Como fui parar na Legião de Maria

Quando eu era adolescente, dormia rezando Ave-Marias. Elas me ajudavam a superar o medo da noite, colocar os pensamentos em ordem e relaxar. Às vezes pegava no sono antes da décima. Em outras ocasiões, com preocupações em excesso, ultrapassava cem orações e deixava de contar. Ao desistir do controle da contagem, o sono se aproximava. Perceber o sono chegando enquanto eu rezava, já quase inconsciente, trazia a paz mais alegre que já senti na vida. Esse hábito do passado preparou o caminho para minha vida adulta, inclusive destinos profissionais, e tornou possível meu ingresso na Legião.

O curioso é que essa não é a lembrança mais antiga que tenho da minha relação com a mãe de Jesus. Eu devia ter uns 10 anos de idade quando fui o Anjo Gabriel na peça teatral montada por uma vizinha. Decorei o texto da Anunciação a Nossa Senhora, vesti a roupa branca e longa do anjo e até que gostei da minha atuação infantil. Trinta anos depois, os atores daquela peça abençoada, todos crianças, continuam amigos íntimos, mesmo não se vendo com frequência.

Depois da adolescência, perdi o hábito de rezar. Mas, um fato novo surgiu na minha vida décadas depois. Comecei a trabalhar na Barra da Tijuca. Quem mora em São Gonçalo e trabalha no Rio sabe o que é sofrimento. Quem trabalha na Barra já deixou de sofrer na terra e suporta as agruras do inferno. Como um zumbi que só chegava em casa para dormir e acordar antes das 5h, tive certeza que precisava mudar minha vida: voltei a rezar Ave-Marias.

Ladainhas, por si só, são praticadas por diversas culturas e têm efeito transformador poderoso sobre a mente e o espírito. Rezava antes do sol nascer, pouco antes de sair de casa. Nos fins de semana, folgas e feriados, rezava o Terço completo, que inclui cinquenta Ave-Marias. Rezava principalmente por necessidade e até egoísmo, não por amor ou devoção. Mas rezava e pedia com sinceridade. Poucos meses depois, mudei de emprego e passei a trabalhar de casa. A Ave-Maria não é ladainha qualquer.

Com a mudança e mais tempo disponível, pude rezar mais e o Terço passou a ser hábito diário. Sabendo disso, minha mãe me convidou para participar da Legião de Maria, que é uma associação católica internacional que faz trabalhos de evangelização, como visitas a hospitais e abrigos. Diante de tantas graças recebidas desde a infância, não pude recusar o convite. Embora eu continue sendo o principal favorecido por cada Ave-Maria e trabalho realizado.

Nem a chuva reduz a alegria gonçalense

Rodei ontem pelo Raul Veiga, Bandeirante e Alcântara atrás de pipa e álbum da Copa do Mundo com meu filho. Parecia que a cidade de São Gonçalo estava em estado de alerta, prestando atenção em cada pessoa, pronta para retribuir a menor gentileza com outra muito maior.

Na rua Augusto Calheiros, no Raul Veiga, subi em uma rampa de garagem e esperei um senhor passar antes de dar ré. Ele passou olhando pra dentro (as janelas estavam abertas), deu “bom-dia” pro meu filho sentado no banco do carona, deu “bom-dia” pra mim do outro lado, me encarando com educação também, e foi embora com um sorriso permanente, fazendo questão absoluta de ser simpático.

Descemos do carro e o vendedor de pipas, lavando o quintal, veio logo nos receber. Sei de cada festival de cafifa improvisado nas comunidades do 2º e 3º distritos por causa dele. Após cada compra, conversamos por alguns minutos sobre essa brincadeira que insiste em não morrer, como São Gonçalo. A casa fica perto do Auto Posto Raul Veiga e depois do papo meu dia fica bem melhor. Com dez raias na mão (uma foi de graça), agora era hora de achar o álbum de figurinhas.

Paramos em frente à banca de jornal da rua Joaquim Laranjeiras, ao lado da Praça do Bandeirante, mas o álbum ainda não tinha chegado. A dona da banca nos indicou onde e com quem falar para comprar o álbum no dia seguinte, sem ligar pra concorrência. E um senhor comprando jornal resolveu jogar conversa fora. Disse que cada pinta no rosto de meu filho significa uma namorada no futuro, assunto que despertou o interesse do Miguel. O senhor tinha tanto pra falar que tivemos que nos despedir antes que terminasse. Atravessamos a perigosa Joaquim Laranjeiras acenando pra trás.

