Quando a escravidão for abolida

Quando a escravidão for abolida, o jovem negro sairá à noite para se divertir, ao lado do branco, sem medo de ser o único parado pela polícia por causa da cor da sua pele, e frequentemente agredido. Ele entrará de mochila e chinelo no shopping e não será impedido de circular pelo segurança. O relógio que acabou de comprar de presente para seu pai não será roubado por aqueles que deveriam garantir sua proteção e o bom funcionamento do estabelecimento.

O primeiro artigo que nós leremos na Internet de manhã defendendo a igualdade racial terá sido escrito por um homem ou mulher negra. Negros ocuparão os postos mais cobiçados na Medicina, no Direito, na Engenharia, nos palácios em Brasília e nas novas economias, como aquelas ligadas à Cultura e ao Meio Ambiente. O medo exclusivo de existir como cidadão, que no passado apenas negros sentiam, será debatido nas escolas, museus e associações de moradores para que ele nunca mais volte. Para que ninguém sofra outra vez como vítima majoritária da violência.

O jovem trabalhador negro, recém-contratado pela empresa, não será mais barrado na portaria do prédio, confundido como entregador de quentinhas. Todos saberão que ele pode ser tanto o presidente da startup quanto o faxineiro ou secretário. Os levantamentos estatísticos dirão que brancos não são preferidos para ocupar cargos de chefia. E negros não tem maiores chances de sofrerem morte violenta.

O Brasil é escravo do racismo, da violência, da injustiça social e do ódio. No dia da liberdade o país não sentirá mais medo porque o extermínio racial terá, enfim, sido vencido. Depois de existir por séculos, matando e destruindo famílias, e mesmo assim jamais deixando de ser um tabu. Nesse dia, quem dirá ao microfone o que o Brasil deve fazer para garantir o bem-estar das crianças do país, negras, indígenas, imigrantes e brancas, será um homem negro, eleito pelo povo. Brancos já ocuparam esse espaço por tempo demais e por tempo demais mantiveram o país banhado no sangue de gente inocente.

Brancos não tentarão evitar que o poder e a economia sejam compartilhados porque entenderão que a alma brasileira é mestiça desde o nascimento. Desde o primeiro filho europeu e indígena de pai e mãe. Quando esse dia chegar, defenderemos juntos que a liberdade brasileira nunca seja atacada. Que nenhum povo, isolado nas florestas do Norte ou habitando favelas nas demais regiões, seja massacrado para benefício de ricos e corruptos.

Fisioterapia para Amanda e medicamento para Noah

No dia 8 de novembro de 2021, Amanda e Noah voltavam a pé pra casa, à noite, depois de Amanda levar o filho ao médico para uma consulta de emergência. Noah tem 4 anos e sofre de epilepsia.

No meio do caminho eles caíram em um buraco de um viaduto mal conservado pelo Estado na rodovia RJ-104, no bairro Alcântara, em São Gonçalo (RJ). Amanda quebrou ossos da bacia, do fêmur, do pé direito e teve traumatismo de múltiplos órgãos pélvicos. Noah quebrou o braço direito. Sozinhos no escuro embaixo do viaduto, os dois gritaram por socorro por mais de uma hora, nas margens de um rio poluído e ao lado de um lixão. Ratos e baratas passavam por cima deles e Amanda chegou a desmaiar ao lado do filho. O primeiro a socorrê-los foi um homem em situação de rua. 

Noah não teve sequelas físicas, mas chora quando a mãe fecha os olhos e ele lembra do desmaio. Amanda precisou passar por cirurgias e continua sobre uma cadeira de rodas desde o acidente. Mãe solo, nunca mais pôde trabalhar como diarista e ela e o filho se alimentam com doações e através do Auxílio Brasil. Por falta de transporte para a fisioterapia, Amanda não está se recuperando como deveria para um dia voltar a andar e trabalhar. Ela perdeu os movimentos do pé direito.

Amanda apresenta sintomas de depressão e seu pedido para ter esperança é:

1. R$ 400 para pagar o transporte por aplicativo para 20 sessões de fisioterapia.

2. R$ 720 para garantir por 1 ano o remédio de Noah contra a epilepsia. 

O medicamento se chama Depakene e o custo de R$ 60 por mês se tornou pesado demais, já que Amanda não pode trabalhar.

As sessões de fisioterapia foram receitadas em dezembro e continuam pendentes. Elas serão realizadas em um posto de saúde em um bairro vizinho. Devido ao acidente, Amanda ainda sente dores, não pode se deslocar sozinha na cadeira de rodas e não pode lutar pelo direito de um transporte gratuito. Não circula ônibus na comunidade onde ela mora, no bairro Raul Veiga.

Dezessete imagens de laudos médicos e documentos da Amanda estão no Google Drive. Contribuições de qualquer valor serão muito importantes para essa família!

Para acessar a vaquinha virtual para ajudar Amanda e Noah, clique aqui.

São Gonçalo não tem culpa se você não subiu na vida

São Gonçalo não tem culpa se você não subiu na vida

Foto: DiMCarvalho

Dois tipos de publicação sobre São Gonçalo se destacam com mais frequência no Twitter: fotos de bandidos levantando o fuzil pro alto, ostentando pulseiras e relógios de ouro, e jovens reclamando que não subiram na vida porque São Gonçalo é uma cidade cheia de problemas e de pessoas sem ambição. Jovens que não conhecem a história da cidade, como a maioria da população.

Sobre a ambição gonçalense, ela realizou a segunda corrida automobilística em solo brasileiro. Desenvolveu técnicas agrícolas copiadas no Rio de Janeiro inteiro. Já derrubou o governador do estado, à força, porque mantinha impostos injustos. E se tornou o jogador de futebol mais caro do mundo, caso o leitor prefira fatos recentes de sucesso pessoal. São apenas alguns exemplos do que São Gonçalo é capaz de fazer. Sim, no presente mesmo. Uma cidade de um milhão de habitantes pode sofrer de falta de oportunidades, mas jamais perderá habilidades.

Caso você se sinta assim, oprimido pela vida em São Gonçalo, vale lembrar que você não mora em uma cidade do interior do Brasil isolada da capital do estado por centenas de quilômetros de distância. Divide com alguém um apartamento perto do Centro do Rio, faz uns cursos lá, arruma um emprego flexível e volta pra São Gonçalo a fim ensinar o que você aprendeu. Se São Gonçalo não está à altura dos seus sonhos, a cidade não tem culpa. É ela a primeira vítima da falta de investimento, de empregos com bons salários e dos traumas que causamos.

Está difícil arrumar trabalho no Rio também, né? Viu, São Gonçalo não é responsável pela crise econômica mundial. E você não tem dinheiro nem pra passagem do ônibus Alcântara x Castelo. Então pare de reclamar nas redes sociais por um mês, poupe a franquia de Internet do seu celular e assista alguns tutoriais gratuitos de programação no YouTube. A oferta de empregos na área de tecnologia aumenta a cada ano.

O custo será zero se você usar o wifi do vizinho. Afinal, subir na vida exige sacrifícios. Rotinas de estudo e treino, durante longos anos, que podem até impedir sua vida social, depende do quanto você quer ganhar por mês. Manda uma mensagem pro Vinicius Jr., fala que você é gonçalense e quer subir na vida, ele vai te explicar. Provavelmente você sabe das dificuldades, só não está se sacrificando nem um pouco ainda porque aceita cada convite pra sair dos amigos que você chama de atrasados, preguiçosos e burros. Pode ser você atrapalhando a vida deles. Culpar São Gonçalo por nossas falhas pessoais deveria ser crime, como o porte ilegal de armas.