo diário. Meu último chip ficou comigo por pelo menos cinco anos. Quando tento explicar para a vendedora que me persegue, ela me interrompe com outro grito estridente. Como os vendedores de chips sobrevivem? Existe demanda no centro de Alcântara até para DVDs pornôs falsificados. Os gonçalenses que batem no peito e dizem “Nunca mais piso em Alcântara” não sabem o que estão perdendo.

Você pode odiar a destruição que Neilton Mulim causou em São Gonçalo. Pode detestar a apatia dos secretários de governo, que se destacam somente por seus cortes de cabelo ridículos, e ter nojo da conivência da maioria dos vereadores. É compreensível até tapar as narinas ao passar por Alcântara, no entanto, não odeie aquele bairro, nem os vendedores de chips para celular.

A democracia gonçalense vista de Alcântara

A menos de 90 dias das eleições municipais, o que mais incomoda em Alcântara, importante polo comercial de São Gonçalo, não são os conhecidos problemas do bairro. Incomoda perceber, vendo as antigas deficiências que se estendem pela cidade inteira, que os gonçalenses ainda não participam plenamente da escolha e exercício do governo municipal.

Alcântara é o ponto perfeito de observação do povo. Graças à fartura de lojas, serviços e oportunidades, gente dos cinco distritos se mistura diariamente entre a Rua da Feira, o Calçadão e o entorno do viaduto da RJ-104. Há pessoas indo e vindo, comprando e vendendo, falando e comendo, sempre com pressa, nunca parando.

As lixeiras transbordam lá mais do que em qualquer outro lugar. Atropelamentos são frequentes na disputa insana entre veículos e pedestres, a lama dos vazamentos de esgoto compõe a paisagem natural, os pontos de ônibus geralmente estão lotados. E o gonçalense circulando em Alcântara não pode refletir por um instante sobre o abandono.

As decisões políticas do Executivo são tomadas à revelia da população, ocupada com o comer e o vestir. A imprensa diária de maior alcance, subordinada aos mandos (e ao dinheiro) do Governo, ignora o impacto dessas decisões no cotidiano quando deveria alimentar a opinião pública com jornalismo de qualidade, pilar central da democracia.

Nas sessões ordinárias da Câmara os vereadores protegem seu “curral” dos inimigos, não raro outros vereadores em atividade, e legislam baseados no mais vantajoso para a manutenção do poder em vez de estimularem o debate político.

O voto obrigatório segue orientações impróprias, como a popularidade do candidato dentro na comunidade, de acordo com o tamanho do investimento na campanha eleitoral. O conhecimento exato sobre as atividades do prefeito e dos vereadores está restrito a poucos indivíduos.

Entre o cidadão e a figura política o distanciamento é tão grande que há pessoas morando sem reclamar em ruas sem asfalto e às escuras porque veem o prefeito como entidade poderosa que tudo sabe e pode castigar. Transformam respeito em precaução, a precaução vira medo pois desconhecem que têm o poder nas mãos.

Os recursos de infraestrutura, transporte e promoção da dignidade humana são geridos em São Gonçalo como se nela vivessem 100 mil pessoas, embora abrigue mais de 1 milhão. Não há tanques nas ruas, mas a falta de informação, cultura e educação se encarrega da restrição da liberdade democrática como em poucas cidades brasileiras.

Alcântara pode ser sensacional

Os gonçalenses conhecem bem os problemas de Alcântara: a sujeira sufoca os pedestres e a desordem leva ao desespero. Mas você se lembra da sensação de andar no bairro quando era criança? Se não se lembra ou conheceu São Gonçalo já adulto, leia, por favor, a continuação do artigo.

Sou gonçalense desde os 7 anos de idade e, como toda criança, via principalmente o lado bom da cidade. O adulto prefere fazer o contrário, dá atenção demais aos defeitos. Morando em São Gonçalo, maltratada pela exploração política, se não agirmos como crianças de vez em quando, enlouquecemos.

Durante a infância, quando um casamento ou aniversário se aproximava, comprar roupas para a festa era a razão que me levava ao Alcântara conduzido pela minha mãe, que trazia o dinheiro no bolso. Chegando em frente ao viaduto, no início do canal que leva ao Vila Três, me deslumbrava sem saber para onde olhar: em poucos segundos passavam por mim catadores divertidos de sucata e papelão, pregadores evangélicos hiperativos, cães abandonados mas amorosos e indivíduos exóticos carregando objetos como bonecas e ursinhos pendurados pelo corpo, personagens do drama gonçalense. O primeiro camelô da esquina oferecendo seus produtos aos berros, embora com simpatia, me fascinava. Percebia a beleza do seu esforço que visava garantir algo importante (o próprio sustento e dos seus filhos).

A enorme quantidade de carros, motos, bicicletas e ônibus, aparentemente triplicados em Alcântara, transformava o ato de atravessar a rua em desafio interessante. O perigo me excitava ao ponto do tempo parar. “De onde vem cada veículo? Para onde vão quando desaparecem?”, questionava. Hoje entendo a importância comercial do bairro, único da cidade que aparece nas placas de sinalização da Ponte Rio-Niterói.

Entrar na Rua da Feira era o auge da rica experiência. Cada camelô parecia uma pequena galáxia amistosa dentro daquele universo de marcas falsificadas, camisas, bonés e bermudas pendurados, um mar de plástico azul cobrindo as barracas (percebe-se ao alcançar determinada altura da rua). Tinha certeza de que era incapaz de olhar sequer o acervo de um único vendedor, tamanha a variedade de produtos.

Minhas pernas infantis se cansavam na metade da busca pela roupa mais barata. Alcançar o final da comprida Rua da Feira era verdadeira vitória para um menino, descoberta prazerosa de que o universo é finito. Após a última loja, apenas um buraco negro abismal, última barreira intransponível.

No passado me sentia o dono das pessoas, lojas e cores que circulam por Alcântara, da vida pulsando. O bairro se oferece por inteiro, cheio de possibilidades, não há outro mais submisso. É permitido fazer o que quiser com ele, até brincar e agir como criança.