Todos os bandidos morreram e o Brasil continuou o mesmo

Os marginais do Brasil (exceto políticos corruptos) morreram no dia 22/04/2017 de uma só vez, por milagre. Deus, que é brasileiro, ouviu as preces do cidadão de bem que ensina o respeito à Lei e à Ordem aos seus filhos e representa a família, a religião e os bons costumes.

Católicos disseram que Nossa Senhora Aparecida intercedeu, evangélicos repudiaram a ideia, mas os dois lados concordaram que foi maravilhoso ouvir os uivos dos assaltantes, assassinos, traficantes e estupradores dentro dos presídios e celas do país.

Com olhos vermelhos esbugalhados por um ódio cego, que escorria como espuma da boca, os presos mataram a si mesmos a foiçadas, golpes de facão e pauladas até sobrar um só, o mais perigoso. Monstro que fez dezenas de famílias chorarem, inclusive os parentes dos presos que trucidou. O último detento Deus fulminou com um raio de luz certeiro vindo do céu que atingiu o crânio do facínora, bem no centro, e saiu pelo ânus.

Sucumbiu a ralé da população carcerária, mais de 600 mil infelizes. Outras centenas de milhares de malfeitores escondidos nos morros e favelas caíram mortos pela própria violência ou pelo raio celeste penetrante.

A imprensa divulgou as imagens gravadas na penitenciárias. Famílias assistiram durante o jantar.

– Bandido bom é bandido morto. Agora meus filhos podem trabalhar, estudar e voltar para casa em segurança – disseram patriarcas, defensores do porte de armas, cuspindo arroz e farofa sobre os presentes à mesa.

Estranhamente nenhum policial morreu, nem entre assassinos de crianças dentro da escola ou na porta de casa. Policiais que executam outros seres humanos não são considerados bandidos pelo povo temente a Deus. Matar é parte do mistério divino.

No Congresso Nacional também não houve mortes, embora bilhões de reais dos miseráveis famintos tenham sido roubados. Ninguém morreu nas prisões federais de Curitiba, nem nas celas privilegiadas com regalias. De frente com Marcelo Odebrecht ou Eike Batista, o pai de família sente respeito, inveja, quase pena porque o empresário é obrigado a lidar com a corrupção para fazer negócios. Se tivesse oportunidade, o brasileiro direito faria o pé de meia dele por “fora” também.

O dia seguinte ao Grande Milagre, ou Grande Obra, como passou a ser conhecida a conquista de 22/04/2017, foi consideravelmente especial. Alguns serviços foram paralisados, como o gatonet e o mototáxi. Meninos e meninas não viram fuzis nem pistolas nas ruas da favela, não ouviram tiros, nem foram obrigados a fazer favores para traficantes. Brincaram em paz. Não havia soldados nem gerentes para operar as bocas de fumo.

Logo viciados em crise de abstinência invadiram as favelas desesperados. No Rio de Janeiro um político playboy chamado Márcio, filho de ex-militar e também político, subiu o morro com arma na cintura e, sem encontrar cocaína à venda, deu um tapa na cara de um moleque de 12 anos para descontar a raiva. Renatinho lembrou que seu falecido irmão mais velho guardava pó dentro da caixa d’água vazia em cima da laje e correu para pegar. Com medo de Márcio, jogou um saquinho para ele e o homem cheirou ali mesmo, na porta da casa do garoto, e acendeu o resto de um baseado que tinha no bolso. Deus exterminou os bandidos conforme pedido, mas não tirou a mesquinhez da alma do brasileiro.

Saciado, Márcio largou uma nota de R$ 50 no chão e Renatinho viu que aquilo era bom. Comprou carne e pizza e levou para casa. Quando encontrou outro viciado tendo alucinações, não pensou duas vezes: subiu na lage, pegou outro papelote e vendeu. Seus amigos viram que estava ganhando dinheiro e varreram o morro atrás de drogas. Um queria tomar o negócio do outro e se armaram para protegê-lo.

Em pouco tempo a tradição foi retomada no país inteiro. A polícia militar, sentindo falta do arrego que ganhava dos traficantes, passou a explorar a molecada menor de idade, antes largada à própria sorte. O brasileiro direito não grita pelo desenvolvimento da Educação, o fim da miséria não aparece nas suas preces.

Em um mês o tráfico apresentou sinais de crescimento inacreditáveis, a violência explodiu, e o povo, tão aflito quanto antes do Grande Milagre, voltou a orar. Ainda sem enxergar mais do que um palmo à frente do nariz a respeito da profunda desigualdade social brasileira e suas graves consequências.

– Deus, execute agora todos os bandidos com menos de 18 anos, por favor. Com seu olhar que tudo sabe, lembre-se desta vez, Senhor, daqueles que podem se tornar bandidos no futuro e mate-os também.

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