Sonhei com Aparecida Panisset

Noite passada sonhei com Aparecida Panisset, ex-prefeita de São Gonçalo, antecessora do ser que hoje ocupa a Prefeitura e igualmente afunda a cidade em dívidas, lixo e ignorância. Estávamos em um evento partidário para apresentação dos candidatos às eleições de 2016; eu e Panisset compartilhávamos os mesmos ideais políticos, que sonho absurdo.

Face enrugada, corpo curvado, bem mais idosa, a ex-prefeita interrompia a conversa dos presentes a torto e a direito, impondo sua opinião com um sorriso intrometido sobre qualquer assunto. Fazia questão de ser a única a falar, onde chegava a conversa acabava. Quando serviram salgadinhos, foi a primeira a garantir o seu, avançando sobre a bandeja.

A cabeleira vermelhíssima combinava com a camisa de renda da mesma cor. Quando se aproximou de mim, gesticulando e falando descontroladamente, desfilando seu jeito político provinciano, aproveitei para perguntar:

– Por que a chamada “prefeita das praças” abandonou a Praça Carlos Gianelli, em Alcântara, depois a vendeu para a construção de um shopping? Por que a “prefeita das praças” destruiu três quadras poliesportivas e uma pista de skate no Raul Veiga, e transformou a Praça Chico Mendes na obra mais estúpida, inútil e bizarra que existe no mundo?

Como era um sonho, Aparecida Panisset me respondeu com total sinceridade:

– Mário, a Praça Carlos Gianelli era um tormento, uma feiura só. Eu era incapaz de mantê-la limpa ou reformá-la. As contas da Prefeitura não batiam, e não batem até hoje, não sobrava grana. Os cracudos dominavam o espaço. Alguns foram levados para abrigos, outros insistiam em voltar. Aí surgiu a proposta comercial de concessão da praça, que maravilha, transformá-la em um bonito e grande shopping. Consta no contrato urbanizar o entorno, mas ninguém cobra, o povo esquece, a Justiça engatinha. Fiz amigos para sempre entre aqueles empresários, todos me devem favores. O padre da paróquia logo atrás me apoiou, ganhou a parte dele, hoje não nos falamos mais. A igreja evoluiu, agora tem um pátio bom lá em cima, onde organizam os eventos. Com esta jogada, escondi maravilhosamente a Igreja Católica. Entre o catolicismo e o consumismo, prefiro o segundo, afinal, Jesus abençoa os escolhidos com dinheiro para gastar.

– Mas, Aparecida – disse eu – era a única praça do bairro. As pessoas passam espremidas entre o shopping e a rua, respirando o escapamento dos veículos. Para fugir do sol por alguns minutos, elas se sentam no canteiro do shopping, quase no chão, humilhadas na própria cidade, porque não têm mais praça.

– Era preciso um shopping em Alcântara, imagina – continuou Panisset -, um bairro tão grande, comércio forte. Acabaram os cracudos, você viu? O shopping “bomba”, é um sucesso. Os casais namoram na cobertura, a vista é maravilhosa. Já na Praça Chico Mendes, que homenageava esse agricultor cearense que não sei como veio parar em São Gonçalo, eu quis consolidar um espaço evangélico, temos quase dez templos lá atualmente. Havia uns moleques por ali, roqueiros que vinham encher a cara, uns vagabundos, queria acabar com aquela farra, sumiram todos, viu? Acabei com os cracudos de Alcântara e os cachaceiros do Raul Veiga. Era pra virar referência na região, atrair mais fiéis, construí a Praça da Bíblia de presente para meus amigos pastores. Entreguei uma praça linda, que não foi cuidada, faltou manutenção. Era agradável andar por ali enquanto as passagens bíblicas existiam. Hoje me divirto, as crianças pensam que é um circo, que tem um “globo da morte”. A Justiça me persegue até hoje, por isso a Praça da Bíblia está fechada.

Era difícil interromper Panisset, até mesmo no sonho. Quando passo ao lado da Chico Mendes, vazia de pessoas, repleta de lixo nas laterais e ferros grotescos emaranhados no meio, dá vontade de voltar no tempo e me agarrar ao que era antes. Pais, mães e filhos brincavam nela aos domingos. Entre cracudos e cachaceiros e as duas gestões de Panisset, aceitaria os primeiros de bom grado.