Defender a vida sob qualquer condição

É resultado da vida toda ação ou pensamento humano, por menor que seja. Inclusive atos e intenções que não respeitem plenamente a vida. Discutir quando ela começa é estupidez. Do ventre materno à velhice, cada vida humana possui valor único e deve ser amada e defendida sob qualquer condição.

A vida não perde valor nem quando alguém aponta um fuzil. Por isso, um país com dignidade não parabeniza a polícia depois que bandidos são mortos em confronto. Uma sociedade decente lamenta o risco que a polícia sofreu e trabalha duro, sem comemorar, para que as armas sejam retiradas das ruas, dos morros e das periferias e ninguém – principalmente a polícia – seja ameaçado por elas.

Protestar contra o aborto e abandonar mulheres que buscam clínicas clandestinas e morrem durante o procedimento permite a manutenção do país injusto em que vivemos. Elas precisam ser ouvidas e acolhidas antes que matem ou morram, a vida delas tem tanta importância quanto aquela que carregam no ventre.

A primeira célula logo após a concepção envolve todo amor de Deus pela humanidade. Então o que Jesus Cristo faria diante de uma menina de 10 anos grávida depois de ser estuprada? Sua primeira atitude seria um abraço de tanta compaixão que a morte passaria longe dali. Assim deveríamos agir, ao invés de perseguir a garota e a família dela com blasfêmias. A lei humana que permite o aborto após o estupro é a mesma que autoriza a polícia, aplaudida, a atirar em legítima defesa. Mas se a vida fosse defendida sob qualquer condição, matar jamais seria legítimo.

Esquecemos o bebê faminto em casa, o menino e a menina pedindo esmola na rua e o jovem recrutado pelo crime. Não há campanhas em defesa da vida deles. A família que conta com discursos de proteção é aquela que admite a morte de mulheres que desejam abortar, que aceita chacinas nas favelas, envolvendo inocentes, e que sequer se preocupa com 33 milhões de brasileiros passando fome (CNN). No cálculo final, há mais desprezo do que valorização da vida, embora sejam tão diversas as condições que afetam o destino das pessoas.

Niyara leva mulheres em situação de vulnerabilidade à universidade

Cumprindo um trabalho social valiosíssimo, no número 280 da Rua Gustavo Mayer, no Vila Três, funciona um centro de acolhimento e aprendizagem que transforma a vida de mulheres de São Gonçalo e até de outras cidades. Mulheres que perderam a esperança – depois de perderem a liberdade, em alguns casos – são acolhidas pelo Niyara e orientadas a voltar a estudar. Além da orientação, o Niyara oferece as aulas, o apoio necessário e muito mais.

Distribuição de cestas básicas, guarda-roupa solidário, biblioteca comunitária com clássicos nacionais e literatura preta, não divulgada nas escolas, cursos profissionalizantes de manicure e designer de sobrancelhas, apoio à saúde feminina, lições de cidadania e aulas preparatórias para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) são algumas ações que o Niyara realiza com trinta mulheres assistidas.

Nas ações especiais para crianças, o número de famílias impactadas se aproxima de quarenta famílias e por volta de setenta crianças se divertem no espaço, onde até a diversão ensina que cada brasileiro deve ser representado e ouvido para que seus direitos e deveres sejam respeitados. Lá as crianças veem com os próprios olhos que o Papai Noel pode ser preto, como elas, e o Pantera Negra é um super-herói mais consciente, moderno e inteligente do que a maioria.

O próximo evento infantil será a Ação Sorriso de Criança, dia 22 de outubro. Ótima oportunidade para conhecer o projeto porque tudo o que ele faz é mantido através de doações. Todos os meses um esforço enorme é necessário para arrecadar as cestas básicas doadas, principal ação do centro de acolhimento. O Niyara também conta com a dedicação voluntária de profissionais de especialidades diversas, como enfermeiras e professoras.

Procure o Niyara se você precisa de ajuda, desde o mais simples aconselhamento. De acordo com as mulheres que frequentam o projeto, através dele elas realizam sonhos que jamais ousaram sonhar, como cursar Psicologia em uma universidade depois de viverem atrás das grades. Aberto a qualquer mulher, o centro está preparado para promover a dignidade daquelas que mais sofrem nas periferias. No Brasil, 63% das casas em que mulheres negras lutam pelo sustento da família estão abaixo da linha da pobreza. Para residências em que mulheres brancas são responsáveis pelo sustento familiar, o percentual é de 39% (CartaCapital).

Procure o Niyara (@niyara_acolhimento) se puder ajudar doando cestas básicas ou mesmo que sua ajuda não seja material. Conhecer esse maravilhoso centro de acolhimento e aprendizagem renova a esperança de qualquer pessoa.

Quem é essa gente toda em Alcântara?

Andando com cuidado pra não ser atingido na cabeça por uma bandeira, fui cumprimentado por três candidatos a deputado estadual no Calçadão de Alcântara. Coincidentemente, dois tinham “Augusto” no nome composto. A concentração de candidatos é tão grande que você encontra homônimos no mesmo metro quadrado. Delegado, médico, miliciano, tudo circulando em Alcântara rindo, apertando a mão do povo e fazendo promessa. A maior região comercial de São Gonçalo, onde já não cabia mais ninguém, está lotada de bandeiras, políticos e cabos eleitorais. Quase tão cheia quanto no Natal. Mas a maior parte do eleitorado gonçalense não conhece ninguém que faz campanha pelas ruas de São Gonçalo.

A candidatura da vereadora Priscilla Canedo a deputada estadual ilustra bem o que acontece no município. O mesmo apoiador segura, diariamente, uma bandeira com a foto e o número de Priscilla na rua Dr. Alfredo Backer, em frente ao condomínio Solar de Alcântara. Não vi outras bandeiras ou apoiadores de Priscilla no bairro, tradicionalmente estratégico até para a corrida presidencial. Enquanto candidatos estrangeiros têm dinheiro para investir em sistemas de som, centenas de bandeiras, cabos eleitorais e carreatas, a representante do único mandato feminino na Câmara de São Gonçalo, integrante do princípio de oposição e equilíbro que tivemos ao Governo Nelson, conta com uma pessoa só distribuindo panfletos. Não é justo com São Gonçalo.

Nomes da política local, Douglas Ruas, João Pires e Professor Josemar fazem campanhas à ALERJ de forte presença na ruas de Alcântara. Há outros políticos gonçalenses, mas com divulgação de menor expressão. Todos enfrentam um mar poderoso de candidatos desconhecidos, que nunca pisaram em nenhum dos aparelhos culturais da cidade e são incapazes de escrever corretamente o nome do bairro Colubandê no Instagram. Não é tão difícil assim, só precisa ter um pouquinho de intimidade com São Gonçalo.

Vestindo roupa cara, blazer, calça jeans apertada e sapato de couro, parecendo um alienígena do Leblon, um candidato cumprimentava os pedestres e pedia voto. Se tivesse andado na Rua da Feira alguma vez na vida, saberia que é impossível se mover entre o povo e as barracas sem usar algo leve e flexível. Se já tivesse pisado na lama de esgoto e lixo do Calçadão, calçaria tênis pra pular as poças melhor. Depois de eleito, esse candidato diria que São Gonçalo fica na Baixada Fluminense.

Chinelo, bermuda e camisa regata também não deveriam conquistar voto. Nem ser gonçalense é critério ideal. Pra pedir voto aqui, bastaria conhecer as dificuldades que o povo enfrenta e ser capaz de trabalhar na construção de dias melhores para São Gonçalo.