No Espaço Raul Veiga todos pertencem à São Gonçalo

Antes de receberem a licença oficial emitida pela Prefeitura, os vendedores do recém-construído Espaço Raul Veiga identificaram as barracas, onde conquistam o pão de cada dia, escrevendo seu nome à caneta no compensado de madeira. Num cantinho, de forma delicada, ou no meio da divisória da barraca, em letras grandes, estava escrito “Maria”, “Nelma”, “Antonio” e outros nomes. Escritos por mãos diferentes que se unem no mesmo pacto de sobreviver em São Gonçalo. Quem realmente precisa da cidade não pensa duas vezes – entrega seu nome, sua vida e tudo o que for necessário sem hesitar.

Os nomes continuam no mesmo local, mas agora ficou difícil lê-los. Alguns vendedores forraram as divisórias com plástico ou papel para decorar as barracas do seu jeito, ou simplesmente penduraram seus produtos na parede para exposição. A licença, plastificada, ocupou lugar de destaque porque desde o princípio o fundamental sempre foi afirmar quem é o dono, ou dona, daquela barraca, daquele pedaço de São Gonçalo. E ai de você se tentar roubá-lo. Ai de mim se eu atrapalhar o trabalho honesto dos meus conterrâneos.

Quem vende no Espaço Raul Veiga pertence à São Gonçalo de maneira especial. Menos importa se por amor ou necessidade. Manifestações opostas dominam as redes sociais, publicadas por gonçalenses que não suportam mais viver no município e gostariam de sair correndo imediatamente, por ódio ou medo. Como passamos bastante tempo online hoje em dia, podemos nos confundir. O fato é que a Internet não reflete com justiça o relacionamento entre São Gonçalo e seu povo. O cidadão gonçalense não passa o dia inteiro no ócio, reclamando da vida, buscando uma chance de se mudar. Na verdade a mudança está distante da maioria da população.

São Gonçalo é fonte de sustento pra maior parte dela. Não é cidade dormitório. Não é celeiro. E quem compra no Espaço Raul Veiga também escreve seu nome nos limites do município e passa a pertencer a ele. Com a irreverência que estudantes do Ensino Fundamental escrevem seus nomes nas carteiras escolares. A alegria infantil tem mais a ver com a vida em São Gonçalo, ainda que cheia de dificuldades, do que a falta de esperança dos adultos que culpam a cidade por tudo no Facebook, no Twitter e no Instagram. Afinal, reunimos nada menos que 20 mil pessoas pra brincar, em uma das maiores festas anuais do município (Prefeitura de São Gonçalo).

Amanhã de manhã, frutas e verduras estarão lá, fresquinhas, no Espaço Raul Veiga. Pra quem quiser tomar um café, tem barraca com salgado e suco. Tem até peixaria, lugar pra consertar o celular, comprar bolsas e outros itens de vestuário. Cada barraca oferece, acima de tudo, uma oportunidade de pertencer à São Gonçalo.

Quando a escravidão for abolida

Quando a escravidão for abolida, o jovem negro sairá à noite para se divertir, ao lado do branco, sem medo de ser o único parado pela polícia por causa da cor da sua pele, e frequentemente agredido. Ele entrará de mochila e chinelo no shopping e não será impedido de circular pelo segurança. O relógio que acabou de comprar de presente para seu pai não será roubado por aqueles que deveriam garantir sua proteção e o bom funcionamento do estabelecimento.

O primeiro artigo que nós leremos na Internet de manhã defendendo a igualdade racial terá sido escrito por um homem ou mulher negra. Negros ocuparão os postos mais cobiçados na Medicina, no Direito, na Engenharia, nos palácios em Brasília e nas novas economias, como aquelas ligadas à Cultura e ao Meio Ambiente. O medo exclusivo de existir como cidadão, que no passado apenas negros sentiam, será debatido nas escolas, museus e associações de moradores para que ele nunca mais volte. Para que ninguém sofra outra vez como vítima majoritária da violência.

