Tem gente honesta do outro lado de São Gonçalo, onde os cidadãos de bem acusam oportunistas de não pagarem água, luz e TV por assinatura e nunca colocaram os pés porque são bons demais pra isso.

Meninos negros, descalços e sem camisa jogam bola na rua, depois do obstáculo que os gonçalenses não estão autorizados pela força das armas a citar. Meninas ficam em menor número. Na favela, como no asfalto, a presença delas na rua é inferior, desde que o Brasil se tornou essa sociedade patriarcal. Casais de adolescentes fingem assistir o jogo, mas se abraçam e se beijam sentados no meio-fio.

Um vizinho ouve funk no volume máximo. Um jovem aprende a tocar violão dentro do quarto, fechando as janelas pra não ser incomodado pelo funk. Outro rapaz em casa faz aulas de reforço com uma explicadora porque ano passado ficou de recuperação na escola.

O povo ainda aluga mesas e cadeiras pra organizar festas de aniversário. Apesar da opressão da violência, comemoram a vida. O público das igrejas evangélicas diminuiu, mas elas continuam em atividade. Do lado livre da cidade, cada vez menor, louvores e agonia são ouvidos.

Nos fins de semana, os jovens atravessam uma rede de vôlei no meio da rua e brincam até anoitecer. Famílias conversam e se preocupam com o futuro dos filhos na mesa do jantar, buscam uma saída para um lugar melhor pra viver, talvez fora do Estado do Rio de Janeiro. Igualzinho como acontece na casa de qualquer pessoa.

Há brigas e discussões entre vizinhas por motivos banais, como o filho de uma ter batido no filho da outra. Funcionam bar, salão de beleza e outros pequenos comércios. Tem árvore de sombra, goiabeira e pé de amora onde os meninos escalam e se fartam.

Após às 5h, grupos de cabeleireiras e empregadas domésticas atravessam o obstáculo inominável, deixam sacolas de lixo no chão da esquina para o caminhão da coleta e seguem em direção ao trabalho. Unidas sempre. Se uma for assaltada, todas serão.

Quem mora antes do obstáculo que os gonçalenses não podem citar mesmo morando há décadas na cidade, se preocupa em primeiro lugar com a própria segurança. Se o povo do outro lado vive ou morre, não se sabe, o importante é que a intervenção militar contenha a violência do lado de lá.

Publicado por Mário Lima Jr.

Gonçalense, escrevo sobre política e sociedade em defesa da essência humana.

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