Senti falta da gentileza gonçalense em Charitas

A foto é do DiM Carvalho, mestre em fotografar a gentileza gonçalense.

Joguei bola na Praia de Charitas e comi um cachorro-quente na orla de São Francisco entre o fim da tarde e o início da noite de ontem. Experiência boa, só senti falta de limpeza e gentileza. Charitas é mais suja do que a Praia das Pedrinhas, tanto na areia quanto no mar. Mas, como São Gonçalo não é exemplo de limpeza, deixei pra lá. Acontece que, enquanto gonçalense, de gentileza eu não abro mão.

Sem querer, dei um chute forte na bola, pegou de mau jeito, e ela foi em direção ao mar. Antes de cair na água, a bola cruzou, bem devagar, o caminho de uma moça que andava na areia. A bola estava tão lenta que deu tempo da jovem ajeitar o airpod no ouvido, levantar o adidas ultraboost no pé esquerdo e deixar a bola passar por baixo da perna dela. Ela olhou pra bola, virou a cara pra frente e continuou no mesmo passo desengonçado.

Lá fui eu, correndo de longe, pegar a bola no mar de Charitas, que estava mais amarelo do que as valas de esgoto a céu aberto da rua Alexandre Muniz, no Vila Três, antes de passar por obras de infraestrutura. Certo, a moça não tinha obrigação nenhuma de interromper seu exercício e me ajudar. É isso, e outras coisas, que significa ser gentil.

No Morro da Caixa d’Água os vizinhos correm na sua frente pra pegar a bola descendo ladeira abaixo. Deixa eu explicar melhor: gente passando na rua, pessoas que você nunca viu na vida, mais distantes da bola do que os meninos brincando, saem correndo em disparada, atravessando cruzamentos sem olhar pros lados, para impedir que a bola desça o morro até a porta da padaria, lá embaixo. Elas fazem isso sorrindo. E quando não alcançam a bola, ou perdem o equilíbrio e erram o chute, levantam a mão, envergonhadas, e pedem desculpas por terem falhado.

Será que a riqueza rouba a gentileza humana ou a mulher dos airpods é uma exceção em Niterói? Em São Gonçalo a atenção com o outro é regra. Pra fechar o passeio, tomei um sorvete artesanal na Quasar. Ah, em São Gonçalo tem uma Quasar maravilhosa, fica na Rua Coronel Rodrigues, número 442, no Rodo.

Proposta de patriotismo

O patriota ama a sua pátria e procura servi-la. Cabe ao patriota julgar onde a alma de sua pátria está e o que merece ser servido.

Se o futuro de um país depende dos jovens, das crianças e dos adolescentes, eles são os primeiros dignos de defesa. A fome dobrou nas famílias com crianças menores de 10 anos, passando de 9,4%, em 2020, para 18,1% em 2022. Em geral, a fome atinge 37% das famílias com crianças no Brasil (Bora Brasil). O patriota brasileiro que não grita “Queremos um país sem fome!” admite o desenvolvimento de uma pátria de desnutridos, traumatizada.

Aliás, é totalmente contra os interesses da pátria desacreditar levantamentos estatísticos sérios a respeito dos problemas sociais do país, como o alto desemprego entre jovens e o assassinato de milhares deles todos os anos. É antipatriótico rapidamente apontar culpados e encontrar satisfação na acusação, ao invés de agir para a solução dos problemas de forma definitiva.

Turistas estrangeiros vêm ao Brasil para ver de perto aquilo que torna o país especial: a natureza e a alegria inigualável do povo. O patriota que não defende a Amazônia, a Mata Atlântica e os demais biomas brasileiros está ansioso por um país diferente, desértico. A taxa de desmatamento da Amazônia subiu 73% sob o atual governo (BBC).

A essência do brasileiro está na inclinação à amizade, que resistiu aos séculos de escravidão importada e sobrevive ao descaso que causa tanta desigualdade social. O patriota que não exige políticas públicas de incentivo à diversidade cultural nacional, fonte da nossa alegria, na verdade é alguém triste que odeia ver o país sorrindo, cantando, dançando e criando arte.

Ser patriota no Brasil é proteger os jovens, a natureza e a cultura. Cada pessoa é livre para incluir Deus e a família entre seus valores patrióticos, mas um patriota cristão, em um país onde a esmagadora maioria diz acreditar em Jesus Cristo, jamais deixaria de colocar como prioridade as famílias isoladas nas periferias, massacradas pela violência, pela pobreza e por abismos no sistema educacional. Se a principal bandeira do patriota for o direito de carregar uma arma na cintura, a pátria que ele defende é ele mesmo, não o Brasil que mais sofre.

O verdadeiro sentido da romaria à Aparecida

A animação começa meses antes da viagem. As crianças juntam dinheiro pra comprar um brinquedo. Os adultos tentam se lembrar de promessas atrasadas. Até o dia da excursão, no portão das casas não se fala de outra coisa, além das histórias engraçadas de visitas ao Santuário de Aparecida em anos anteriores.

No embarque à noite, falação e alegria total. Os vizinhos evangélicos acordam e colocam a cabeça na janela pra admirar o povo partindo feliz. Dentro do ônibus, os meninos gritam o nome do outro querendo saber quanto conseguiram arrecadar. Pessoas que não se viam há tempos se reencontram e se abraçam.

Já na estrada, todos se calam, um dos organizadores do passeio se levanta e faz a oração inicial. Então rezamos o Terço. Que maravilha é rezar o Terço com amigos em um ônibus em deslocamento. As graças dessa oração poderosa caem sobre nós e se espalham por onde o ônibus passa.

Depois, acontece sorteio de brindes e partilhamos o lanche. Cada um divide o que trouxe e não falta comida pra ninguém. A madrugada avança e o povo dorme. Só Deus é ouvido dentro do ônibus lotado. Só a presença de Deus importa e aqueles que não puderam vir ficaram em um mundo distante.

Em Aparecida, depois de se aproximar o horário da primeira Missa, os romeiros se espalham. O ônibus continua nosso ponto de encontro, enquanto a região do Santuário pertence a cada um para ser explorada. Exploramos com absoluta espiritualidade, de maneira civilizada e, principalmente, com amor.

Lugar de milagres, Aparecida é oportunidade de renovação da fé. Quem é que não espera um milagre na vida? As horas de deslocamento preparam o romeiro através de um encontro com a própria consciência, humana mas ligada a Deus. O principal desejo do grupo é o alcance da Graça segundo a vontade Dele. O pedido é realizado com a voz que vem da alma, não há protestos nem brados porque o barulho não sensibiliza a Deus. Apenas a sinceridade profunda do coração.

O ponto alto da romaria é a Santa Missa, independentemente da origem e do meio de transporte do romeiro. Diante da multidão e pela multidão, Cristo é crucificado. Seu sangue lava os pecados da humanidade, do jeito que sabemos que acontece pela primeira e única vez a cada Missa, desde o Calvário. É o evento mais importante do Universo, não há espaço para mais nada e mais ninguém, autoridade nenhuma na Terra merece a atenção dos presentes, além do olhar piedoso de Jesus.

Cheios do Espírito Santo, alguns com o rosto lavado pelas lágrimas, voltamos para casa carregando doces, lembranças e presentes. Unidos, sempre como amigos que se respeitam, ansiosos pela volta à Aparecida.