O jovem trabalhador negro, recém-contratado pela empresa, não será mais barrado na portaria do prédio, confundido como entregador de quentinhas. Todos saberão que ele pode ser tanto o presidente da startup quanto o faxineiro ou secretário. Os levantamentos estatísticos dirão que brancos não são preferidos para ocupar cargos de chefia. E negros não tem maiores chances de sofrerem morte violenta.

O Brasil é escravo do racismo, da violência, da injustiça social e do ódio. No dia da liberdade o país não sentirá mais medo porque o extermínio racial terá, enfim, sido vencido. Depois de existir por séculos, matando e destruindo famílias, e mesmo assim jamais deixando de ser um tabu. Nesse dia, quem dirá ao microfone o que o Brasil deve fazer para garantir o bem-estar das crianças do país, negras, indígenas, imigrantes e brancas, será um homem negro, eleito pelo povo. Brancos já ocuparam esse espaço por tempo demais e por tempo demais mantiveram o país banhado no sangue de gente inocente.

Brancos não tentarão evitar que o poder e a economia sejam compartilhados porque entenderão que a alma brasileira é mestiça desde o nascimento. Desde o primeiro filho europeu e indígena de pai e mãe. Quando esse dia chegar, defenderemos juntos que a liberdade brasileira nunca seja atacada. Que nenhum povo, isolado nas florestas do Norte ou habitando favelas nas demais regiões, seja massacrado para benefício de ricos e corruptos.

O camelô mais simpático usa tornozeleira eletrônica

Ele fica no sinal da Praça Chico Mendes, em frente ao viaduto de Alcântara. Nunca em grandes grupos, no máximo três vendedores no total. Corre pra cima e pra baixo, da calçada pra rua, geralmente sem camisa, carregando uma caixa de balas de goma de menta e mais nada. Nada no corpo, além da bermuda preta, dos chinelos e da tornozeleira eletrônica no pé esquerdo. Já no espírito, o camelô magro e alto traz tanta alegria que contagia quem passa no local.

Testemunhei uma viatura do 7º Batalhão da Polícia Militar sendo vítima da simpatia desse camelô. A viatura parou no sinal fechado, o rapaz se aproximou correndo da janela – a realidade diz que poderia ter tomado um tiro – e ofereceu sorrindo o pacotinho de balas. Não houve tiro, o único crime foi obstrução do trânsito. O semáforo abriu para veículos e a viatura do batalhão de caçadores, que não caça pra soltar depois, ficou lá parada no meio da rua, comprando jujuba e bloqueando o fluxo. Por longos instantes saía dinheiro pela janela e entrava pacote, todos os ocupantes do carro devem ter comprado em solidariedade ao vendedor. Se alguém mais viu a cena, também sentiu esperança em um Rio de Janeiro de paz e respeito.

Quando os clientes vão embora, o camelô sai do asfalto, volta pra debaixo da marquise pra se proteger do sol e se agacha. De cócoras, muda a ordem dos pacotinhos na mão, acerta de um lado, sacode as balas do outro pra misturar o açúcar com a goma, e se concentra esperando o sinal fechar de novo. A mudança no humor do vendedor é clara. Do que ele se lembra, só ele sabe. O rosto fica sério, o olhar atravessa a Praça Chico Mendes, o muro das casas do outro lado da rua e para em um ponto distante impossível de descobrir. Agachado, sem vida, parece voltar a ser um dos mais de 800 mil presos que compõem a população carcerária brasileira, a terceira maior do mundo.

O transe é quebrado assim que o fluxo para. Então, ele não pendura um pacotinho em cada retrovisor, como os concorrentes. Especializado em uma estratégia de venda diferente, o rapaz escolhe um veículo na fila, levanta e ataca a janela do carro dando “Bom dia!” ou “Boa tarde, quer uma balinha pra ajudar?”. A maioria dos motoristas não resiste porque se sente verdadeiramente escolhida pra comprar e fazer o bem, no meio de uma fila de outros motoristas e possibilidades. Dizendo ao cliente que ele é único e querido, a abordagem do camelô garante a alegria geral, apesar dos nossos crimes.