Um povoado desprezível

Os moradores de Oberwil-Lieli preferiram pagar uma multa de 200 mil libras (R$ 1 milhão) do que cumprir a cota imposta pelo governo suíço de receber dez refugiados. Um povoado rico, um dos mais ricos da Europa, que escolhe em referendo, conscientemente, ignorar um grupo de pessoas desesperadas fugindo da guerra e da fome pode ser tranquilamente desprezado pela História. Há maus exemplos suficientes nos livros e seus habitantes, 14% deles milionários, se esqueceram que são seres humanos.

Os votantes que rejeitaram a acolhida (53%) têm medo que os imigrantes destruam aquilo que “trabalharam a vida toda para criar”, o belo povoado. Seus filhos não poderiam mais brincar na rua, disseram, com a presença de possíveis terroristas. Nem um palmo de terra de Oberwil-Lieli pertence mais aos seus habitantes do que a qualquer pessoa necessitada. Não no século 21, em um mundo globalizado de pessoas decentes onde não se restringe a imigração com base na cor da pele, religião ou procedência.

O trabalho árduo lhes trouxe riqueza material mas impediu o desenvolvimento da única habilidade social indispensável, a caridade. E o preconceito de mentes confusas condenou indivíduos honestos em busca de proteção e seus filhos, crianças mutiladas no corpo e na alma por minas e bombas.

O argumento do prefeito de Oberwil-Lieli foi ainda mais estúpido do que o da população preconceituosa: acolher os dez imigrantes incentivaria outras pessoas vivendo em zonas de conflito a atravessar o Mar Mediterrâneo em direção à Suíça. Certamente tem algum parentesco com o prefeito de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Centenas de homens, mulheres, idosos e crianças morrem diariamente afogados e continuarão morrendo, muitos da mesma família. Arriscam a vida porque não há mais esperança do outro lado, permanecer não é uma opção.

Cem mil reais foi a multa estabelecida por cada vida humana rejeitada. Dinheiro suficiente para sustentar o pequeno grupo por pelo menos 1 ano e 4 meses, considerando um salário de R$ 6 mil, comum entre os trabalhadores suíços sem qualificação. Dez pessoas teriam uma noite de sono agradável depois de anos de sofrimento, talvez uma das crianças refugiadas crescesse como cidadã suíça e trouxesse ao continente europeu a coesão política que tanto precisa. Preferiram se manter isolados em vez de salvar outras vidas – hipocrisia.

Oberwil-Lieli é um povoado rico, limpo e organizado sem nada a acrescentar ao complexo mundo moderno, que luta para superar seus problemas, entre eles a imigração em massa, a maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Brasileiros sem direitos

O informe da Anistia Internacional sobre a situação dos direitos humanos no mundo, divulgado dia 23 de fevereiro, obriga aos brasileiros a readmitir que vivem sob um regime secular socialmente desigual, violento e preconceituoso. Presente em mais de 150 países, a proposta da organização não governamental é clara: combater milícias e órgãos do Estado que agridem fatalmente a liberdade, cidadania e integridade física de grupos específicos: pobres, negros, índios, LGBTs e outras minorias.

Nas quase cinco páginas dedicadas ao Brasil (menos criminoso, o Canadá mereceu apenas duas), a Anistia Internacional destacou o alto número de homicídios de jovens negros, antiga vergonha nacional. Em 2014 a chance de um jovem negro ser assassinado no país foi 2,5 vezes maior que a do branco, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que apontou 58 mil assassinatos no mesmo ano. Outro ponto destacado foi a violência das forças oficiais de segurança, refletida nos maus tratos contra a população carcerária, vivendo em condições desumanas, e nas execuções extrajudiciais, como o assassinato de 5 cariocas com idades entre 16 e 25 anos, negros, cometido por policiais militares do Rio de Janeiro.

