Compaixão e indiferença diante da pobreza brasileira

O brasileiro experimenta no máximo dois sentimentos fundamentais quando observa os problemas sociais do País: compaixão e indiferença. Influenciados pelo caráter de cada um, a disputa entre tais sentimentos distribuídos pelo território cria o Brasil do futuro.

Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano elaborado pelas Nações Unidas e divulgado em março, o décimo país mais desigual do mundo é o Brasil. O país tem 43 bilionários (Forbes), 12 a mais do que em 2016, e a soma de suas fortunas está estimada em R$ 550,5 bilhões. Enquanto 17,3 milhões de pessoas vivem com menos de R$ 140 por mês. E em praticamente todos os municípios vemos em grande quantidade moradias incompletas, feitas de madeira ou tijolo cru, sem saneamento básico, água encanada nem infraestrutura digna de serviços, como coleta de lixo. No Maranhão ainda há escolas de paredes de barro e telhados improvisados com palha.

Muitos nascem e morrem sentindo compaixão pelo pobre (talvez o próprio observador). A luta por justiça social exige participação na dor alheia. Um militante fervoroso – seja um jovem estudante ou operário de meia-idade – tende a praticar sua necessidade de mudanças sociais durante longo tempo.

Outros observadores não abrem mão da indiferença. Guardam-na como um objeto que traz orgulho, valioso. Perderam a esperança na construção de uma sociedade saudável.

Dentro dos indecisos os sentimentos se revezam (de tão antagônicos, jamais são experimentados ao mesmo tempo). A duração do sentimento depende da disposição do espírito.

Seres como Michel Temer e Eduardo Cunha, parasitas do Estado, conhecem somente a indiferença por toda a vida. Suas ações corruptas resultam do descaso, que inclui o nojo que sentem pelo pobre.

Afastado do Leblon, bairro onde morava classificado como nobre, e passando por acaso pela Linha Amarela, via expressa do Rio de Janeiro, Sergio Cabral não compreendia os jovens marginalizados usando drogas na beira da pista, fora da escola e longe do trabalho. Se desviasse o olhar do celular e olhasse pela janela do carro, não perceberia a tragédia ali. Tanto quanto Temer e Cunha, Cabral não tem a capacidade humana de se comover, catalisadora de princípios morais.

Bandidos ricos que viajam e compram joias usando o dinheiro do povo revelam desprezo absoluto pelo bem-estar de outros indivíduos. São indiferentes aos pobres.

O carro do vizinho, seu apartamento e a escola onde seus filhos estudam importam para o rico mais do que o garoto sem camisa e descalço fazendo malabarismo com laranjas podres no sinal de trânsito – embora não seja exclusiva das classes abastadas, a inveja acompanha a riqueza. Rico se muda para outro prédio dentro do bairro onde mora para ostentar uma vista do mar mais agradável do que a dos amigos menos ricos. Para que compadecimento?

O pobre se solidariza consigo mesmo. Incríveis projetos sociais nas periferias são criados e mantidos através do suor dos próprios moradores. Gente que passou fome, se libertou do tráfico de drogas, está vivo por milagre e quer salvar outras pessoas.

A pobreza extrema é vista em uma caminhada ao ar livre, pela janela do carro e durante uma volta de ônibus de uma região a outra da cidade. As vítimas não estão condenadas ao sofrimento, nem o observador à indiferença.

Interpretação da pobreza brasileira

De acordo com a estimativa mais otimista do Banco Mundial, 19,8 milhões de pessoas tentarão sobreviver com menos de R$ 140 por mês até o fim de 2017 no Brasil (O Globo). O problema é grave demais para limitarmos suas causas aos erros das gestões presidenciais petistas ou do governo Temer. A pobreza é defeito da organização social humana da qual participamos igualmente.

O Brasil já tem hoje tantos pobres quanto a soma das populações de Bolívia e Paraguai: 17,3 milhões. Lembrando que o critério de definição da pobreza estipulado pelo Governo Federal (menos de R$ 140 mensais) é seis vezes inferior ao salário oficialmente considerado mínimo para uma existência digna.

A fim de combater as consequências da atual recessão econômica que transforma os mais vulneráveis em milhões de novos pobres, o Banco Mundial sugere a elevação entre R$ 600 milhões e R$ 1,2 bilhão dos recursos destinados ao Bolsa Família, que conta com R$ 29,8 bilhões em seu orçamento anual. Criado em 2003, o programa assistencial é reconhecido mundialmente por reduzir a miséria através da distribuição de renda, historicamente mal executada. Em uma escala de 0 a 1, chamada de índice de Gini, que mede o grau de concentração de renda onde o número 1 indica desigualdade máxima, a nota brasileira em 2014 foi 0,515 (LAC Equity Lab).

Não são a causa original da pobreza, contudo, as recorrentes crises econômicas atravessadas pelo País nem o acúmulo de riqueza em poucas e poderosas mãos, mas a gananciosa, e antiga, exploração do trabalho. A ambição impede a igualdade social e garante a manutenção da preconceituosa superioridade hierárquica, financeira e material.

Vem de uma falha de caráter, portanto, a miséria. Um vício produz a condição de pobre e a de observador próximo – embora insensível – da fome, da falta de moradia decente e de saneamento básico nos morros, periferias, viadutos e calçadas. A permanência de um morador de rua é algo tão abominável quanto a escravidão ou o trabalho infantil, a diferença é que a legislação contra o primeiro sofrimento é frágil.

Que outra justificativa teria a construção de desigualdades entre seres naturalmente equivalentes? Atribuímos a penúria do indigente encolhido no chão ao azar por ter nascido de origem humilde, religiosos citam o inevitável e necessário carma, mas, segundo Charles Darwin, “se a miséria é causada não pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é o nosso pecado”.

No final deste ano faltarão quase vinte milhões de passos para o povo brasileiro saldar suas dívidas mais urgentes. É um longo caminho a percorrer, sem atalhos, usando como veículos benefícios trabalhistas justos, capacitação profissional e programas de assistência social (pois ensinar o faminto a pescar antes de saciar sua fome é outra anomalia humana, chamada de hipocrisia).