Não ficamos satisfeitos, o jeito seria tentar outra banca de jornal em Alcântara, onde encontramos de tudo. Estacionamos atrás da loja Lab Madeiras e Ferragens e fizemos o restante do caminho a pé. Na manhã fria de ontem, uma fila de pessoas aguardava um cafezinho com bolo gratuitos em frente à loja do Saara, na Estrada Raul Veiga, e um palhaço com microfone garantia a animação da galera cantando e fazendo piada.

A banca do Sandro, em frente às Casas Bahia, também não tinha o álbum e recomendou comprar hoje, domingo, em uma promoção do Jornal Extra. O segundo fracasso não gerou tristeza porque ouvimos que o álbum sairia de graça, junto com o jornal. Era hora de voltar pra casa e a chuva tinha apertado, então corremos. Passamos em frente à Saara de novo e o palhaço gritou no microfone.

– Lá vem o pai correndo com o filho, lá vão eles correndo.

Molhados, eu e Miguel caímos na risada. Todo o povo na fila olhou pra gente, mas nós não olhamos pra ninguém, envergonhados. Miguel só disse pra mim: “O dia hoje está muito maneiro, né, pai?”.

Me tornei pai em uma noite nervosa em Nova Cidade

Era um sábado à noite, há 11 anos, e minha esposa sentia as dores provocadas pelo início do trabalho de parto. Nós morávamos no Bairro Almerinda e o obstetra morava no Recreio dos Bandeirantes. Ligamos pra ele pela segunda vez em vinte minutos, agora tinha havido sangramento, então o doutor Renato confirmou: vai pro hospital porque vai nascer.

Antes de falar com o médico, pesquisei os sintomas que Bia sentia no Google. Meio sem saber o que estava fazendo porque um nervosismo que apagava meus sentidos e movimentos aumentava junto com as contrações. Tentei contar o intervalo entre as dores e descobrir se realmente haveria nascimento e em quanto tempo. Se contorcendo ao meu lado no sofá, sem conseguir dizer uma palavra, Bia não gostou da ideia da pesquisa online naquele momento de dor extrema e reclama comigo até hoje.

Pra compensar o tempo perdido na Internet e com medo de ter que lidar com um nascimento dentro do carro, acelerei. Do Almerinda à Clínica São Silvestre, em Nova Cidade, passei por cima de quebra-molas e buracos reduzindo a velocidade apenas para não quebrar o carro no caminho. Outra decisão ruim, até hoje Bia se lembra da dor que cada obstáculo provocou.

Antes de sair de casa, avisamos nossas famílias de que o Miguel estava nascendo. Meu sogro, minha sogra e minha cunhada vestiam roupas de gala para um aniversário de 15 anos. Adiaram a ida à festa e correram daquele jeito, brilhosos e chiques, para a São Silvestre. Por medo, outra vez, e por me considerar dispensável, não fiz questão de assisir o nascimento e também recebo reclamações eternas por isso. Homens, sejam fortes, o trabalho do parto também é de vocês.

Quando a enfermeira mostrou o Miguel, a família inteira (minha mãe se juntou ao grupo), um ao lado do outro, sorriu ao mesmo tempo do outro lado do vidro, cena de filme. A missão do parto tinha sido cumprida, então resolvi sair para comer alguma coisa, eram quase 10 horas da noite.

Tomado pela emoção de ser pai, preferi não dirigir, peguei um ônibus. A intenção era ir ao Habib’s, no Mutondo, mas entrei num ônibus que ia para o lado contrário, em direção ao Centro. Não sabia mais o que era sonho e realidade. No ônibus errado encontrei, por acaso, um tio da minha esposa. Contei pra ele a novidade e começamos uma conversa empolgada, ficando cada vez mais distante do Habib’s, do Mutondo e da minha esposa recém-operada no quarto.

Cheguei com as esfirras muito tempo depois. Meu sogro, minha sogra e minha cunhada me esperavam e já tinham perdido a festa. Bia estava com fome, mas, por causa da cirurgia recente, achamos melhor que ela não comesse as esfirras. Outra reclamação. O cheiro maravilhoso se espalhou pelo quarto.