Desde chefes de família de classe média a senadores e deputados federais, parte significativa da sociedade não compreende que o terror tem alvos preferidos, entre eles crianças e adolescentes moradores de comunidades pobres que evitam até serem vistos na rua sem camisa pela Polícia, pois temem serem confundidos com bandidos. É inadmissível a perpetuação deste preconceito brutal ao longo da História, gerador de fobias sociais profundas, por isso cresce a importância do informe da Anistia, publicado incansavelmente há 54 anos.

A aprovação pelo Congresso do Projeto de Lei 2016/15, conhecido como PL Antiterrorismo, foi o último ato do Estado contra os brasileiros sem direito à moradia digna, vítimas da impunidade e reclusos nas periferias e favelas. O texto amplo, vago do projeto permite que esses cidadãos sejam enquadrados como terroristas caso protestem contra os abusos sofridos, um ataque à liberdade de manifestação.

Se de um lado existem apoiadores de medidas retrógradas, gente que não se incomoda com a pobreza e a injustiça ao redor castigando os mesmos brasileiros desde o período colonial, do lado oposto há indivíduos e organizações que defendem a mistura perfeita de raças que torna o Brasil um país extraordinário. Entre estes encontramos o Progresso.

Detalhes sobre índios assassinados

Nada supera o valor da vida individual humana. Sob esta máxima universal, não há assassinato mais reprovável que o outro. A brutalidade aplicada, no entanto, determina os detalhes estarrecedores de cada ato criminoso e os diferencia entre si. No Brasil merece destaque o grau de violência usado no assassinato de índios nativos desde o início do século 16, especialmente repleto dos requintes mais sórdidos que temos conhecimento.

Não é necessário citar passado tão distante. Há menos de uma semana um índio foi brutalmente assassinado em Belo Horizonte: enquanto dormia sozinho na calçada seu crânio foi afundado por pontapés de um psicopata racista. Poucos dias antes, em Imbituba (SC), a vítima foi uma criança indígena de dois anos de idade que, no colo da mãe, teve a garganta cortada por outro monstro diabólico. Antes de matar usando uma navalha, o lunático acariciou o rosto da criança e disse que era bela, lembra a mãe chocada. Loucura ou disfarce para o golpe fatal? Mais importante é a escolha meticulosa de quem seria atingido – um pequeno índio inocente e indefeso.

Detalhes produzem diferentes níveis de tristeza, alguns humanamente intoleráveis. Roubado por um morador de rua (como ele) enquanto agonizava no chão após aproximadamente quinze chutes e pisões que recebeu na cabeça, o índio adulto é tratado como indigente pelas autoridades mineiras até o momento. Não se conhece sua etnia, nome nem idade, é apenas um índio morto. Tão desconhecido quanto o paradeiro do assassino. Há centenas de anos dizimados, os primeiros habitantes desta terra são equivocadamente encarados como inquilinos indesejados, inclusive no século 21.

O menino Vitor, da tribo Caingangue, resistia à própria extinção vendendo artesanato na rodoviária da cidade catarinense, onde o degolaram. Estima-se que 5 milhões de índios foram assassinados antes dele, evidente genocídio praticado em território nacional e admitido com indiferença, característica que eleva significativamente a fatalidade do caso.

O racista de Belo Horizonte se aproximou da vítima, no meio da madrugada, e chutou tanto a cabeça dela que parecia tentar arrancá-la à força. Não houve tempo nem forças para qualquer tentativa de sobrevivência. Ele provavelmente não sabe que são enormes as chances de possuir origem materna indígena, seu ódio preconceituoso fere diretamente suas raízes raciais e culturais. A ignorância serviu novamente de base para a violência, fato que torna as mortes recentes mais alarmantes, apesar do destaque tímido entre os assuntos discutidos pela opinião pública.

Se o desenvolvimento da nação brasileira tivesse respeitado a figura do índio, bem como do negro de origem africana, a história da nossa formação seria menos desigual e cruel. Teríamos a maior riqueza de um povo, que tanto nos falta quando cometemos horrores: justiça social.