Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo

Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo

O Rio de Janeiro caiu. É como dizem no jargão militar diante da perda de um território para o inimigo. O controle da lei e da ordem está nas mãos de bandidos. Governantes do Estado roubaram milhões de reais e gastaram em artigos de luxo, viagens internacionais e joias para as esposas e não cuidaram da segurança estadual. A sociedade fluminense, com suas ilhas de riqueza, não se preocupa em expandir o desenvolvimento social, nem com os fuzis saindo das favelas e batendo à sua porta. Continue lendo “Perdemos o Rio de Janeiro para a violência por egoísmo”

O crime é um mal social, não uma escolha do bandido

O crime é um mal social, não uma escolha do bandido

O brasileiro torto e que não compreende o próprio país gosta quando a polícia invade a favela atirando e matando. Aconteceu no Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), há dois meses atrás. Ele idolatra um psicopata violento que também é deputado federal e ambos defendem que “bandido bom é bandido morto”. Chacinas não constroem um país justo e desenvolvido. A ideologia que sociedades dignas praticam são os jovens estudando e trabalhando na profissão que quiserem.

A população carcerária do Brasil alcançou 726.712 pessoas em junho de 2016, de acordo com o Levantamento de Informações Penitenciárias divulgado pelo Ministério da Justiça em dezembro. Mais da metade dos presos (55%) são jovens de 18 a 29 anos e 64% são negros. Quanto à escolaridade, 75% deles não chegaram ao Ensino Médio.

A relação entre baixa escolaridade e criminalidade se repete entre os menores de idade que cometem atos infracionais no Rio de Janeiro, Estado que vive a mais cruel, violenta e abrangente crise de segurança pública da Federação. Segundo uma pesquisa encomendada em 2015 pelo Departamento de Ações Sócioeducativas, para onde são levados os menores infratores, 95% dos internos não haviam concluído o Ensino Fundamental e nenhum deles completou o Ensino Médio.

A educação afasta as pessoas do crime. Já provaram estudos como o Trajetórias Individuais, Criminalidade e o Papel da Educação, publicado em 2016 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Nos 30 bairros mais violentos do Rio de Janeiro, por exemplo, em comparação aos 30 menos violentos, a taxa de reprovação é 9,5 vezes maior nos primeiros.

A taxa de encarceramento por 100 mil habitantes cresce no Brasil desde 1995 (Folha). A polícia não se tornou mais eficiente ao longo dos anos. O Governo Federal não investe o necessário, de maneira adequada, em segurança pública. O desenvolvimento social da população brasileira não é preocupação de todos. Financiando um sistema político sujo, o crime ganha espaço em uma população onde metade dos adultos não concluiu o Ensino Médio (IHU).

Entre 2001 e 2015, 786.870 pessoas foram assassinadas no Brasil (El País). A guerra no Iraque soma 268.000 mortes desde 2003. Se assassinos e ladrões merecessem morrer por suas escolhas, o povo brasileiro seria moralmente inferior aos povos onde os índices de criminalidade são baixos. Não há qualquer inferioridade de caráter em nós, mas estatísticas de desenvolvimento humano graves.

Como a maioria dos presos é jovem e negra, defender a morte de bandidos é aguardar que as crianças de pele negra cresçam no esgoto e na pobreza da favela, tomando cascudo de traficante, para que sejam executadas na adolescência ou na vida adulta. Desprezar a criminalidade exorbitante como um mal a ser socialmente combatido e afirmar que alguém se torna bandido por escolha própria implica em dizer que o brasileiro jovem e negro prefere largar os estudos e praticar o crime. Racismo tão vergonhoso quanto o massacre praticado até a Abolição da Escravatura.

Chacina no Salgueiro humilhou os gonçalenses

Chacina no Salgueiro humilhou os gonçalenses

Sete pessoas foram mortas na favela do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), durante uma operação clandestina do Exército e da Polícia Civil dia 11 de novembro. Mortes que nenhuma das instituições reconheceu até hoje, algo inédito no Rio de Janeiro, como afirmou o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj (UOL). Mortes que formam, portanto, uma chacina cruel e vergonhosa contra a segunda maior população do Estado.

Como se a vida dos gonçalenses não valesse nada, soldados do Exército e agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil se esconderam à noite na mata, encapuzados, para cometer os assassinatos no horário de um baile funk na comunidade. Bandido ou não, nenhum gonçalense ou cidadão brasileiro pode ser ferido ou morto e empilhado no Instituto Médico Legal sem explicações, por isso o Ministério Público abriu uma investigação criminal.

Um jovem de 19 anos, padeiro, é um dos quatro sobreviventes. Em entrevista exclusiva ao Jornal Extra, ele contou que depois de ser baleado nas duas mãos, os atiradores saíram do matagal tiraram uma foto sua e roubaram o seu celular. Nenhum agente socorreu o jovem nem seu amigo, que viajava na garupa da moto e foi atingido na boca, e eles sangraram no local por 3 horas. Esse é o valor que o Exército e a Core atribuem aos gonçalenses.

Ainda mais grave é a chacina contar com a aprovação de muitos moradores da cidade, gente que pode estar entre os mortos e feridos na próxima operação ilegal e defende que bandido bom é bandido morto. Sinal de pouca fé em si mesmo, quando mais do que nunca, diante da violência generalizada, precisamos ser exigentes.

Mesmo se todos os mortos e feridos fossem bandidos, uma sociedade sadia, onde os índices de criminalidade são reduzidos, não é aquela em que o crime se desenvolve e depois extermina os criminosos. Em uma sociedade digna as condições para a prática criminosa são reduzidas pelo esforço comum da Justiça, do desenvolvimento social e da eficiência policial, que compõem a segurança pública.

A vida humana merece respeito profundo e veneração absoluta, seja no Salgueiro ou na Suécia. São Gonçalo não ficou mais segura depois da chacina do dia 11, ficou mais violenta. Informações enviadas pelos leitores do jornal O São Gonçalo indicam que 33% dos bairros do município têm ruas interditadas por barricadas feitas por traficantes de drogas. Barricadas que aprisionam cerca de 400 mil gonçalenses, humilhados por criminosos dentro e fora das forças do Estado.