Uma criança morreu

Falhamos

Assassinado, vítima de arma de fogo, Herinaldo Vinicius Santana, 11 anos de idade, morreu quarta-feira (23/09) no Rio. No fim da vida, estirado no chão, ele gritava “Quero minha mãe!”, como qualquer criança diante da dor. Fracassamos como sociedade.

Empresas estabelecidas no Estado, as polícias militar e civil, trabalhadores que voltam cansados para casa no fim do dia, políticas de segurança pública, o governador, prefeitos e secretários de governo, todos com o intuito comum de transformar o Rio de Janeiro em um bom lugar para viver fracassaram em sua área de atuação. Nada importa, além da trágica morte de Herinaldo.

Se, com apenas 11 anos, ele apoiava uma facção criminosa, temos outro sinal do fracasso social generalizado, não um motivo para executá-lo. Poucos garotos obrigados a suportar a presença violenta do tráfico de drogas ao seu lado não fazem o símbolo da foto.

Vivendo com a mãe em um hospital abandonado que fica dentro de uma comunidade pobre do bairro Caju, percebemos mais dois equívocos, a moradia precária e a miséria. Falhas seguidas culminaram na morte banal e brutal – com um tiro de fuzil no peito – de uma criança, confirmando definitivamente o colapso da forma como nos organizamos, trabalhamos e habitamos o território. Se houvesse dignidade no Palácio Guanabara e suas dependências, renúncias em massa, a partir do governador do Estado, já teriam ocorrido.

Grande parte da sociedade brasileira não compreende que a única medida eficiente contra a violência, que leva à perda estúpida de vidas humanas ainda no princípio, é igualdade social. Mantemos contradições absurdas, como crianças pobres pedindo esmola nos sinais de trânsito dos bairros ricos, fingindo não sermos responsáveis por elas. Enquanto criminosos usam os locais menos assistidos pelo Estado, que chamamos de favelas, como sua fortaleza.

Quando uma sociedade mata crianças a tiros, disparados provavelmente pela polícia, cúmulo da decadência organizacional, a vida não pode continuar: o trânsito realmente tem que parar, as transmissões de rádio e televisão devem ser interrompidas, as empresas precisam pausar suas operações, pois é necessária uma reflexão séria, abrangente, no mais profundo silêncio, maior que qualquer discussão já realizada no Rio de Janeiro.

Estudar e conseguir um emprego são conquistas incomuns em diversas regiões do Estado. Herinaldo não tinha nada, nem frequentava a escola.

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