Aquilo que mais amo em São Gonçalo

Alucinações no Alto do Gaia

São Gonçalo é esse cachorro vadio e sarnento que todo mundo chuta e expulsa da porta de casa, da calçada e da frente das lojas. São Gonçalo se levanta, de cabeça baixa, e busca abrigo em outro canto. No frio, embaixo da marquise pra se proteger da chuva, ela se deita sobre um pedaço de papelão sujo.

Como qualquer gonçalense, piso na cidade, que de nada tem culpa. Há mais de três anos jogo na cara dela, publicamente, a violência, o esgoto a céu aberto, as ruas sem asfalto e sem iluminação e ela nunca reclama. Mas amo essa cidade que abraça sem distinção os caídos em seu território. E o que mais amo é esse acolhimento das pequenas coisas por cada um que vive ou somente passa por aqui em direção à Região dos Lagos.

Pichado e enegrecido pelo escapamento dos veículos, cada pedaço de concreto gonçalense diz pra mim:

– Mário, sou eu, sua cidade, faça de mim o que quiser, só não me abandone.

Ouço o mesmo dos bueiros entupidos por copos de plástico, das pedras portuguesas quebradas nas calçadas, de cada árvore cortada pelos políticos do município pra pendurarem propaganda eleitoral. Como não amá-la?

Em um texto recente, critiquei o tamanho minúsculo da praça Zé Garoto, a mais famosa da cidade, localizada no berço do desenvolvimento municipal, quando comparado com o tamanho da população. Acontece que a pequenez da praça permite a sensação de possuí-la por inteiro, na palma da mão. Não se pode sentir isso na Quinta da Boa Vista nem no Parque Ibirapuera.

São Gonçalo precisa de espaços públicos maiores, arborizados, limpos e seguros. Mas nunca vou deixar de me sentir no quintal de casa lendo um livro sentado na praça Zé Garoto, cujo nome oficial homenageia a educadora Estephânia de Carvalho. Ainda que apareça um cracudo ou outro circulando por lá. O cracudo é esperto por estar em um lugar agradável. Inaceitável seria morar em uma cidade sem parar um segundo para respirar ao ar livre e sentir o sol no corpo.

As ruas daki são estreitas, assim as esquinas opostas ficam ao alcance das mãos. São Gonçalo é uma comunidade. Sem inovação política, de baixo avanço tecnológico, mas uma comunidade no sentido original da palavra. A proximidade com as pessoas é impressionante, quase sufocante em lugares como Alcântara.

E quando você sai do centro urbano e visita o ponto mais alto de São Gonçalo, o Alto do Gaia, percebe a maravilha completa. São Gonçalo, na verdade, é gigantesca: são 248 km² (correspondentes a 5% da área da Região Metropolitana do Rio de Janeiro) abrigando mais de 1 milhão de pessoas. Por isso que, embora mal cuidada e com pouca infraestrutura, consegue ser acolhedora.

Removendo as consequências do desleixo político sobre o território, fica a São Gonçalo submissa, pronta. Ela não quer nada, nunca quis. Predominam a farta inocência, a gratuita pureza de alma do solo e do ar.