Na Estrada do Pacheco tudo se mistura

É confuso caminhar em qualquer trecho da longa Estrada do Pacheco. Nela se misturam o abandono governamental, a inocência do passado que resiste em São Gonçalo e uma clara tentativa de desenvolvimento comercial e habitacional. Informação demais numa estrada que conta com outras combinações inusitadas, como camelô vendendo salgado na frente de restaurante japonês.

Durante a saída escolar do turno da tarde, quando o trânsito ruim consegue piorar, nenhum lugar em 248 km² de território municipal se compara à diversidade da região cortada pela Estrada do Pacheco. Nem mesmo Alcântara, onde o caos já está estabilizado. Um extremo da estrada é ligado à Estrada Raul Veiga, mais urbanizada e com pelo menos dois prédios comerciais de grande porte. Na outra ponta ela está conectada à Estrada do Sacramento, que lembra a São Gonçalo do passado onde predominavam mercearias e bares humildes. Como a Estrada do Pacheco é uma via de mão dupla, nesse horário o princípio de urbanização e a vida rudimentar se cruzam o tempo inteiro com pais, responsáveis e estudantes de idades diferentes na rua.

Aí que mentes não acostumadas a essa intensidade toda conseguem se acalmar. Quando percebem que os protagonistas da Estrada do Pacheco são os gonçalenses, ao invés de motos barulhentas e imóveis antigos transformados em lojas. Em São Gonçalo o povo não se esconde em casa.

Além das calçadas, alunos das escolas da região ocupam o lado esquerdo do terreno enorme em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1844 (Histórias e Monumentos). No lado direito do terreno está instalado um circo. Juventude correndo pra lá e pra cá, tesouros históricos e até circo, ou eventualmente parque de diversões, vemos na Estrada do Pacheco. Ninguém passa por ela sem sentir na pele do que São Gonçalo é feita.

Os adolescentes mais velhos se sentam na porta da Igreja pra namorar. Aqueles que só querem conversar ficam no pátio da paróquia, embaixo da sombra das árvores próximas da porta lateral. Quem veio para brincar leva bola e organiza jogos sem tirar o uniforme escolar. Elemento raro longe da área rural, o gigantesco espaço aberto completa a mistura nesse trecho da Estrada do Pacheco. Que além de história, sobrevivência e alegria, inclui beleza.

Defender a vida sob qualquer condição

É resultado da vida toda ação ou pensamento humano, por menor que seja. Inclusive atos e intenções que não respeitem plenamente a vida. Discutir quando ela começa é estupidez. Do ventre materno à velhice, cada vida humana possui valor único e deve ser amada e defendida sob qualquer condição.

A vida não perde valor nem quando alguém aponta um fuzil. Por isso, um país com dignidade não parabeniza a polícia depois que bandidos são mortos em confronto. Uma sociedade decente lamenta o risco que a polícia sofreu e trabalha duro, sem comemorar, para que as armas sejam retiradas das ruas, dos morros e das periferias e ninguém – principalmente a polícia – seja ameaçado por elas.

Protestar contra o aborto e abandonar mulheres que buscam clínicas clandestinas e morrem durante o procedimento permite a manutenção do país injusto em que vivemos. Elas precisam ser ouvidas e acolhidas antes que matem ou morram, a vida delas tem tanta importância quanto aquela que carregam no ventre.

A primeira célula logo após a concepção envolve todo amor de Deus pela humanidade. Então o que Jesus Cristo faria diante de uma menina de 10 anos grávida depois de ser estuprada? Sua primeira atitude seria um abraço de tanta compaixão que a morte passaria longe dali. Assim deveríamos agir, ao invés de perseguir a garota e a família dela com blasfêmias. A lei humana que permite o aborto após o estupro é a mesma que autoriza a polícia, aplaudida, a atirar em legítima defesa. Mas se a vida fosse defendida sob qualquer condição, matar jamais seria legítimo.

Esquecemos o bebê faminto em casa, o menino e a menina pedindo esmola na rua e o jovem recrutado pelo crime. Não há campanhas em defesa da vida deles. A família que conta com discursos de proteção é aquela que admite a morte de mulheres que desejam abortar, que aceita chacinas nas favelas, envolvendo inocentes, e que sequer se preocupa com 33 milhões de brasileiros passando fome (CNN). No cálculo final, há mais desprezo do que valorização da vida, embora sejam tão diversas as condições que afetam o destino das pessoas.

Niyara leva mulheres em situação de vulnerabilidade à universidade

Cumprindo um trabalho social valiosíssimo, no número 280 da Rua Gustavo Mayer, no Vila Três, funciona um centro de acolhimento e aprendizagem que transforma a vida de mulheres de São Gonçalo e até de outras cidades. Mulheres que perderam a esperança – depois de perderem a liberdade, em alguns casos – são acolhidas pelo Niyara e orientadas a voltar a estudar. Além da orientação, o Niyara oferece as aulas, o apoio necessário e muito mais.

Distribuição de cestas básicas, guarda-roupa solidário, biblioteca comunitária com clássicos nacionais e literatura preta, não divulgada nas escolas, cursos profissionalizantes de manicure e designer de sobrancelhas, apoio à saúde feminina, lições de cidadania e aulas preparatórias para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) são algumas ações que o Niyara realiza com trinta mulheres assistidas.

Nas ações especiais para crianças, o número de famílias impactadas se aproxima de quarenta famílias e por volta de setenta crianças se divertem no espaço, onde até a diversão ensina que cada brasileiro deve ser representado e ouvido para que seus direitos e deveres sejam respeitados. Lá as crianças veem com os próprios olhos que o Papai Noel pode ser preto, como elas, e o Pantera Negra é um super-herói mais consciente, moderno e inteligente do que a maioria.

O próximo evento infantil será a Ação Sorriso de Criança, dia 22 de outubro. Ótima oportunidade para conhecer o projeto porque tudo o que ele faz é mantido através de doações. Todos os meses um esforço enorme é necessário para arrecadar as cestas básicas doadas, principal ação do centro de acolhimento. O Niyara também conta com a dedicação voluntária de profissionais de especialidades diversas, como enfermeiras e professoras.

Procure o Niyara se você precisa de ajuda, desde o mais simples aconselhamento. De acordo com as mulheres que frequentam o projeto, através dele elas realizam sonhos que jamais ousaram sonhar, como cursar Psicologia em uma universidade depois de viverem atrás das grades. Aberto a qualquer mulher, o centro está preparado para promover a dignidade daquelas que mais sofrem nas periferias. No Brasil, 63% das casas em que mulheres negras lutam pelo sustento da família estão abaixo da linha da pobreza. Para residências em que mulheres brancas são responsáveis pelo sustento familiar, o percentual é de 39% (CartaCapital).

Procure o Niyara (@niyara_acolhimento) se puder ajudar doando cestas básicas ou mesmo que sua ajuda não seja material. Conhecer esse maravilhoso centro de acolhimento e aprendizagem renova a esperança de qualquer pessoa.